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Vamos estar agora à conversa com o colunista do dia. Hoje é José Ribeiro e Castro, ex-líder do CDS, que assina um artigo de opinião no site do Observador com o título "Os Pupilos de Pedro Nuno" e assina na qualidade de advogado e cidadão. Bem-vindo, José Ribeiro e Castro.
Boa tarde.
Lendo o seu artigo, percebe-se que Vasco Cordeiro é um desses pupilos a que se refere a propósito do chumbo pelo PS Açores do governo de José Manuel Bolieiro, governo da AD. Escreve mesmo que o líder socialista açoriano é um cordeiro de Pedro Nuno Santos, do líder socialista. A decisão de Vasco Cordeiro é uma ordem do Largo do Rato?
Eu não tenho dúvidas sobre isso. Pareceu bastante evidente, desde logo pela forma como comentou Pedro Nuno Santos as eleições nos Açores e fez sair no público um título que depois não assumiu. Mas enfim, são segredos de polichinelo. E há uma assinatura dessa ordem, que é a deliberação por unanimidade do Conselho Regional. O Conselho Regional é o órgão mais importante do PS Açores entre congressos. Portanto, é um órgão em que quando há uma decisão unânime, isso parece mais o comitê central do que propriamente o Conselho Regional. É uma obediência aos interesses do PS nacional interpretados por Pedro Nuno Santos. Creio que foi isso que se passou. Ainda que isso também caísse bem num sentimento algo amargo, azedo, ressabiado, que ressaltou nos rostos de alguns dirigentes socialistas açorianos que, percebe-se, acreditavam muito que iam virar a mesa e caíram mais uma vez. Baixaram, perderam de 25 pra 23 deputados e eu percebo que esse sentimento é negativo, mas comporta-se com pouca responsabilidade do ponto de vista da política regional, no meu entender.
Esta estratégia do Partido Socialista subverte de alguma forma a ideia de que é possível governar em maioria relativa?
Vamos ver. De fato, este PS não tem nada a ver com o PS de Mário Soares. Isso é uma coisa evidente. Como eu também digo no artigo, o muro que estava à sua esquerda e que caiu em 2015, agora foi colocado ao centro. De fato, a direção nacional do PS quer colocar um muro entre o PS e o PSD. E isso, de fato, pode ter consequências na evolução do regime, porque até agora ainda era bastante frequente que o PSD e o CDS várias vezes, quando o muro à esquerda ainda lá estava, até 2015, várias vezes viabilizaram orçamentos, não votavam moções de censura para que o PS não ficasse condenado a entender-se com o PCP, coisa que não queria fazer, ou com o PCP e o Bloco, coisa que não queria fazer. E havia um certo entendimento da política nacional de que, embora havendo maioria de esquerda, fosse legítimo que a esquerda governasse, o Partido Socialista convinha, se essa fosse a vontade da direção do Partido Socialista, que a oposição não se fizesse com sacrifício da democracia. E Pedro Nuno Santos não o quer fazer. Aliás, isso viu-se antes do congresso do Partido Socialista. José Luís Carneiro disse às tantas que viabilizaria um governo do PSD se isso fosse indispensável. E rapidamente o mandaram calar. O que José Luís Carneiro disse não é realmente nada de novo. O que é de novo é que o mandem calar. Isso é que é novo. Porque Mário Soares não se encheu muitas vezes disso. Guterres, Bruno Correia disse uma legislatura inteira, de 95 a 99, e depois acabou por cair. Foi ele próprio que se atirou da cadeira abaixo, mais ninguém. E José Sócrates, ele próprio, também me encheu disso até à célebre votação do PEC 4. E eu acho que é bastante negativa a linha do Partido Socialista. Vamos ver onde é que isso dá.
E considera aqui que pode haver... Mas conclua já agora.
Eu espero que contribua pra uma estrondosa derrota do Partido Socialista nas eleições.
Nas legislativas de 10 de março.
Nas legislativas, exatamente.
