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Eu acho que o erro inicial foi colocar uma data ou colocar datas num surto que, pelos exemplos estrangeiros que temos tido, a começar na China, passando por Itália, por Espanha e agora pelos Estados Unidos, não é possível colocar datas. É impossível colocar datas num surto deste gênero. Não esquecemos que o mundo claramente não estava à espera para ele, apesar de todos os cientistas dizerem que um dia aconteceria. Isto é como os sismos, ninguém sabe quando é que aparece. Portanto, ninguém está preparado para ele. Colocar uma data, aquela data do 14 de abril ou do 15 de abril, foi um erro absoluto. Já se está a ver que não vai ser assim. E depois há aqui uma diferença, uma dicotomia entre o otimismo, que é: estamos a conter, estamos numa fase de conter a doença, estamos a fazer tudo certo. Isto vai ser no final de maio e já é, outra vez, um erro dizer que é no final de maio, para na próxima semana podermos dizer que é no meio de junho. É um erro, mas há aqui um otimismo moderado, dizer que estamos a conter e que a curva está moderadamente a crescer.
O próprio presidente da República, ouvíamos há bocado, falava em estarmos a ganhar a curva, foram as palavras de Marcelo Rebelo de Sousa.
Sim, é este otimismo que eu acho que pode dar um excesso de confiança a algumas pessoas, apesar das medidas de contenção e deste travão às pessoas ficarem em casa ao fim de semana e na Páscoa. Pode haver aqui algum excesso de confiança e as pessoas poderem fazer menos higiene, lavar menos as mãos, ter menos cuidados a ir às compras e depois dizerem: "Cuidado, vêm aí muito mais casos, temos que estar preparados para muito mais casos." E estamos preparados para muito mais casos, se não estivéssemos, não estaríamos a montar os hospitais de campanha que estamos a montar em todo o país para reforçar o Serviço Nacional de Saúde e receber os doentes que se espera que venhamos a ter nos próximos dias. Além disso, hoje, é preciso dizer isto, há três números que me parecem essenciais aqui. Três, mais alguns, mas três essenciais. Nós não só superamos essa barreira, que eu acho que é psicológica, dos 100 mortos, como ultrapassamos a barreira dos cinco mil casos. Já vamos em 5170, sendo que hoje foi o número com a maior subida de casos de sempre. Foram 902 casos a mais do que ontem e nunca tinha havido tantos novos casos num só dia, como hoje. Ou seja, há aqui quase mais novos mil casos num dia. Não é só porque começamos a fazer mais testes, é mesmo porque a doença se está a espalhar e este é um número muito significativo e é um número que é para levar em linha de conta, apesar de, em termos percentuais, os 21% de crescimento em relação a ontem, não ser um número brutal, já tivemos muito superior a ele. Portanto, estes são os números que eu gostaria de chamar a atenção para eles.
E há também aqui a questão que foi notícia. Finalmente, a ministra da Saúde deu a indicação de quantos testes é que foram realizados até ao dia de ontem, até ao dia 26 de março, 40 mil testes. Já vamos analisar contigo, Filomena, deixa só ouvir aqui a ministra da Saúde a fazer este anúncio.
Neste momento, sabemos que o nosso maior desafio...
Aliás, não era este o registo que queríamos ouvir, mas sim este. Marta Temido a dar conta de 40 mil testes realizados entre o dia 1 de março e o dia 26 deste mês.
Nós temos o reporte de que foram realizados cerca de 40 mil testes entre o dia 1 de março e o dia 26 de março. Temos também o reporte, e sabemos que é assim, de que algumas pessoas foram enviadas para casa e recomendado que voltassem mais tarde, depois de receberem uma mensagem do hospital, porque no momento não havia ou a zaragatoa ou o reagente. É nesse sentido que esperamos de todos a colaboração no segmento das orientações transmitidas e que partilhamos convosco aquilo que tem sido a nossa dificuldade na aquisição, no mercado internacional, de alguns destes materiais. Aquilo que queremos dizer muito claramente é que a regra definida de testar, testar, testar, é também a nossa prioridade.
A ministra da Saúde, Filomena aqui a reforçar que testar, testar, testar é prioridade e finalmente com este balanço dos testes realizados até agora.
