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Faz amanhã uma semana que os eleitores norte-americanos decidiram trazer de volta à Casa Branca o ex-presidente Donald Trump, que será o primeiro presidente condenado à frente dos destinos do país mais poderoso do mundo. No discurso de concessão, Kamala Harris prometeu continuar a lutar. A nossa colunista do dia questiona-se sobre que luta é essa. É professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho. Patrícia Fernandes, muito bem-vinda.
Olá, obrigada pelo convite mais uma vez.
Enfatiza no artigo a dissonância política das elites democratas e a expressão até está no título que escolheu para este artigo. Privilegiou-se o que são fenômenos midiáticos e redes sociais, influência, desprezando o potencial das chamadas maiorias silenciosas. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos.
No caso do Partido Democrata, passou muito por aí, mas não é só esse o problema. O problema tem a ver com o fato de o partido estar basicamente capturado pelas chamadas elites acadêmicas, que têm imposto uma agenda, que nós habitualmente cá chamamos, e lá também se chama, agenda identitária, e isso traz para o discurso e para a discussão pública, para a esfera pública, uma série de problemas, de questões teoricamente muito interessantes, filosoficamente muito relevantes, mas que dizem muito pouco àquilo que é a maioria dos norte-americanos, que são pessoas normais, trabalhadores normais, com preocupações normais e que têm um distanciamento muito grande. Normalmente, desconhecem coisas que são muito importantes para essa elite acadêmica e que passa por conceitos como privilégio branco, heteronormatividade e todo aquele vocabulário que vem acoplado com esta agenda identitária. Portanto, isso aí é uma parte do problema e tem afastado o Partido Democrata das pessoas comuns, digamos assim, ou das pessoas normais e das preocupações dessas pessoas normais. A segunda parte do problema tem a ver que, talvez, já nesse universo paralelo onde eles se encontram, consideraram que seria politicamente útil e eficaz chamar para apoiar a sua candidata, figuras do mundo cultural, do mundo musical, do cinema. Tudo figuras que são muito conhecidas, publicamente conhecidas, e que estão geralmente do lado, historicamente e nas últimas décadas, dão sempre o seu apoio ao Partido Democrata, mas que, na verdade, não permitem representar essas preocupações. Então a minha expressão dissonância política, a partir da expressão mais popular da dissonância cognitiva, era um pouquinho chamar a atenção para isto. Quer dizer, o Partido Democrata tem uma tradição e era o principal representante das classes trabalhadoras, com tudo o que essa expressão significa hoje, porque é uma expressão muito contestada já. Mas aqui eu até usei a expressão final, até vou buscá-la a Bernie Sanders, que chamou exatamente a atenção para isso. A working class era o eleitorado preferencial do Partido Democrata, mas esse foi afastado pela sua agenda identitária, por esta obsessão com as elites e as elites culturais e sociais. Mas depois, eles surpreendem-se com o fato de isto não resultar. Então esta incapacidade de compreenderem que estão absolutamente distantes do mundo real, que eu acho verdadeiramente intrigante e que vale a pena explorar.
Há um desligamento do Partido Democrata das classes trabalhadoras, que é de agora, é recente?
Não tanto. Não é recente que esta é a segunda vitória de Donald Trump. Isto começou há mudanças progressivas e que têm vindo a afirmar. A primeira grande vaga foi com a eleição de Donald Trump, 2016, e aí a análise dos votos permitiu perceber de que modo o eleitor branco e muito masculino, mais afetado pela globalização, começou a transferir o seu voto do Partido Democrata, nas zonas antigamente dominadas pelo Partido Democrata, que se passaram para o lado republicano. Mas desde 2016, muitos analistas e jornalistas já têm vindo a acompanhar uma transferência também do voto hispânico, que desta vez foi ainda mais acentuado. E há mesmo tendências recentes. As sondagens já mostravam isso, a análise dos votos ainda está em curso, mas que mostram também uma transferência do voto negro do Partido Democrata para o Partido Republicano. Portanto, poderemos dizer que esta transferência acontece desde o início do século XXI, mas com diversas fases e alargando. O que se tem dito é que o Trump conseguiu alargar a sua coligação de apoio, criar uma coligação bastante ampla, e isso tem vindo a ser feito com fases: 2016, 2020 e agora 2024.
