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"Quem matou António Sala?", a radionovela da Rádio Observador.

O mais recente episódio de "Quem matou António Sala?" trouxe-nos, entre muitas tentativas de piada, sabe Deus se bem consumadas, a absolvição de Toni. A antiga glória do Benfica conseguiu, através da descrição detalhada de um bom pequeno-almoço, provar a sua inocência.

Eu nessa manhã estou a comer um palmier do Careca e a beber um galão, e é o Toni que lá está?

Sendo que não foi Toni e sendo que o álibi do treinador estava relacionado com comida, a nutricionista Mariana Chaves fez-nos o cordial favor de deixar o âmbito criminal desta investigação para nos trazer a frescura de uma perspectiva nutricional.

Temos conosco a Mariana Chaves. Tudo pronto para o aprender a comer. Mariana, bem-vinda mais uma vez.

Olá!

Mariana, hoje vamos falar de saladas, mas antes disso, deixamos cair-se a última sílaba, isto é inevitável. Temos de falar de Sala. Mariana, tu tens uma teoria sobre a verdadeira causa da morte de António Sala, certo?

Certo, é isso mesmo, Ana Filipa. Eu acho que estou em condições de avançar que António Sala morreu pelo garfo.

Mas espera lá, o que te leva a crer que o António Sala não comia bem?

O facto de ter trabalhado na RTP, Ana Filipa.

Calma, o serviço público engorda, é isso?

Não é bem isso, mas trabalhar na RTP pressupõe, infelizmente, e na maioria dos casos, grandes almoçaradas com o Fernando Mendes.

Estou um gajo gordo. Despi-me para vos seguir a vestir.

Ora, foi nessas alturas de repasto que começou o declínio nutricional de António Sala. Garanto-te, Ana Filipa, que no final desses jantares o preço da conta era tudo menos certo.

Ok, então para quem já almoçou com Fernando Mendes e para que tenha uma maior possibilidade de sobrevivência, Mariana, é isto que está aqui em causa, o que é que recomendas?

Ana Filipa, se essas pessoas quiserem ter hipóteses de sobreviver, recomendo uma semana de jejum intermitente. Isto, claro, se não quiserem passar, como António Sala, a um regime de jejum permanente.

Muito bem.

Mariana Chaves era exímia nos seus conselhos e era isto que acontecia a quem seguia com audácia as indicações da nutricionista.

Olha a dona Sandra, está mais magra.

E cá está, assim surge o volte face que nos permite introduzir o convidado desta semana. É com o sketch daquele grupo humorístico que ficou conhecido por se apresentar como um felino de cheiro imundo, que damos as boas-vindas a Tiago Dores, um dos membros dos Gato Fedorento e colunista do Observador.

Ora, um bom dia. Eu fui chamado aqui à redação e não sei bem porquê. Estava muitíssimo bem no conforto do meu lar. Por que me mandaram chamar?

Qual é o seu nome?

Minha senhora, está muito boa essa. A sério, estou com alguma pressa.

Nome.

Não, minha senhora, a sério, repare. Eu sou um dos mais sonantes humoristas portugueses.

Pois, está bem, a mim não me engana. O Nilton usa óculos. Nome.

Dores, Tiago Dores.

Sim, está aqui. Espere só um bocadinho. Vou chamar alguém da direção. Ó Filomena, chega cá, está aqui o César Mourão.

É Tiago Dores, minha senhora.

Pensei que tinha dito que era humorista. Pode sentar, a Filomena já aí vem.

E Filomena veio.

Tiago, estás bom? Senta-te, por favor. O que eu tenho para te dizer não é nada fácil. Precisamos que interpretes um papel aqui na nossa radionovela.

Mas qual papel?

Nem tentes. Não vamos voltar a reproduzir este sketch.

E trazer o papel. Qual papel? O papel. Qual papel? O papel.

Escuta, Tiago. Selecionámos um comentário descabido, desinformado e sem nexo do Inquisidor Digital, cujos comentários estão tão carregados de ódio como de erros ortográficos. Um tipo deste género.

O que era preciso era que os americanos mandassem bombas para tudo o que é país muçulmano. Começava-se em Marrocos e só paravam, vamos supor, no Chile.

Filomena, por favor, tudo menos um utilizador anónimo que se arrelia com temas pelos quais nutre profundo desconhecimento.

Vai ter de ser. Há um comentário que diz que foste tu quem matou o António Sala. Vou pedir a estes dois capangas que te levem para seres interrogado pelo utilizador Silenciador de Gatunos.

Larguem-me! Mas o que eu fiz? O que eu fiz? Mas o que eu fiz?