Sim, há um balanço de testes até agora desde o dia 1 de março, ou seja, não desde que tivemos o primeiro caso. Começamos por aqui. Depois há um número que não consegue explicar quantos é que há por dia, e era importante sabermos quantos é que são feitos por dia. Mas há aqui depois uma outra pergunta que não foi respondida, que é quanto tempo estamos a demorar a obter o resultado desses testes. Não só porque isso é importante para imediatamente as pessoas serem isoladas e não contaminarem mais ninguém, como para, além disso, poderem ser tratadas em hospital, se for caso disso. Porque há aqui sempre um tempo de espera, não só para fazer o teste, porque não há os reagentes, como ela diz, como para depois saber os resultados. E isso não só provoca, obviamente, a necessária ansiedade e os problemas nas pessoas, como provavelmente não leva a uma imediata quarentena em casa e a uma separação, sendo que eu volto a insistir, e há números hoje que o mostram, que essa quarentena em casa, que é uma das medidas que a Direção Geral de Saúde e o Ministério da Saúde mais insistem, não vai ser possível quando E se não chegou já, a doença se alastrar para o interior do país, porque nas casas do interior do país não há duas ou três casas de banho para as pessoas estarem isoladas e ficarem a ser tratadas numa zona rural onde as pessoas são muito mais idosas. E obviamente, quando duas pessoas mais idosas vivem sozinhas numa casa que normalmente apenas tem uma casa de banho, é impossível que um idoso trate de outro idoso nesse isolamento. Isso é incomportável, não vai ser assim, não vai ser possível.
A ansiedade dos portugueses é em relação a isso, ao confinamento e como é que ele vai ser feito. Mas também, como dizias, em relação ao tempo de espera pelos resultados e também em relação à disponibilidade de testes, ao estoque, sendo que houve esta notícia de que 200 mil testes vão chegar para a semana vindos da China.
Sim, também podiam ter chegado ontem ventiladores e afinal veio se a confirmar que não chegaram e agora talvez cheguem na quarta ou na quinta-feira. Portanto, isso é tudo muito relativo. Talvez venham, talvez aconteça. Eu já sei que estou a ser apelidada por muita gente de pessimista, mas eu prefiro ser pessimista e depois ter boas notícias do que ser neste momento muito confiante e depois as notícias serem as piores possíveis. Eu acho que às vezes o otimismo nos traz o pior, porque nos permite abrir o flanco e quando se abre o flanco, normalmente dá mau resultado. Eu olhando para os números de hoje e olhando para este mapa, que tem aqui, aliás, algumas discrepâncias em relação ao que deveria ter, nós olhamos para aqui e vimos alguns dados que são muito preocupantes. De ontem para hoje, houve mais 15 mortes em pessoas acima de 80 anos. A própria diretora geral de saúde disse que a mortalidade neste grupo de risco superior a 80 anos está acima dos 7,5%. É muito elevada, sendo que a mortalidade em Portugal já está acima do 1,8% e isto é um dado muito relevante. São números que assustam. Houve também uma morte, já são duas mortes, na faixa etária entre os 40 e os 49 anos. E aliás, foi nesta faixa etária, entre os 40 e os 49 anos, que houve uma maior subida de casos de ontem para hoje, foram mais 219 casos. Ou seja, há aqui alguns dados que nos obrigam a pensar. E se tu olhares para os números ainda, houve menos 592 casos a norte, na zona Norte, eles consideram toda a zona Norte, mas se depois formos ver por regiões, Lisboa voltou a passar à frente do Porto como o concelho com mais casos. Significa isto que se Lisboa voltou a passar à frente do Porto com mais casos e a zona Norte teve mais 592 casos, ou seja, estes tantos casos sem serem no Porto, significa que o vírus está sobretudo a deslocar-se para o interior. E é esta preocupação que eu reforço, a preocupação de quando o vírus chegar ao interior, e se tu olhares para os mapas, percebes que ele está neste momento no litoral e nos grandes centros urbanos, vai tornar-se um problema gigantesco para o Serviço Nacional de Saúde, porque os hospitais do interior, isso aí penso que toda a gente o conhece e quem não conheça, eu posso referi-lo, os hospitais do interior não têm condições para receber os doentes e as casas do interior não têm condições para esse isolamento.
E o interior é uma região do país que tem muitos idosos. A taxa de letalidade das pessoas acima dos 70 anos é de 7,9% neste momento.
