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Está no ar o "Quente e Frio" na Rádio Observador com a Filomena Martins. Filomena, a chuva já está aí. Agora resta saber se é por muito ou por pouco tempo, não é?
Sim, já está aí.
Bem-vinda.
Olá, João. Já está de chuva, já chuviscou, mas vai intensificar-se nas próximas horas, sobretudo no Norte e no Centro. E há aqui um ingrediente que ajuda a explicar isto, porque pode chover mesmo muito ali a Noroeste, é que esta chuva vai ser alimentada por um rio atmosférico.
Isso não é bom, não é?
Não. É um verdadeiro rio de humidade que atravessa o Atlântico em direção à Península Ibérica. Esta humidade toda está a alimentar a frente atlântica que começa agora a atravessar Portugal e já vamos explicar como funciona este rio no céu. Para já, vamos dar atenção à chuva.
E onde é que vai chover, Filomena? Diz lá.
O IPMA tem neste momento 12 distritos sob aviso amarelo para chuva forte. Vamos começar por cima. Viana do Castelo, Braga, Porto, Vila Real, Aveiro, Viseu, Coimbra, Leiria, Lisboa, Santarém, Guarda e Castelo Branco.
Exato.
Enquadre-se.
É preciso ter fôlego para dizer todos.
No Norte, a chuva intensifica-se já a partir desta tarde. O modelo europeu prevê que a frente chegue à região do Porto por volta das 18h, já te digo horas e tudo. E admite que perto das 21h possam cair 15 litros por metro quadrado numa única hora em alguns pontos do distrito do Porto. Depois, a faixa da precipitação mais intensa vem avançando para sul e entre o final da noite e madrugada, há ali zonas entre a Figueira da Foz e Coimbra, Torres Vedras, Caldas da Rainha, que podem chegar aos 10 litros de água por metro quadrado numa hora. Isto parece pouco, mas se fores enchendo uns recipientes, percebes que é muita água.
Pois.
Isto também ajuda a perceber os acumulados que estão previstos durante este episódio de chuva, porque até ao final de quarta-feira poderão surgir mais de 40 litros por metro quadrado em partes do Noroeste e 50 litros mais a Nordeste. Para sul, os valores descem muito. No Alentejo e no Algarve a chuva será muito menos significativa e há sítios onde pode ser residual. Mas não é apenas a sul.
Olha, basta olharmos para o mapa do IPMA percebemos esse contraste, não é?
Sim, mas é preciso ter atenção a outra coisa. O vento está de sul, vai aumentar no litoral norte e as rajadas vão chegar aos 180 km/h. Aliás, o vento já se nota bastante.
E amanhã, como é que vão estar as coisas?
Amanhã é quarta. A frente vai continuar a atravessar o país. Vamos ter ainda períodos de chuva ou aguaceiros, sobretudo no Norte e Centro, mas depois vai se esbatendo gradualmente e perdendo força até ao fim do dia. As temperaturas vão descer bastante em alguns locais. Depois esta frente vai passando e vai se perdendo, vai entrando Espanha adentro. Quinta-feira já há uma pausa mais clara na chuva, mas isso não quer dizer que a chuva tenha acabado.
Tu manténs palavras na questão do fim de semana, não foi?
Sim, na sexta pode já voltar mais alguma chuvinha, ainda fraca e demorada, e domingo é o próximo dia a vigiar, porque o modelo europeu admite o desenvolvimento de uma área de baixas pressões, ou seja, uma depressão sobre a Península Ibérica, que poderá voltar a trazer chuva forte, organizada, outra vez no Norte e Centro no domingo. Depois, entre 5 e 12 de outubro, entre a segunda e a próxima semana toda, ainda não se pode dizer onde é que vai chover, nem como, nem que dias, mas vai haver chuva nessa semana também, isso é certo. Uma nota rápida só para Espanha, onde está a chover bastante outra vez ali na zona de Valência e de Barcelona. Está tudo outra vez com avisos amarelos, há outra vez rios de água nas ruas, mas não tem nada a ver com esta nossa frente. É uma zona onde sempre chove bastante, já explicamos aqui as razões, e vão ter precipitação intensa também nos próximos dias.
Valência é uma região sempre bastante crítica. Falavas há pouco dele, do rio atmosférico, que é o fenômeno deste episódio, não é?
