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Quem matou António Sala? A radionovela da Rádio Observador.
Duas semanas depois da morte de Sala, o país acompanhava com fulgor as várias tentativas de dar resposta a uma grande questão: qual é a melhor forma de demolhar bacalhau graúdo? Isso e também quem matou António Sala? Era uma pergunta que continuava sem resposta, mas para a qual havia agora um principal suspeito. Moita Flores avançara Toni.
Todos sabemos que o Toni nunca lidou bem com o fato do bigode do Sala ter sido o mais acarinhado pelo público português.
Ao ver o seu nome envolvido neste processo, o histórico médio do Benfica fez questão de vir ao Observador colocar os pontos nos is. A chegada fez-se de carrinho e sendo que falamos de um ex-futebolista com mais do que boas razões para estar revoltado, fica à imaginação de cada um decidir se o carrinho de que falamos se trata de uma pequena viatura ou da mais eficaz e agressiva técnica de desarme do futebol.
Toni, grande Toni, sou fã. Entre 74 e 77, tudo nosso. Foi ou não foi, grande Toni?
Mas tu estás a brincar com a minha cara? Estás me a querer dar bigoda a mim? Vai me lá chamar a Filomena Martins, que isto assim não pode ser, companheiro.
Manda aí pus. Ei, Filomena, está ali o Toni, ele quer falar contigo. E olha, vê lá que ele entrou de carrinho, o homem está chateado.
Normal, um homem com pelo nas ventas. Eu vou lá. Calma, vamos com calma. Então, Toni, está bom? O que se passa? O que se passa aqui?
Filomena, o que se passa? Então eu estou porreiramente com a minha tertúlia de amigos a almoçar ali para os lados do Figo Maduro. E vem me dizer que sou suspeito de ter morto o António Sala. Um lagarto comesse Moita Flores. O que é isto?
Calma, Toni, isto é só ficção. Quer que eu vá chamar o guionista que anda a escrever aí essas coisas?
Chama lá, que isto assim não pode ser.
Perestrelo, anda lá aqui se não te importas.
Bem lá atrás, está a proteger completamente a rapaqueca.
Quem Filomena acabara de chamar era o guionista Perestrelo, uma personagem ficcional especialmente concebida para este episódio. Já que recebemos Toni, aproveitamos para recordar uma das mais reconhecidas vozes do relato do futebol português. A voz de Jorge Perestrelo.
Já estávamos com saudades de marcar encontro consigo, que é nosso amigo. Mangas arregaçadas, aí está o Toni, rola a bola, está cá o Toni, é dia de festa. E Toni, diga-me, Toni, no que é que lhe posso ser útil?
Olha agora este armado em Jorge Perestrelo. Esse homem não se repete. Deixa-te lá disso, companheiro, e diz-me cá uma coisa: foste tu que escreveste o último episódio?
Pois sim, senhor, Toni, fui eu que escrevi. Fui eu que fiz do fato do Toni ser proprietário de um farfalho do bigode, um motivo mais do que suficiente para que exista a suspeita de que foi Toni a entrar na casa de banho com uma moca de Rio Maior e a bater forte na rapaqueca do António Sala. Ele subiu, mas quando a bola bate lá no cocuruto, ele já está na descida.
Imitação barata do Perestrelo. Ou tu arranjas formas de limpar o meu nome disto, que eu nem sequer estava aqui quando mataram o pobre do homem, ou a gente tem problemas. Não podes usar o meu nome só porque eu tenho bigode e tu não sabias o que escrever a seguir.
O que é isso, meu? Calma, Toni, nesta casa não há jornalistas iranianos, Toni. Tanta animosidade pra quê, Toni?
Filomena, estou a três segundos de fazer um Mata-Leão a este companheiro.
Calma, Toni. Vamos fazer assim: preparamos as coisas aqui no auditório do Observador, emitimos um comunicado e fazemos uma conferência de imprensa a explicar que não é você o culpado. E tu, guionista Perestrelo, pisga-te. Não te quero ver mais à frente, nem que a vaca tussa.
Era realmente bastante parvo este guionista Perestrelo acusar Toni de matar António Sala apenas por causa de uma alegada inveja de bigodes, não fazia qualquer espécie de sentido. Tal energúmeno era este homem que, como dizia Jorge Perestrelo, até a própria mãe o deve querer deserdar.
Até a própria mãe o deve querer deserdar.
Mas adiante, era tempo de limpar o nome de Toni. Depois de enviada a nota a todas as redações, o país aguardava expectante a conferência de imprensa de absolvição do treinador. Por esta hora, já a jornalista Mariana Fernandes punha em prática a mui nobre arte de enchimento de chouriços.
Acaba de chegar Toni, aqui ao auditório do Observador. Recordo que esta é uma conferência de imprensa convocada de urgência para absolver a suspeita de que foi Toni quem matou António Sala. Vamos ouvir Toni.
Bom dia a todos. Eu por mim não estava aqui, mas visto que houve por aí um palerma que achou por bem escrever um guião que eu sou o autor do crime sobre António Sala, acho que está na hora de deixar aqui clarinho como água que não fui eu. Não fui eu quem matou o António Sala.
Visto que o Toni já deixou bem clara a sua posição, seguimos agora para as perguntas.
Bom dia, Toni, em direto pra Rádio Observador. O Toni disse ainda agora que não é o responsável pela morte de António Sala, mas como é do conhecimento público, o Toni invejava o bigode do senhor Rádio. Isso não faz do Toni um dos principais suspeitos?
Era esta a gota de água. Toni já tinha aturado as taralhouquices do guionista Perestrelo. Aturar ainda uma jornalista que mais parecia ter chegado de um estágio na televisão estatal iraniana, encheu-lhe o depósito. Não existia forma de aguentar tanta injúria. Toni levantou-se, exaltado, e proclamou.
O António Sala vai-me à casa de banho aqui no Observador, aparece-me morto e é o Toni que está lá. Eu nessa manhã estou a comer um palmiedo careca e a beber um galão, e é o Toni que lá está. Então agora, só porque eu tenho bigode, fui eu que o matei? Não podiam ter chateado o Veloso, o Humberto, o Frasco ou o Pietra, ou os outros todos? Por que me estão a chatear a mim? Fui eu que o matei? Eu não estava cá.
Com tanta exaltação, a jornalista provocadora que acabara de fazer a pergunta, não conseguiu esconder um pequeno sorriso. Toni responde à moda do Irão.
Ei, olha lá tu, estás a rir? Por que estás a rir? Estás a rir de quê? Estás aqui, que idade é que tens pra estar aqui? A esta hora já devias estar era a dormir. A tua mãe sabe que estás aqui?
A sinceridade da resposta de Toni e também a sua exaltação tornaram evidente que o antigo futebolista estava inocente. Se por si só isto não bastar, a produção do Observador entrou em contacto com a pastelaria onde Toni disse ter estado a tomar o pequeno-almoço na manhã em que foi morto António Sala e que nos confirmou que o treinador por lá tinha estado. Mas se Toni estava inocente, quem matou António Sala? Vamos tentar descobrir no próximo episódio. Até lá.
Espero que tenham gostado do jogo de hoje.
Quem matou António Sala? A radionovela da Rádio Observador.
Participaram neste episódio por esta ordem: Diogo Lopes, Toni, Filomena Martins, Vicente Figueira e Mariana Fernandes. Texto de Vicente Figueira. Narração de Nelson Ferreira. Sonoplastia de Diogo Casinha, Beatriz Martelo Garcia e Bernardo Almeida.