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Quem matou António Sala? A radionovela da Rádio Observador. Nas manhãs 360 está conosco um dos mais emblemáticos jogadores da história do futebol português e antigo treinador. Olá, Toni, obrigada por estar conosco. Como é que se sentiu no papel de ator? Já sabemos que há aí uma veia artística.
Foi uma passagem curta, mas penso ter interpretado mais ou menos aquilo que era a personagem de alguém que matou alguém.
Toni, tem a certeza que não foi o Toni?
Não, absoluta. Até porque já disse, eu estava aqui numa tertúlia de amigos.
O álibi é muito forte.
Estava num restaurante com uma tertúlia de amigos aqui perto do Figo Maduro.
Era impossível.
Era impossível.
Mas conseguiu limpar o seu nome, ou não?
Completamente. Ainda mais, como é que era possível um homem de quem há uma relação forte de amizade, admiração e respeito, que é o António Sala.
Mas com aquele bigode eu percebo que se sinta um bocadinho intimidado e que tivesse alguma vontade de se vingar. Há uma certa rivalidade de bigodes.
Não, mas aquele bigode dele tem outras contornos. Tem graça que ele nasce mais ou menos quando encetei a minha carreira aqui há 52 anos. No Benfica, que começou o bigode a surgir, depois houve uma fase onde eu o tirei e depois ele é quase uma imagem de marca.
E o do Toni continua, o do António Sala desapareceu.
Desapareceu? Estás a ver. Mas ainda, quem o matou devia estar aí. Tinha inveja do bigode dele, até porque o bigode dele tinha uns contornos diferentes.
Tinha ali uns pormenores. Toni, mas estava a falar que começa a deixar crescer o bigode quando começa a jogar. E de facto, os jogadores de futebol costumam ser modelos nestas coisas do cabelo, das barbas e dos bigodes, não é?
Sabe, eu sou do tempo do Bill Cream. Nessa altura não havia géis. Tem graça, eu passei por países. Agora também penso que isto cá também já é um pouco assim, mas, por exemplo, no Irão, os jogadores até de manhã, no dia de jogo, iam cortar o cabelo.
Por que há essa vaidade tanta cobertura?
Isso também eu não sei. E agora todos cheios lá de gel e tudo. Entrar em campo parece que vão entrar para um desfile.
Há uma preparação física, uma preparação estética. Dos jogadores há uma preparação física e uma preparação estética.
Tu vês que há o culto também de imagem, daqueles mais impactantes. Até o nosso Cristiano Ronaldo agora anda com o carrapito. Não era uma coisa que ele usasse.
Não tem nada a ver o seu tempo do tempo atual. A preocupação com a imagem e o próprio estatuto público do jogador de futebol, que são autênticas estrelas, influenciadores, seguidos nas redes sociais, por aí fora.
Mas isso é, a sociedade transformou-se. Aliás, eu tenho um amigo, que era amigo de Miguel Torga. E Miguel Torga dizia que esse tempo é o tempo de um Portugal a preto e branco, de um Portugal triste. E até nisso, veja que só havia, para quem podia, esse Bill Cream, que era uma espécie de gel dessa altura, mas que ficava o cabelo empastado. Entrávamos em campo e antes de entrar em campo também, posso dizer que há espelhos nas cabines e entrar em campo minimamente penteado e não ir para lá com o cabelo.
Até porque os fãs existem desde sempre. Os fãs existem desde sempre, vocês tinham toda uma imagem.
Até nisso é outro tempo, porque hoje os estádios estão cheios de gente mais jovem, de mulheres bonitas. Na altura, a mulher ficava no carro a fazer crochê e às 15h o homem ia ver o jogo. Só havia homens.
A bancada do estádio de futebol não era espaço para mulheres, quase.
Era pouco. Havia, mas a linguagem era punível. Havia até um código que dizia: "O filho da não sei quantos" eram cinco escudos de multa. Nessa altura, é um tempo onde havia ali uma lei que punia a blasfêmia, a injúria. Isso já ali havia. Aliás, o jogar na rua, vinha a polícia. Felizmente que eu não vivi esse problema, porque numa aldeia não havia polícia. Mas aí quem jogasse na rua que acabava por vir a bófia e: "Esconde-te", senão tinhas que bater.
Toni, sempre nos habituámos a vê-lo nos relvados, fosse a jogar ou a treinar, o que anda a fazer agora?
Agora é um tempo daqueles mais difíceis. Aliás, eu vivi uma situação que foi quando terminei como jogador e eu parecia que não sabia o que é que andava a fazer, porque aquela rotina dos fins de semana, dos jogos, eles deixaram de aparecer. Alguns momentos de me isolar e de chorar. E agora estou a passar um pouco a fase porque penso que deve ter chegado ao fim. E passou a faltar aquela adrenalina, começou a faltar aquela rotina boa de treinar. Sim, tudo isso.
Acha que está a chegar ao fim ou não tem aí muitos adeptos que o gostavam de ver outra vez, por exemplo, a treinar o Benfica?
Claro. Há um tempo nas nossas vidas onde isso constituiu talvez dos maiores desafios que tive para provar a mim mesmo, não aos outros, a mim, do que era capaz. Esse tempo chegou e eu sinto que dei a resposta de me afirmar. Dizer assim: "Não, tu foste capaz". E isso ficou registado, ninguém apaga. Agora, nesta altura, começo a ver e espero criar outros motivos de interesse que me possam preencher de uma forma, de coisas que não fazia, porque o futebol é demasiado absorvente. Aliás, a minha mulher foi pai e mãe. Portanto, enquanto os filhos foram crescendo, e eles cresceram e a mais velha tem 43 anos e ele tem 38.
Já tem netos?
Já. E, portanto, ainda agora antes de vir para aqui, lá fui vê-los, embora eu não sou o avô babado.
Não é desse.
Eu saio um bocado ao meu pai.
Mas deve jogar à bola com eles.
Sabe que há ali uma disparidade. Tenho um que joga. Ele tem a ambição. A paixão dele era não seguir as pisadas do pai, mas as pisadas do avô. Porque o pai, eu disse: "Olha, tens um tempinho para ver se lá chegas acima. Se não chegares lá acima, tens outro tempo para estudares-
Seguir outro caminho
...estudares e jogares." E foi o que ele fez. Estudou, jogou, formou-se. Porque nem todos, e os pais, todos eles, se querem transformar em empresários e pensar que os filhos são os Cristianos Ronaldos em potência. É uma miragem que muitos pais alimentam.
Às vezes de forma até doentia, talvez não?
Sim, porque aquilo que eu mais guardo do Cristiano Ronaldo é a mensagem que ele passa aos jovens.
O trabalhar, é preciso trabalhar.
É a perseverança. Ele transmite isso e diz que talento só é curto. Portanto, o talento precisa de muito trabalho. E então essa mensagem eu penso que é aquela que os jovens-- porque para ele a capacidade de superação, o céu é o limite.
Muito mais do que o corte de cabelo. Tony dispensa apresentações dentro ou fora dos relvados. Aí será sempre um dos grandes nomes do desporto nacional. Foi nosso convidado esta semana na rádio novela: "Quem matou o António Sala?"
Que agora já sabemos não foi o Tony.
Eu não fui.
Foi um gosto tê-lo cá. Muito obrigada por ter vindo à Rádio Observador.
Obrigado eu.
"Quem matou António Sala?" A rádio novela da Rádio Observador.