É. Para explicar um pouquinho porque não há um rio a correr por cima das nossas cabeças, mas é como se houvesse, porque este rio atmosférico é uma faixa relativamente estreita e muito comprida da atmosfera, onde se concentra e é transportada uma enorme quantidade de vapor de água. Isto às vezes vem lá desde as Caraíbas até aqui à Península Ibérica. E podemos imaginar isto exatamente como uma autoestrada de umidade no céu. Neste caso, esta é uma corrente muito úmida que está a atravessar o Atlântico até aqui à península. E esta umidade, quando encontra agora a frente fria que nos está a atingir, o ar sobe e arrefece, e obviamente o vapor de água quando arrefece, condensa e forma chuva. Há outro fator importante, que são as montanhas. Quando este fluxo úmido chega aqui à península e encontra, por exemplo, o relevo da Galiza ou do norte de Portugal, o ar ainda é obrigado a subir mais, ainda arrefece mais, ainda condensa mais e a chuva pode ser mais intensa ainda. É a tal razão que podemos ter mais de 40 ou 50 litros por metro quadrado nestas zonas e muito pouca chuva em algumas zonas do sul, apesar da frente ser a mesma. E há ainda uma coisa importante que é preciso distinguir. Um rio atmosférico não é uma tempestade, não é uma depressão, é apenas um corredor do transporte de água pela atmosfera. Não quer dizer que chova sempre ao longo desses milhares de quilômetros que pode percorrer, mas grande parte dessa água vem sob a forma de vapor e se encontrar as condições ideais, chove e chove muito.
É no fundo um rio que não vemos, não é?
Sim, tem de haver condições para essa água começar a cair. Parte da umidade transportada através do Atlântico, neste caso, pode estar até ligada à região onde se encontra ainda a tempestade tropical Fay, que esteve aqui muito perto dos Açores. A Fay não vem para Portugal, está muito longe, está no Atlântico, vai enfraquecer e dissipar-se, mas a umidade tropical ficou lá e vai ser captada pelos ventos e incorporada neste rio atmosférico, neste corredor de vapor d'água, e o que vamos receber é parte dessa umidade transportada a partir da região onde a Fay esteve.
Muito bem, vamos deixar a chuva, deixamos o guarda-chuva para mais logo. Vamos viajar até Marte, Filomena.
Sim, sem guarda-chuva, até Marte, porque se na Terra estamos habituados a ver o pôr do sol ganhar os tons vermelhos, laranja e cor-de-rosa, se estivéssemos em Marte, iríamos ver um pôr do sol praticamente ao contrário, porque junto ao sol, o pôr do sol vai ficar azul em Marte. E isto não é ficção científica, porque os rovers da NASA já fotografaram este fenômeno várias vezes. É uma diferença na atmosfera. Na Terra, as moléculas da atmosfera dispersam facilmente a luz azul. É uma das razões pelas quais vemos o céu azul durante o dia, está dispersa a luz azul, e ao pôr do sol, a luz atravessa uma camada muito maior da atmosfera e grande parte desses tons azuis fica dispersa até chegar aos nossos olhos. E depois só vemos ao final da noite aquele vermelho e laranja. E Marte é bastante diferente, a atmosfera é muito mais fina, está carregada de pequenas partículas de poeira. Estas partículas fazem com que a luz azul fique muito concentrada na direção do sol e os tons vermelhos e amarelos espalham-se pelo céu. Portanto, a atmosfera de Marte é avermelhada, por isso Marte pode ter um céu vermelho durante o dia e à noite tem uma auréola azul em redor do sol quando este se põe. E há mais uma diferença, como Marte está mais longe do sol, o sol parece mais pequeno no céu marciano do que no nosso. Portanto, na Terra, planeta azul, temos pôr do sol vermelhos, e em Marte, no planeta vermelho, vamos ter pôr do sol azuis se lá formos.
E podem pesquisar esta fotografia, estou a ver aqui no doc que partilhaste comigo.
Partilhei contigo e está na NASA, podem vê-la perfeitamente. É só ir ao site da NASA e procurar por "pôr do sol de Marte".
É isso mesmo. Filomena Martins, estás de regresso amanhã para uma nova edição.
Estou sob baixo chuva, não esqueças de levar o guarda-chuva.