Esse desligamento do Partido Democrata das classes trabalhadoras, fazendo aqui agora uma ponte para o que se passa na Europa e já agora em Portugal, esse desligamento está a afetar também o centro-esquerda em Portugal?
Não é só o centro-esquerda em Portugal. Os estudos já mostram, já há vários anos, que há uma perda de eleitorado progressivo do centro-esquerda em todos os países da Europa. Portanto, isto não é uma novidade para quem trabalha na área da ciência política. Não sou exatamente da ciência política empírica, mas acompanho esses estudos, e há esse esvaziamento, primeiro do centro e depois do centro-esquerda. É particularmente visível na Alemanha, o Partido Socialista que desapareceu em França. As únicas exceções que são geralmente apontadas, não é que nós sejamos exceção, simplesmente nós chegamos sempre no final, é Portugal e Espanha. Mas esse esvaziamento já está a acontecer. E em Portugal é expectável que isso aconteça, uma vez que o partido de centro-esquerda, nomeadamente o Partido Socialista, e as últimas polêmicas até revelam isso, recusa-se a gerir os problemas das pessoas comuns E vai aumentando a bolha de descontentamento, e essa bolha vai acabar por rebentar em algum momento, já de certa forma foi revelada nas eleições de março, mas tende a aumentar se os problemas das pessoas não forem resolvidos.
Vamos só voltar aos Estados Unidos rapidamente, porque perante o diagnóstico que faz no artigo, com que dúvidas ficou ao ouvir Kamala Harris sobre o que vão fazer os democratas neste interregno?
Eu achei engraçado o discurso que ela teve, porque perante um resultado assim, eu acho que o mais sensato seria ela e o Partido Democrata olhar para dentro e pensar: "Onde é que nós falhamos? Como é que não conseguimos?" O Ricardo Araújo Pereira tinha no Governo Sombra uma reformulação da pergunta. A questão não é como é que eles elegeram este idiota, é como é que nós perdemos com este idiota. Não estou a subscrever a palavra idiota, mas acho que virar a pergunta era muito importante para o Partido Democrata e nomeadamente para Kamala. Fazer isso, um apresentador televisivo muito famoso dizia: "É preciso que os democratas se olhem ao espelho, é isso que precisam de fazer". Mas o discurso, em vez de apelar a essa: "Ok, vamos pensar em que é que falhamos, como é que não estamos a chegar lá?", dizia: "Vamos continuar a luta". Só que essa luta pode ser muito interessante para a Kamala, para as elites acadêmicas, para as elites culturais, mas se não é a luta da maioria dos norte-americanos, então há aqui um desfasamento que só pode conduzir a fracassos sucessivos do Partido Democrata.
Patrícia Fernandes.
Não é exatamente, desculpe. Só para dizer, não estou à espera que a luta fosse por em causa as eleições ou organizar, não sei. Não era isso que estava em causa, é só esta ideia de que vão continuar a luta pelos direitos reprodutivos, é isso? Porque a campanha foi só em torno disso.
Foi mais recente na questão do aborto.
Sim, isso não é suficiente para resolver o problema das pessoas. As pessoas numa democracia, e é por isso que a democracia existe, querem que os seus problemas sejam resolvidos. Quando não são, votam na melhor opção e não naquela que é menos idiota.
A reflexão trazida pela Patrícia Fernandes neste artigo, que tem o título "Interlúdio sobre Dissonância Política", é um dos que está em destaque na coluna de opinião do site do Observador. Patrícia, muito obrigada e boa semana.
Muito obrigada, boa semana.