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Quem matou António Sala? A radionovela da Rádio Observador. Bagão Félix, o nosso convidado deste quinto episódio. Isto há claramente uma veia artística em si.

Eu acho que isto, sobretudo, vem de ter sido ator muitas vezes quando estava no governo.

É onde mais se representa, António Bagão Félix?

Não, evidentemente que eu estou a ironizar. Mas a política tem coisas magníficas do ponto de vista de procurar contribuir para o bem comum e para as causas de todos nós, causas públicas, mas tenho que reconhecer que, por vezes, ficamos aquém da autenticidade. É talvez o valor que eu prezo mais na relação com o outro, com as pessoas. E de vez em quando também há teatro na política. E é nesse sentido que eu estava a dizer, mas apenas com ironia.

E esse teatro na política é uma tragédia ou uma comédia?

É uma boa questão.

É um drama.

Às vezes acaba como tragédia grega. Mas pode-se fazer com gosto. Mesmo a dificuldade pode fazer-se com gosto, quase com sentido de humor. Isso nunca me faltou, mesmo quando desempenhei cargos tecnicamente e politicamente mais difíceis. Procurei sempre ser eu, e eu não consigo sobreviver sem o humor dos outros e sem o meu próprio humor.

Mas há quem diga que na política o guião às vezes está demasiado escrito e não há muita margem para fugir. E o António diz que tenta ser fiel, apesar disso.

Olha, uma das razões porque nunca estive filiado num partido é para, apesar de tudo, não ter tudo escrito. E acho que consegui, na maior parte das coisas, concretizar isso. Ou seja, a política, num lugar de funções governativas, para mim, e depois da experiência toda que tive, e eu já o posso dizer com total liberdade, há sempre um gap, há sempre um desvio entre aquilo que desejamos fazer e aquilo que podemos fazer. Por razões da circunstância política, da nossa maior ou menor capacidade, dos acontecimentos, do dinheiro, desde logo. Eu acho que quando se vai para um lugar desses, deve procurar-se minimizar esse desvio. E para isso há decepções e há realizações.

E o que é mais difícil, essa representação política ou aqui numa radionovela?

Bem, mais grave é na política, mais divertida e saborosa é na rádio.

E ficou com alguma ideia de quem será o suspeito?

Olha, eu não sou.

Isso é o que todos dizem.

Saiu deste episódio limidamente, saiu com enorme credibilidade.

Repare bem, eu aqui vou fazer como agora ouço quase todos os dias nas televisões. Sobre isso não direi mais nada. O meu advogado depois pode vos informar dos próximos passos.

E é preciso apurar todos os dados e todas as provas. É preciso apurar.

Custe o que custar.

Custe o que custar, exatamente.

Doa a quem doer. Como agora também se diz sempre, doa sem ser a capital de Catar.

António, aqui no guião passamos-

Também há doa a quem toar.

Isso é outra questão. Este episódio da nossa radionovela passa aqui por uma questão que o tem acompanhado, imagino eu, a vida toda. Afinal, como é que se diz o seu apelido?

Félis.

Félis, não é Félix?

Não, Félix não. Não é um erro como o erro do haste. Não é desse tipo, é quase uma subtileza.

Mas o João é Félix ou é Félis?

Não, o João é Félis.

Também é Félis.

Não todos os Félis são Félix, podem não ser felizes, mas são Félis. Atenção! Não há Félis de primeira e Félix de segunda ou ao contrário. Não, a história é que este nome entrou na língua portuguesa logo no início, no século XI, e era pronunciado assim. Quer que eu lhe dê outro exemplo?

Sim.

Cóccix.

Cóccix.

Então diga com o X, cóccix. Era o que se diria se fosse como o Félix.

Sim.

Cálice. Há vários. Mas não é grave.

Fénix? Estou a pensar numa.

Fénix, exatamente. Mas é Fénix também.

Também é Fénix?

É. Nós é que dizemos, tudo bem. Como é que diz dióspiro? Diz dióspiro.

Sim.

Mas é dióspiro.

E agora já entramos aqui numa área que o António também gosta muito, que é a área da botânica.

Adoro. E adoro dióspiros.

Continua. E também, dióspiros.

Dióspiros com canela são ótimos. E digo-lhe uma coisa: a cor do dióspiro no outono é absolutamente inigualável. Aquele tom de laranja entre o laranja e o avermelhado.

Sobretudo com as árvores todas despidas.

Todas despidas.

Destaca-se na paisagem.

É uma maravilha.

Mas deixe-me ainda regressar ao Félis e ao Félix. Já tentou que o célebre jogador, que tem o seu apelido, também começasse a dizer da forma que o António acha que é mais correta?

Sim, já escrevi duas ou três vezes sobre isso. Eu também tenho um irmão que é João Félis, mas é mais velho do que eu e já não joga futebol. E quando o Benfica ganhou o último campeonato, depois há sempre a comemoração e há um jantar, digamos, oficial de comemoração. E eu cheguei ao pé do João, do João Félis, e disse: "Ó João, veja lá, você continua a marcar muitos golos, mas não se esqueça que o seu nome é Félis". E ele: "A minha mãe e o meu pai é que dizem que é Félix". Está bem, quer dizer, também você de vez em quando tem que desobedecer aos seus pais.

Faz parte.

Mas continua a ser Félix. Tudo bem. Em Espanha, Félix fica bem. Em França é mesmo Félix. Mas está bem. Deixe-me só dizer isto. Eu, por exemplo, às vezes perguntam-me o nome e eu digo muitas vezes à pessoa que, sei lá, num estabelecimento ou numa repartição, digo Félix Porque se eu digo Félix, lá me aparece um Z. Eu não me importo de ser feliz, pelo contrário. Mas é para evitar erros de ortografia.

Um erro para evitar outros erros de quem está a atender, é basicamente isso.

Exatamente.

Um erro propositado.

O António já chegou àquela fase que tem estatuto para dar conselhos destes. Dá conselhos ao João Félix, a quem o atende nas repartições. Que conselhos é que daria ao Ministro das Finanças?

Em abstrato?

Sim, se quiseres.

Neste momento temos um ministro em concreto.

O primeiro conselho que eu daria ao Ministro das Finanças é para não aceitar o cargo.

E este em concreto?

Acho que o professor Mário Centeno tem, de um modo geral, e visto numa perspetiva topológica, ou seja, visto de cima, sem pormenores, tem tido um desempenho muito positivo.

Aconselhava-o a ir para o Banco de Portugal?

Uma boa questão. Cada um é juiz das suas decisões e da sua vontade também, e não devemos criticar quem faz desta ou daquela maneira. Agora, eu posso é responder o que é que eu faria. Eu não iria para o Banco de Portugal.

E aconselhava-o a participar de uma radionovela?

Porque não? Também creio que o Mário Centeno tem jeito para o teatro, até porque tem uma excelente experiência de cativações e isso pode dar-lhe alguns instrumentos de controle anímico na representação.

Bagão Félix, gostámos muito de o ter cá. Obrigada pela boa disposição, por ter vindo à Rádio Observador. Quem matou António Sala? A radionovela da Rádio Observador.