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Contamos agora com a análise de Jorge Fernandes, politólogo, membro do programa Fora do Baralho da Rádio Observador. Jorge, boa tarde. Obrigada por estares conosco. Para primeiras promessas da AD, é um bom arranque ou estavas à espera de mais?
Confesso que estava à espera de mais, Vanessa. Boa tarde, antes de mais. Eu acho que a AD está a cometer um erro de análise. Acho que, de certa maneira, Ventura está a saber ler um pouco melhor a situação. Enquanto nós vemos a AD falar da descida do IRS ou do IRC, que certamente é uma coisa que importa, mas que importa, apesar de tudo, a uma fatia mais curta do eleitorado e uma fatia que, em princípio, estaria até mais focada e voltada para votar num partido como a Iniciativa Liberal, que há muito faz disso a sua bandeira. Eu ouvi estas primeiras propostas de hoje e não vi nada, por exemplo, sobre pensões, sobre o salário mínimo, que foi precisamente aquilo que Ventura criticou. O Ventura está a fazer uma leitura da situação política e da maneira de atacar o Partido Socialista, que é muito mais realista, independentemente das soluções que ele possa apresentar. Hoje eu vi aquilo que Luís Montenegro disse e desta notícia que saiu depois da reunião com os economistas, em que eles dizem: "Nós não vamos entrar em irresponsabilidades, não vamos alinhar em leilões de propostas". A ideia de que o Partido Socialista é um partido não responsável, que não tenha atenção às contas públicas, está completamente enterrada. Portanto, o PSD não dá meças ao Partido Socialista no que diz respeito a isto. Eu não acho que seja uma ótima ideia vir enfatizar isto sem enfatizar, acima de tudo, a questão das pensões, do Serviço Nacional de Saúde, do salário mínimo, porque é aí que o PSD pode competir com o PS. Nestas competições sobre quem baixa mais o IRS, a Iniciativa Liberal já cumpre esse papel. E mais, o PSD sabe que depois das eleições, se houver uma necessidade de fazer uma coligação com a Iniciativa Liberal, não haverá qualquer problema. Portanto, o Montenegro está-se a focar no adversário à sua direita, à Iniciativa Liberal, quando se devia estar a focar, na verdade, no adversário à sua esquerda, o Partido Socialista.
E as listas da AD foram aprovadas ontem em Conselho Nacional, deixando de fora nomes como Duarte Pacheco, também Paulo Rangel, Margarida Balseiro Lopes, André Coelho Lima. São quadros que o PSD pode dar-se ao luxo de perder para as legislativas ou poderá haver aqui também algum intuito a pensar nas europeias?
Eu olhei para as listas todas com detalhe, não só as cabeças de lista, mas vi o documento todo das listas completas e acho claramente que houve uma pequena purga interna. Eu percebo que Montenegro e todos os líderes querem fazer isto, que Montenegro queira manter um controle sobre o grupo parlamentar, mas há aqui coisas absolutamente inexplicáveis. Por exemplo, a falta de comparência de Paulo Rangel ou de Margarida Balseiro Lopes, que são pessoas próximas de Montenegro ao longo deste último ano e meio, dois anos em que Montenegro é líder, é um pouco inexplicável. E eu acho difícil esse argumento que utilizaste, Vanessa, a ideia de que o PSD, de alguma maneira, está a guardar quadros para as europeias. Eu percebo que as europeias possam ser umas eleições de alguma importância mais à frente e que, para algumas pessoas, até em particular, um cargo europeu possa ter mais interesse, nomeadamente do ponto de vista financeiro. Agora, quanto ao partido, achei as listas, com raras exceções, um pouco decepcionantes, confesso. A máquina do partido está representada, não com os seus melhores nomes. Sob o ponto de vista dos independentes, podemos ir aqui muito rapidamente. Penso que há três ou quatro pessoas bastante interessantes. Não vou nomear quem, pois são pessoas que eu conheço, algumas até sou amigo, e portanto acho que são interessantes. Tenho aqui um claro conflito de interesses, mas em geral acho que o PSD precisava ter feito melhor, porque há aqui bastantes independentes, que são os independentes de mais qualidade, que até podem ser conhecidos na bolha mediática, se quisermos, mas sob o ponto de vista do grande público, não penso que haja aqui muitos nomes que sejam imediatamente reconhecíveis pelo eleitor médio e isso não desajuda o PSD, mas certamente não tem o mecanismo que tipicamente os independentes têm, que é sinalizar aos eleitores a força das ideias e daquela campanha eleitoral.