E de 1,3% exatamente para os outros.
E a ministra da Saúde admite que a situação dos lares, em particular, também, que têm muitos idosos, como sabemos, implica um esforço muito intenso e articulado por parte das autoridades, da Segurança Social e da Proteção Civil, também das autarquias e das autoridades de saúde. Vamos ouvir Marta Temido assumir que a principal prioridade são os idosos neste momento.
Neste momento, sabemos que o nosso maior desafio, além de todos os outros, são as unidades da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados e as estruturas residenciais para idosos e também os lares. Sabemos que os seus utentes são os portugueses de maior risco e para os apoiar precisamos que a identificação de casos suspeitos mobilize um esforço muito intenso, muito articulado, muito harmonioso e tempestivo de várias entidades. Desde logo, das autoridades de saúde, também da Segurança Social, mas também da Proteção Civil, das autarquias locais, de toda a comunidade.
Este apelo, Filomena Martins, da ministra da Saúde para que todos estejam articulados, para que façam esse esforço, para que o cenário não seja ainda pior do que aquele que temos visto entre as mortes dos idosos e também cada vez mais infetados nos lares portugueses.
Sim, mas lá vem o meu pessimismo militante. Eu acho que aqui, mais uma vez, nós não estivemos atentos ao que se passava em Espanha. E em Espanha, que começou mais cedo este surto que nós, de repente tornou-se imediato e as notícias eram, aliás, não eram assustadoras, eram aterrorizantes. Com o que se passou numa série de lares em redor de Espanha, em redor de Madrid, que foi o segundo foco de incidência da doença em Espanha. E aí, onde todos os dias nos jornais espanhóis era possível perceber o que estava a passar nos lares, teria permitido a Portugal perceber que isso seria um problema também em Portugal e eu acho que era obrigatório ter agido por antecipação e não estar a reagir como estamos agora. Eu sou sempre pelo agir por antecipação e não reagir. E nós estamos a reagir, e estamos a reagir quando eu acho que pode ser tarde demais. Neste momento, talvez ainda Consigamos evitar algumas daquelas imagens e notícias horríveis que vimos em Espanha e que vimos também em Itália. Mas eu não sei se nós tivéssemos olhado pro exemplo espanhol e tivéssemos tomado medidas logo sobre um assunto que sabíamos que ia acontecer, que era impossível que não se repetisse em Portugal como tinha acontecido em Espanha, não teríamos evitado as cenas que estamos a ver agora em Portugal, como esta transferência de doentes que durou durante uma noite inteira, até às cinco da manhã, esta madrugada.
Já agora, Filomena, e muito rapidamente, relativamente ao presidente da República, que não quis referir-se ainda à decisão de alargar o estado de emergência, à partida, perante todos estes cenários, será inevitável.
Eu penso que isso é quase um dado adquirido. Espanha já tomou essa medida, a Itália penso que vai tomar hoje ou tá mais ou menos decidida. Não sei se ela avançou nas últimas horas, porque agora estive um pouco desligada, mas iria avançar com o alargamento da medida e é a terceira vez que o faz. Portanto, eu acho que não temos muita forma de o evitar, até porque apesar de todos estarem a dizer que os portugueses estão a cumprir as regras, estão a ficar quietos em casa, destas regras para não haver tráfego nas estradas, na Páscoa e nos fins de semana, para evitar que as pessoas não vão visitar a família na Páscoa, e estes apelos todos para que as pessoas sejam compreensíveis neste tempo. Também já há drones a controlar, já há uma série de outras medidas. Haverá sempre uma tendência para as pessoas tentarem sair de casa e até porque esta história de que estamos mais ou menos a controlar as coisas, não estamos a fazer mal, estamos a dar um bom exemplo, pode haver a tentação, até porque começa a ser o momento chave, em que as pessoas vão ficar saturadas de estar em casa. Provavelmente, o bom tempo vai causar uma necessidade tremenda das pessoas saírem à rua e terem saudades das pessoas de família, no momento em que se costumavam encontrar para comemorar e para estar juntas. Por isso vai ser um momento em que vai ser necessário tomar decisões, e eu acho que essa é uma decisão que não pode deixar de ser tomada. E em termos mínimos, porque o estado de emergência em que estamos é um estado de emergência mínimo, com as medidas apenas que acautelam que as pessoas têm de cumprir as regras.