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Junta-se também agora a nós o editor de desporto do Observador, Bruno Roseiro. Boa noite mais uma vez, Bruno. No teu comentário no jornal das nove da noite, dizias que a Superliga Europeia é o desabar de um baralho de cartas. Na última hora, o Manchester City foi o primeiro clube a tornar oficial essa saída da competição. Também o vice-presidente do Manchester United anunciou a demissão. Entretanto, agora sabe-se que todos os clubes da Premier League vão abandonar esta nova liga. Como é que podemos olhar para estes novos desenvolvimentos?
Três pontos que acabam por explicar também o mais do que provável fim da Superliga Europeia, porque se era uma Superliga Europeia, agora já vai numa espécie de Mini Liga Europeia e não tarda nada vai acabar numa Liguilha Europeia, onde daqui a pouco só há Real Madrid e Juventus, porque aparentemente parece que Andrea Agnelli continua muito certo de que Florentino Pérez é que é o Deus todo-poderoso do futebol, que sabe tudo, apesar de nesta altura se perceber que é o único que continua a pensar assim. Em relação à decisão dos ingleses, três pontos aqui importantes. Primeiro ponto, Aleksander Čeferin moderou esta terça-feira o discurso no Congresso Ordinário da UEFA e percebeu que se queria acabar com a Superliga Europeia, não era abrir guerra com toda a gente como fez ontem, era direcionar as suas atenções para os clubes ingleses. E por quê? Segundo ponto importante, Boris Johnson, seja pelo capital político que ele conseguiu ganhar, seja pelo capital até em termos desportivos, porque convém não esquecer que tivemos o Brexit há pouco tempo e ainda existem muitas arestas por limar em relação a como é que vai ficar a Premier League no que toca às restantes competições europeias e inclusivamente à UEFA. Boris Johnson foi o primeiro-ministro e o governante mais empenhado em acabar com a Superliga Europeia. E existe aqui também um outro terceiro ponto e que tem a ver com uma informação não confirmada ainda, que está a ser avançada pelo Mundo Deportivo. Se vem do Mundo Deportivo é porque muito provavelmente veio de alguém do Barcelona, porque é um jornal da Catalunha, e que diz que a UEFA terá dado uma quantia importante de dinheiro, sem especificar quanto é que estamos a falar, aos clubes ingleses para deixarem a Superliga, algo que não aconteceu em relação aos clubes espanhóis, na medida em que para a UEFA e para Čeferin, eles são uma espécie de inimigo invisível, onde o Barcelona e o Atlético de Madrid acabam aqui por apanhar um pouco por tabela, perdoa-me a expressão, porque Čeferin percebeu claramente quem é que era aqui o grande obreiro deste projeto, chama-se Florentino Pérez, é o presidente do Real Madrid e, portanto, poderá haver esse alegado apoio financeiro da UEFA para os clubes ingleses deixarem cair e não haver para os clubes espanhóis, porque eles nesta altura são o mal da fita.
E Bruno Roseiro, que consequências é que este anúncio de saída de todos os clubes da Premier League pode ter? Podemos estar aqui, de facto, perante esse fim anunciado da Superliga Europeia?
Sim.
Era a carta que faltava cair nesse baralho que falavas há pouco.
