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A economia portuguesa registou uma queda histórica de 16,5% no segundo trimestre do ano.
Os dados revelados há instantes pelo Instituto Nacional de Estatística revelam que, no período de confinamento e do estado de emergência, o Produto Interno Bruto sofreu uma contração de 16,5% face ao mesmo período de 2019. É uma queda de 14,1% em relação ao primeiro trimestre do ano. A economia portuguesa já tinha registado um decréscimo de 2,3 nos primeiros três meses do ano, mas as medidas para conter o novo coronavírus, que paralisaram vários setores, contribuíram para a maior descida de sempre registrada no país. Junta-se a nós agora em direto Pedro Brinca, professor no Departamento de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Pedro Brinca, bom dia, obrigada por estar conosco. Estes números eram expectáveis?
Bom dia. Sim, sem dúvida. Aliás, estes números seguem um padrão idêntico àquilo que temos observado ou observamos hoje e ontem para França, para Espanha, para Alemanha, para os Estados Unidos. São quedas dramáticas, são quedas que são históricas. Em todos os casos que mencionei, se não estou em erro, são as maiores quedas no PIB que existem desde que há registros e refletem exatamente a queda durante o período de confinamento. No caso de Portugal, entramos em confinamento cerca de 16 de março, acabamos cerca de meio de maio. Apanha principalmente esse período.
E reflete o que aconteceu no país. Isso quer dizer que esse momento, esse segundo trimestre, terá sido o pico da crise?
Temos a acreditar que sim. Ou seja, o problema desta crise e fazer este tipo de previsões tem muito a ver com duas coisas. Uma, obviamente, temos a vertente econômica e creio que as políticas que foram desenvolvidas para lidar com isto com mais ou menos atrito, existe um largo consenso e têm sido aplicadas. A questão é que a evolução econômica também depende muito das variáveis epidemiológicas, e essas são mais difíceis de prever. Vai haver segunda vaga, não vai haver segunda vaga? Em que medida é que as medidas que temos que continuar a seguir para prevenir a disseminação ou uma hipotética segunda vaga vão impedir o normal desenvolvimento da atividade econômica? Até que ponto é que os novos números que vão saindo em termos epidemiológicos vão restaurar a confiança nas empresas e a confiança nos consumidores? Tudo isso são variáveis que dependem da realidade epidemiológica e que vão afetar de forma intensa a economia. Dado que o confinamento terminou, as regras mais draconianas do confinamento terminaram a meio de maio, eu estou em crer que os números para o próximo trimestre serão melhores. Poderemos até, trimestre para trimestre, observar um crescimento. Mas as previsões dos economistas, sabemos todas como é que elas são.
E a incerteza é particularmente grande neste momento. Esta contração econômica está em linha com os outros países europeus, mais forte ou menos, mas estamos aqui em quase todos os países que estão a revelar os dados, estamos com descidas históricas. Parece que a recuperação também vai ser ao mesmo nível entre os países da União Europeia.
Eu acho que não será certo em todos igual, por uma razão muito importante: em Portugal, o peso do turismo é elevado. Nós sabemos que este ano, do ponto de vista do turismo, tem sido um impacto muitíssimo negativo e muitas empresas do setor já afirmaram que é um ano completamente perdido. Nós sabemos o impacto que o turismo do Reino Unido para o Algarve, por exemplo, e sabemos que Portugal não esteve na lista dos países do corredor aéreo, da isenção de quarentenas para quem viesse a Portugal. Tudo isto, dada a nossa dependência do turismo e a importância do setor do turismo na nossa atividade econômica, tudo isto realmente vai ter um impacto mais negativo. Eu prevejo que a recuperação para Portugal será assinalável no próximo trimestre, mas estou em crer que será abaixo daquilo que países, por exemplo, como Alemanha ou mesmo França, irão experienciar.
Pedro Brinca, e esta queda vai comprometer a meta fixada pelo governo, que é de 6,9% até o final do ano? Já é uma miragem.
É assim, se olharmos desde março, nós temos visto um padrão que é: a cada vaga de previsões, as coisas são cada vez piores. Mas estou em crer que lá chegaremos, como disse, estamos um pouco no ponto de viragem, se as variáveis epidemiológicas ajudarem e terminado o período com as medidas mais draconianas de confinamento, de facto possa observar algum abrandamento neste cenário mais dantesco. Essas medidas parecem um pouco otimistas. Eu lembro que as primeiras diziam que Portugal iria talvez contrair 1%, 2%. Eu lembro de uma sondagem de vários economistas notáveis em Portugal que havia um que até dizia que Portugal iria crescer 1% só, em 2020. Tudo isto tem uma incerteza muito grande e vamos ver o que é que vai acontecer. Mas acho, obviamente, que esta queda histórica põe algumas dúvidas relativamente à capacidade que Portugal terá de contrair apenas à taxa que referiu.
Muito obrigada, Pedro Brinca, professor na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, com análise em cima da hora aos números revelados pelo INE. A economia portuguesa registou uma queda histórica de 16,5% no segundo trimestre do ano. O ministro da Economia já anunciou que vai reagir a estes números às 11h, numa reação que a Rádio Observador vai, naturalmente, acompanhar aqui em direto.