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"Quem matou António Sala?", a radionovela da Rádio Observador.

Tiago Dores, acabámos de ouvir mais um episódio da radionovela. A primeira pergunta é: como é que foi ser acusado desta maneira?

Não é a primeira vez que sou acusado de crimes hediondos. Quer dizer, por acaso é a primeira vez. Foi uma experiência nova.

Foste surpreendido? Não esperavas que te associassem à morte do António Sala?

Não esperava de todo, porque simpatizo mesmo muito com o António Sala.

Simpatizavas.

Exatamente. Creio que era recíproco e portanto fui surpreendido com esta acusação infame.

Mas agora está tudo limpo?

Tudo limpo.

Mas conseguiste esclarecer mesmo ou ainda ficou uma réstia de dúvidas?

Não, creio que não resta dúvida absolutamente nenhuma de que não tive rigorosamente nada a ver com este falecimento.

E agora que este trama adensa-se, quem é que achas que pode ter sido?

Há aqui uma grande dúvida sempre em torno de bigodes. Mais uma razão que me leva a ter algumas dúvidas, porque é que fui sequer chamado.

Mas houve dois acusados: Toni, Tiago Dores. Toni não foi, Tiago Dores também não foi. Quem foi?

Exatamente. Eu creio que era a altura de se sair aqui um bocadinho do universo benfiquista. Era logo um primeiro caminho para se descobrir a verdade, porque obviamente não estamos a explorar na área certa.

Portanto, mas Luís Filipe Vieira é também para tirar, já.

Se vamos ao mundo de futebol por causa de bigodes, somos capazes de ficar aqui algum tempo. Porque o histórico é vasto. Então se recuamos aos anos 80.

Tiago, tu tens muita experiência de representação.

Imensa experiência, como aliás se pode constatar.

E esta foi diferente das outras. Primeiro porque o guião não dependia de ti e se calhar nunca te farias como o principal suspeito de um homicídio.

Não, isso até podia fazer. Faria era com menos piada. E portanto nisso percebe-se que, de facto, não tive nada a ver com este guião, porque está realmente muito engraçado. Não estou a ser irónico, estou só a falar sério.

Sem dúvida. Mas dá a ideia que o nosso guionista está um pouco sem saber o que fazer a isto.

Para onde levar a história. Eu acho que ele está um bocado baralhado.

Acho que é preciso envolver alguma mulher aqui. Eu acho que está a fazer falta uma suspeita.

É o que falta nesta história, são quotas. De facto, também era o que eu ia dizer.

Está mesmo a pedi-las.

Está mesmo a pedi-las. E é tudo homens brancos.

Está um bocado desagradável isto.

Está. Eu acho que esta radionovela assim não vai lá.

Se te contratarmos para dar aqui uma guinada no guião, eras pessoa para aceitar?

Uma guinada só para fazer pior, mas se quiserem eu estou disponível.

O nosso objetivo é continuar sempre a piorar.

Então vamos a isso. Claro que sim. O Vicente vai ficar muito satisfeito.

Se tivesses que apontar uma causa, porque também não sabemos a causa para a morte de António Sala. Não sabemos quem matou, nem a causa. O que te parece daquilo que já conhecemos de toda esta novela? O que é que te parece?

Uma causa possível. Coronavírus impossível, porque só chegou hoje. Não sabemos se António Sala terá estado no estrangeiro, mas só chegou agora. Nesse caso, acho que vamos manter em aberto.

Ou se calhar é melhor começarem a história de novo.

Eu acho que se calhar era capaz de ser boa ideia. Chamem o Vicente. Afinal não é esta a história. A situação do Benfica é problemática no campeonato, mas creio que a possibilidade de suicídio está fora de questão, porque perdemos uma vantagem de sete pontos, mas ainda lideramos.

Eu acho interessante a pessoa verbal em que os oficiais do futebol falam.

Está tudo implícito.

Sim, exatamente. Todos perdemos.

Tiago, para além de participar em radionovelas, onde é que podemos encontrar o Tiago Dores hoje em dia?

Eu tinha esperança que esta participação abra as portas para-

Hollywood?

Porque não? O Harvey Weinstein já está preso mesmo. Já não corro risco. Então vamos para lá, para Hollywood, embora lá.

Hollywood.

Sim, acho que sim.

E aí não há risco de coronavírus.

Aquilo lá a América está calminho. Médio.

Tem havido algumas mortes.

Sim, mas aquilo é muito grande, é muita gente.

Mas tens saudades de produzir textos onde a loucura domina?

Achas que tu não andas a produzir textos onde a loucura domina?

Não sei.

Não, se calhar não domina a loucura. Mas sim, essa parte é a parte gira do trabalho. E estar aqui na rádio também é muito bom. Desde que não haja câmaras a filmar. Para quê?

Para escrever um texto humorístico.

É perder algum tempo com isso. Não há assim grande truque em especial.

E bom guião.

E mesmo os que há, eu não vou revelar, porque depois toda a gente começa a fazer.

Toda a gente começa a fazer textos esses. Não há truque nenhum. Este formato de radionovela caiu completamente em desuso, mas dominou durante décadas. Antes das telenovelas, obviamente.

Sim. Eu profissionalmente, quando comecei a trabalhar, neste caso com as Produções Fictícias, escrevi também durante algum tempo para o Herman na rádio, e a rádio sempre foi uma coisa.

O Herman que aparecia nesses casos na TSF?

Na RDP ainda. Exatamente, na altura. Não sei se foi antes ou depois. Mas há aqui um histórico de escrever textos para rádio, na verdade. Não exatamente em formato de radionovela, mas de escrever crónicas para rádio.

E é diferente.

Isso é diferente de escrever para rádio do que para televisão. Não há o suporte à imagem, portanto vai ser mais gráfico, mais visual.

Um bocadinho, sim. É um desafio diferente, mas igualmente engraçado. E é muito mais fácil de fazer.

Porquê?

Porque é só rec. E não tem que se andar com guarda-roupas às costas e a colar bigodes. Quer dizer, nesta radionovela.

Em termos de produção, obviamente. Rádio é muito mais simples.

É, mas de facto o texto depois precisa de conseguir suprir essas eventuais limitações e não haver uma parte visual.

Tem que se dizer às pessoas aquilo que elas veem.

Em contrapartida, pode-se ir facilmente a Marte. Num vai e vem. É muito mais barato, o que em televisão fica complicado. E os chromas são sempre tafuleiros.

Quem sabe talvez tenha sido um marciano a matar António Sala.

António Sala, quem sabe. Diz que é muito provável que haja vida em Marte.

E possivelmente Marte também.

Sim, se um ser multicelular. Não sei. Se há um ser multicelular.

Uma antena já sabemos, que é um ser com três olhos e uma antena.

Sim, em princípio terá três olhos.

O que já sabemos é que não foi Tiago Dores a matar António Sala. Esteve conosco neste quarto episódio da radionovela. Vamos ter que acompanhar os próximos episódios para saber quem matou António Sala.

"Quem matou António Sala?" A radionovela da Rádio Observador.