Sim, porque entretanto também já foram caindo mais umas cartas, ou seja, o Ed Woodward é mais uma carta que não era propriamente deste baralho, mas também já caiu. E o Andrea Agnelli é uma carta que, não sendo um clube, também é importante, que está ali um pouquinho renitente em cair. E, portanto, este jogo de dominó muito provavelmente vai continuar. E a conclusão a que nós vamos chegar é, se o El Mundo hoje tinha uma peça onde explicava como é que em 72 horas, entre quinta-feira e domingo, estes 12 clubes assinaram o documento que oficializou a criação da Superliga Europeia. E há aqui um outro dado que foi pouco falado, que foi por que no domingo à noite, e eu próprio também colocava muito o enfoque no fato de a UEFA aprovar o novo modelo competitivo da Liga dos Campeões para 2024/25 na segunda-feira. Mas houve aqui também um dado importante, que foi o fato de ter sido criada no domingo permitiu que a Superliga Europeia, já enquanto entidade, pudesse interpor uma providência cautelar naquele Tribunal de Comércio de Madrid, evitando que a UEFA, e que a FIFA e que as demais federações pudessem fazer alguma coisa contra eles. E, portanto, tudo isto foi organizado em 72 horas, tudo isto vai ruir em menos de 48. O que é que sai daqui? O facto dos clubes ingleses terem chegado à frente para deixarem a competição acaba por fazer com que saiam quase sem ninguém perceber muito bem que eles passaram por liga. Ou seja, entraram, saíram, nunca foi nada com eles. Eles são muito ricos, voltam ao seu poiso. Aleksander Čeferin já tinha dado também os parabéns ao Manchester City pela opção que tomou. Há também aqui uma parte importante no comunicado, dos comunicados que eu já li para já e eles agora estão a cair todos a oficializar a decisão. O Arsenal é o único clube inglês que diz: "Nós erramos, nós pedimos desculpa". Por exemplo, ao contrário do Manchester United, pura e simplesmente diz: "Nós já não vamos fazer parte da Superliga Europeia". Portanto, como se nada se tivesse passado nos últimos dois dias. E portanto, tudo isto muito provavelmente agora vai ruir. Quem é que fica a ganhar? Quem é que fica a perder? Quem fica a ganhar? Fica a ganhar a UEFA, claramente ganhou este braço de ferro. Fica a ganhar, sobretudo, o futebol e os adeptos de futebol. Acho que deram uma resposta fortíssima àquilo que poderia ser uma ameaça ao jogo como nós o conhecemos e como sempre o conhecemos e como ele vai continuar a ser, felizmente. Ficam a ganhar também os treinadores e os jogadores, porque nunca ninguém lhes perguntou o que é que eles achavam disto e durante as últimas 48 horas percebemos que nenhum deles estava propriamente satisfeito com a situação Temos aqui um conjunto de vencedores que acabam por até sair beneficiados desta situação. Por outro lado, o grande derrotado, Florentino Pérez, Andrea Agnelli, e deixa-me focar também um outro vencedor para mim aqui que é o Bayern. Por quê? Porque o Bayern podia ser um clube diferenciador em relação ao peso dessa Super Liga Europeia. E Rummenigge tem uma frase para Florentino Pérez, depois da entrevista que ele dá ao "El Chiringuito", que resume muito de qual é que é o problema do pensamento deste megalômano Florentino Pérez, que é: a solução não está em aumentar as receitas, a solução, sobretudo para vocês, clubes latinos, que são os que estão mais aflitos, passa por reduzir os custos. E também por aí, por esta posição do Bayern, eu diria que os germânicos saem como vencedores nesta guerra.
E Bruno Rosário, só mesmo para terminar ainda sobre o presidente do Real Madrid, em caso de queda da Super Liga Europeia, como é que ficam as relações da UEFA com o clube espanhol? E pergunto também se Florentino Pérez tem, de resto, condições para continuar à frente da presidência do Real Madrid.
Ele acabou de ser reeleito, eu diria que ele vai ter um caminho muito complicado. Florentino Pérez é um dos homens mais ricos de Espanha e é uma personalidade muito sólida, muito discreta, mas que também não se importa nada de atropelar os outros para chegar onde quer. E basta recordar aquilo que aconteceu no Mundial 2018, onde a Espanha, na véspera do primeiro jogo com Portugal, despediu Julen Lopetegui porque Florentino Pérez achou por bem que aquela era a altura ideal para anunciar o então selecionador de Espanha, para esvaziar um pouco a pressão que já estava a cair sobre si devido à saída de Zidane. Portanto, já se percebeu que ele não se importa nada de atropelar outras pessoas. Eu acho que ele agora vai acabar por ser atropelado, até porque é importante que as pessoas percebam: quem está por trás desta Super Liga Europeia, que é uma coisa que não foi pensada no último ano, nem nos últimos dois anos, portanto, a questão da pandemia é mais uma desculpa do que outra coisa, foram duas, três pessoas muito próximas de Florentino Pérez, que estão numa empresa que é a Key Capital, que desenhou todo este projeto da Super Liga Europeia, que tem também ajudado Florentino Pérez nos negócios monstruosos que tem feito através da ACS, e basta recordar ainda a semana passada saiu a notícia de que a ACS quer comprar uma empresa gigante de Itália de concessão de portagens na autoestrada. É um negócio que pode chegar aos 10.000 milhões de euros e, portanto, ele vai utilizando as pessoas para chegar sempre onde quer. Problema: isto correu muito mal e as pessoas que estiveram mais próximas dele no futebol, uma já caiu, que é Ed Woodward, o outro está prestes a cair, que é Andrea Agnelli. Portanto, eu diria que Florentino Pérez sai muito desgastado e diria que até em termos de futebol, em termos desportivos, acho que assinou uma espécie de sentença de morte. Portanto, muito provavelmente, não me admiraria se ele voltasse aos seus negócios só da ACS e deixasse o Real Madrid.