Como o suspeito que agora era, Tiago Dores foi levado para uma sala escura. Sim, daquelas cujas condições são inconstitucionais, mas que nem por isso deixam de constar na cinematografia norte-americana. Uma mesa, uma cadeira, um chão úmido e um candeeiro com abajur de metal. Nesta espelunca, à espera de Tiago Dores, estava o inquisidor online, Silenciador de Gatunos.

Ora com que então o menino das piadinhas achava que escapava aqui ao meu olhar clínico.

Olhe, desculpa, isto é inadmissível. Eu quero falar com o Primeiro-Ministro. Chamem-me lá o Primeiro-Ministro.

É difícil porque ele foi para Bragança.

Pois, é o que dá viver num país em que o governo vai mais longe nas digressões do que os delfins. Eu estava a ver se arranjava bilhetes para um destes espetáculos do Conselho de Ministros descentralizado. Mas se o Mário Nogueira entra sem pagar, vou aproveitar a deixa.

Silêncio, gatuno. Eu já sei, gatuno, que foste tu quem matou António Sala.

Ainda estou à espera para ouvir a sua acusação.

Então eu digo-te já, que tu a mim não me enganas. Vocês, humoristas, acham que os bobos somos a gente, mas eu tiro-te já a máscara. Estava eu a navegar por uma daquelas plataformas em que a malta compra e vende usados, à procura de um romance do José Rodrigues dos Santos, que eu sou um apreciador de literatura, e deparei-me com uma coisa.

Encontrou o "Prometo Amar", do Pedro Chagas Freitas?

Também sou apreciador, mas não. Encontrei uma obra pródiga do humor nacional. "Anedotas de Sala", nome do autor António Sala, um livro que contém em si todo o risco que o ser humano é capaz de despender.

Então despenda lá, mas do seu tempo, e diga-me, o que eu tenho a ver com isso?

É por demais evidente. Vocês lá do Felino de Treze Andar não podiam com o homem. Os vossos textos alguma vez foram reunidos em antologia com entrada direta para os cânones da literatura humorística? Só matando o grande autor de "Anedotas de Sala" é que vocês lá chegavam, homem

Está bem. Silenciador, isso é tudo muito bonito, mas se nós éramos quatro no Gato Futurenco, o que é que o leva a crer que fui eu a fazer o servicinho?

Meu amigo, porque eu fiz profunda pesquisa e encontrei isto.

O programa é o "Quem é o quê?", um concurso apresentado por António Sala.

A mim nunca me enganaste. É ou não é a tua voz que está aqui prestes a escancar o António Sala?

A voz é minha, sem dúvida. Basta atentar para a sua doçura. Mas o objeto da piada nem sequer é o António Sala. Este sorinho deprimente serviu para gozar com os concorrentes do programa, não com o apresentador.

Mas é maldade. Estás a gozar com o trabalho do homem. Ora eu, eu era um grande defendele. Sinto-me ofendido. Eu sinto-me ofendido, ouviste?

Olhe, desculpe lá, isto para mim não dá. Tenho onde estar às 10h30. Chama lá o senhor Tobias.

Tu não és gajo para chamar o senhor Tobias.

Ai não? Queres ver?

Chama lá o senhor Tobias, a ver se ele me importa.

O senhor Tobias, isto também não é caso para tanto. Vamos lá ter calma.

Então, se calhar, deixamos cair a acusação, até porque, como não trouxe hotspots sem acesso à internet, eu sou um ser humano até bastante razoável.

Pois, é capaz de não ser má ideia. Mas o que dizemos à comunicação social que está lá fora sedenta por uma história?

Já sei, é muito fácil. Fechamos isto em registo musical e tentamos para a naturalidade da morte de António Sala da seguinte forma.

Nós vamos todos falecer. Eu não vou. Olha que vais. Patinar, bater as botas.

E assim foi, com o célebre tema que nos remete para a inevitabilidade da morte, Tiago Dores conseguiu ser desvinculado do homicídio de António Sala. Para já, está bom. Contentamo-nos com isto por hoje. Para a semana voltamos a não aceitar que tenha sido posto termo à vida do senhor Rádio. Afinal de contas, é desse ato cruel que vive este enredo de "Quem matou António Sala?"

"Quem matou António Sala?" A radionovela da Rádio Observador.

Participaram neste episódio, por esta ordem, Ana Filipa Rosa, Mariana Chaves, Tiago Dores, Marta Leite Ferreira, Filomena Martins e Vicente Figueira. Texto de Vicente Figueira. Narração de Nelson Ferreira. Sonoplastia de Diogo Casinha, Beatriz Martel Garcia e Bernardo Almeida