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Queria começar por lhe perguntar sobre as declarações do primeiro-ministro de Israel nesta conferência de imprensa, quando ele fala de uma guerra longa e lenta. Qual considera ser o motivo desta previsão de uma guerra longa?
O que eu julgo que o primeiro motivo é a própria dimensão militar, que é a tipificação do espaço de batalha. E vou relevar os túneis, que não são novidade. Já se passou na Grande Guerra, já se passou no Vietname, mas obviamente Israel não tem este tipo de experiências, pese embora tenha pessoal especializado. Portanto, primeiro, esta complexidade. Segundo, os variadíssimos condicionamentos da sociedade internacional fazem com que, obviamente, a guerra, na dimensão militar e depois na consequência que tenha para a dimensão civil, possa ser longa, porque de facto será relativamente fácil em campo aberto restringir o Hamas ao espaço urbano. Na parte sul, uma faixa de segurança com o Egito. Será relativamente fácil, mas depois no espaço urbano combinado com o subterrâneo, obviamente que isso demora a fazer. Limpeza de edifícios, a proteção das forças, a vantagem numérica no túnel desvanece-se muito e ainda há a possibilidade de túneis ainda não estarem completamente identificados, embora a tecnologia existente. Por conseguinte, é a preparação da sociedade israelita para a sustentação do fenómeno da guerra, que obviamente há de exigir sacrifícios da sociedade que está a ancorar o fenómeno, quer do ponto de vista do recurso humano, quer do ponto de vista da logística, quer do ponto de vista da defesa pessoal. E o primeiro-ministro está a alertar a sociedade internacional, obviamente, com a consequência que já sabe, muito provavelmente, é que no final, mesmo correndo tudo de acordo com o objetivo israelita, o seu primeiro-ministro israelita poderá correr pelo menos o perigo de deixar de desempenhar funções pelas críticas que têm crescido, a falta de preparação da sua tropa, a questão da segurança não ter sido totalmente calculada. Faz-me lembrar 1973, com o Yom Kippur, mais tarde o senhor primeiro-ministro israelita, à altura julgo que era Golda Meir, também em 74 censurada por estas questões, e Israel ganhou a guerra, acaba também por sair.
É possível prever quanto tempo será preciso para neutralizar o Hamas por parte de Israel? Falamos até num território relativamente pequeno, se compararmos com guerras entre dois países.
Sim. Eu julgo que só os israelitas sabem. Por quê? Porque isso faz-se comparando com ritmos de batalha, o tempo que foi planeado para a consecução das diferentes fases e obviamente nós à distância não sabemos. Sabemos as dificuldades, mas não sabemos o que está planeado como ritmo. Repare, por exemplo, o tempo que demorou, e com túneis também, Bakhmut, na Ucrânia, para ter uma comparação. E portanto, eu poderia dizer daqui quatro a seis meses, mas estaria a especular muito, porque não há o dado em concreto. E repare que claro que o espaço de batalha é mais curto, mas não é só isso que tipifica o espaço de batalha, é a sua própria organização, é o tipo de inimigo. Por exemplo, em 2006 não foi uma guerra entre Estados, foi uma guerra entre Israel e o Hezbollah, que está no Líbano. As pessoas eventualmente até já se esqueceram. Foi uma guerra relativamente rápida, julgo que foram 34 dias, estou a dizer de cor, mas julgo que é isto. Foi forçado um acordo de paz. O Hezbollah tinha tantos meios que já quase que parecia uma guerra convencional, mas não tinha esta complexidade de túneis e a altura de meios, embora já tivesse muitos. E, portanto, o tempo que lhe podia dar era mera especulação. Agora, já sabemos é que se nós nos envolvermos em combate urbano, em que ou se destroem todos os edifícios, e obviamente isto não acontece, ou para entrar no edifício precisa de o limpar. E limpá-lo quer dizer o quê? Ver se existem escudos humanos, ver se existem minas, armadilhas, explosivos improvisados, uma série de coisas. Só a limpeza do edifício, cinco, seis andares, demora três horas. Agora está a ver isto na densidade de alguma malha urbana e até desorganizada a que junta o túnel. E obviamente que se associa a questão do refém. Portanto, não lhe posso dar, mas a operação já tem duas fases. Nós recordamo-nos que a primeira foi o tentar eliminar quem se infiltrou em território israelita nos primeiros dias. E agora a segunda fase é tentar entrar em Gaza. Vamos ver que solução há a seguir, mas não lhe consigo dar um tempo exatamente porque não sei ao certo os tempos de planeamento e os meios que estão envolvidos no progresso. E também não há, à distância, uma análise muito mais rigorosa ou pormenorizada do espaço de batalha como os israelitas têm e como o Hamas certamente estará à espera, porque uma guerra sempre entre dois contendores e portanto nós não podemos só falar de um.
Será portanto longa, como prevê Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita que considera que esta segunda fase da guerra, como chama à incursão terrestre no norte de Gaza, não vai afectar as chances de recuperar reféns. Concorda com esta afirmação do primeiro-ministro?
Eu julgo que pode afectar. Outra vez, o discurso do primeiro-ministro também é para a sua própria sociedade e é na consequência de falar com familiares de reféns. Mas todos nós sabemos que obviamente que pode e se calhar já está a afectar. Se calhar até já houve reféns mortos na sequência de bombardeamentos. Por exemplo, de acordo com o Hamas, até já 50 reféns teriam sido mortos. Obviamente que isto tem a credibilidade que possa ter, mas pode ter um efeito. Ninguém acredita nisso. Os reféns são um activo importante para quem os tem. A questão aqui está em que também não é bom para o Hamas ter muitos reféns. Por quê? Por questão própria de organização e de controlo desses reféns. Mas há de chegar àqueles que entende mais valiosos, militares ou cargos dirigentes, que há de guardar para o fim e há de fazê-los valer, com a brutalidade que isto quer dizer, como moeda de troca. O Hamas sabe isto. Começa por exigir trocar os 200 e pouco pelos 6 mil a 10 mil prisioneiros palestinianos que estão em Israel. Depois, libertou duas pessoas com problemas humanitários, parece-me um jogo de marketing muito importante, quando estavam combinados à partida 50. Era isso que tinha sido negociado com o Catar e com a Cruz Vermelha Internacional. Mas a determinada altura, Israel não poderá ficar, digo eu, refém dessa existência. Certamente deu tempo para que se pudessem negociar a saída de reféns, eu vou lhe chamar assim, que se possam associar a outros conflitos ou aos principais contendoras, por exemplo, com a nacionalidade norte-americana ou com a nacionalidade alemã, ou até com a nacionalidade russa, por exemplo, como parece que ainda anda à procura porque não consegue ter uma lista deles. Mas julgo que há cinco reféns russo-israelitas que estão na posse do Hamas e que foi um assunto de conversa entre a própria organização e o regime russo. Mas quer dizer, respondendo objectivamente, acho obviamente que há perigo para os reféns, aliás, é por isso que eles lá estão, independentemente de tratamento e de forma de tratamentos, de não ser permitido reféns, mas em todos os fenómenos conflituais existem reféns. Há perigo, sim, senhor. E quem disser o contrário não me parece, aliás, sabe o que está a dizer, está a tentar entrar é no juízo de valor que eu possa fazer dessa pessoa ou do Estado que essa pessoa representa.
Muito obrigada, coronel Carlos Mendes Dias, por ter estado aqui conosco a analisar as declarações de Benjamin Netanyahu desta noite.