Estava portanto aqui a querer dizer que o centro acaba por ficar prejudicado e com essas consequências para a própria democracia. Eu pergunto-lhe se a AD, o PSD e o CDS não têm aqui uma cota parte de responsabilidade no fato de o Chega ter a faca e o queijo na mão ou se essa responsabilidade pode ser sacada só ao PS.
Só ao PS. Vamos lá ver. Cada um tem a faca e o queijo na mão relativamente a si próprio. O Chega tem a faca e o queijo na mão relativamente a si próprio. E a AD também tem a faca e o queijo na mão relativamente a si próprio. E o PS relativamente a si próprio também. Depois é preciso ver como é que isso joga quanto à responsabilidade política nacional. Se o eleitorado vota dando uma maioria clara, uma liderança clara a uma força política. Faz parte da democracia que não se obstrua, que não se sabote essa liderança, que é o que o PS quer fazer nos Açores E é um bocadinho caricato, usando palavras dele, ridículo ou obtuso, etc, que Vasco Cordeiro venha dizer que nós não seremos oposição, a oposição seria o Chega e ficaríamos condenados a aprovar todos os orçamentos e planos. Nada disso. Isso parece um aprendiz que chegou hoje à política nacional, porque não é assim. O facto de a pessoa viabilizar, com a abstenção, o voto de investidura do governo, não o vincula a coisa nenhuma a votar o orçamento, depende do orçamento. Até aumenta, se calhar, a sua capacidade negocial na votação desse orçamento. E depois depende do governo. Só que o jogo continua aberto e quem é oposição continua a poder fazê-lo. O que é que tem uma posição democrática de não sabotar a democracia? E o Partido Socialista está tão cego que prefere sabotar a democracia a favorecer a democracia se é outra a vencedora. É isso que é bastante negativo.
Mas é inevitável que a recusa do PS Açores entregue o poder ao Chega?
Não, mas dá-lhe mais força. Como eu digo, é evidente. Eu se fosse o Chega já tinha mandado um telegrama de agradecimento ao Partido Socialista. Isso parece bastante óbvio, porque os cinco deputados do Chega nos Açores não teriam a força que têm depois da declaração de Vasco Cordeiro. Portanto, o que Vasco Cordeiro fez foi de facto reforçar. Agora, como é que o Chega vai usar esse poder? Temos que esperar para ver.
Temos que esperar pela hora da verdade.
Se os dois chumbarem, pagarão o preço por isso, porque eu não acredito que depois da crise açoriana, como ela foi aberta, e se ela se renova de uma forma completamente infantil e cega, logo no início do mandato, com o chumbo do programa do governo, daqui a seis meses teremos eleições regionais, enfim, o PSD, o CDS e o PPM continuarão a governar nos Açores. E eu creio que, se bem conheço o pensamento dos açorianos, o PS baixará. E os partidos que sabotarem serão sancionados eleitoralmente, é o que eu considero normal.
E nesta conversa, José Ribeiro e Castro já falou duas ou três vezes em Mário Soares. No artigo que publica no site do Observador, escreve mesmo que 50 anos depois, Pedro Nuno Santos destruiu o PS de Mário Soares na imagem e na memória que tínhamos dele. É uma acusação bastante forte esta. Por que diz isto e em poucas palavras, porque temos mesmo de terminar.
Não tenho dúvida nenhuma. Aliás, não é o único sinal disso. Mas Mário Soares jamais favoreceria partidos radicais, populistas ou extremistas. E, portanto, se na perspectiva do PS, o Chega é um partido populista, não faz sentido que estrategicamente o Partido Socialista o chegue a favorecer. E manifestamente é isso que o PS está a fazer, pura e simplesmente pela ideia cega e interesseira de que se dividir a direita, isso favorece-nos a nós. É isso. É um jogo demasiado perverso para poder ser levado a sério.
E os nossos ouvintes podem ler mais dos argumentos de José Ribeiro e Castro no site do Observador com este artigo que tem o título "Os Pupilos de Pedro Nuno". José Ribeiro e Castro, muito obrigada e até à próxima.
Muito obrigado.