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Bem-vindos ao "Realpolitik", uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.
Eu sou o Sérgio José Pintos.
E nós hoje vamos falar sobre esta crise no governo. É uma crise? É uma crisezinha? Não sei, vamos lá ver isso. Vamos também falar sobre o novo governo no Reino Unido, mas primeiro aqui a terrinha. Sérgio, temos o Ministro da Educação em dificuldades. Ainda esta manhã soube-se que, pelos vistos, há mais problemas de correção noutras disciplinas. Ontem foi o primeiro dia de candidatura. Em vez dos 10 mil estudantes que tivemos no ano passado a candidatar-se, tivemos 300 ou 400, uma coisa desse género. 400 bravos que tiveram a coragem de avançar neste processo. Temos também o caso Luís Neves. Ontem soubemos que a Polícia Judiciária entende que há indícios de abuso de poder e descaminho, nomeadamente do outro lado. O outro lado foi descaminhado. Luís Neves prometeu para breve que irá mostrar documentos que provam a sua inocência. Queres começar pelos exames ou queres começar por tudo?
É uma boa pergunta.
Tantas coisas boas.
Vamos começar pelos exames. Pode ser?
Vamos a isso.
Bem, esta época de exames, como se dizia antigamente sobre livros que eram lançados e tinham êxito, dizia-se que era um êxito do público e da crítica. Não é verdade? Acho que esta época de exames tem sido um êxito do público e da crítica. Sem querer ser demasiado informal na abordagem de um assunto que tem tanta importância para as famílias afetadas, eu usaria a linguagem dos reality shows.
Ok, espera aí, isso promete.
Isto foi tudo uma experiência social que permitiu a todos os envolvidos crescer. É o que todos dizem: "Sinto que cresci com esta experiência social." Espero que alunos, famílias, o ministro, os corretores, os classificadores, os que transportam os caixotes, a PSP.
Que foram transportar os exames.
Ontem esse aspeto também foi iluminado, temos a Polícia. E portanto, permita a todos crescer, de facto, porque a única hipótese é crescer, porque não se pode definhar mais. Nós já vivemos num Estado em que estamos habituados a que o Estado nos falhe. Temos vários subsistemas que são disfuncionais e agora, em nome de uma reforma que todos, por razões misteriosas, aplaudem em tese. Estão todos maravilhados com esta coisa de digitalizar os exames, que também é uma operação que, em princípio, não está nas fronteiras tecnológicas da civilização. Digo eu, que não sei digitalizar nada.
Sim, porque não seria preciso ter a ajuda do Elon Musk, grandes bases de dados a consumirem muita água, não deveria ser preciso.
E portanto, foi realmente um desempenho de excelência. O grande objetivo desta alteração digitalizadora era, se bem percebi, aumentar a objetividade da correção. Já temos aqui notícia de não sei quantos pedidos de revisão de prova, notas mal corrigidas, os de geografia têm que subir pra cima, outros vão ter que descer pra baixo, ninguém vai abaixo do nove. Do ponto de vista da objetividade, temos que reconhecer que todos os objetivos parecem aquelas corridas de barreiras em que nenhuma fica de pé, não é verdade?
Sim. Quando há um corredor, coitadinho, que de repente começa a levar com ele as barreiras todas até cair.
O que dizer desta catástrofe em vários atos? O resultado líquido de tudo isto foi uma grande aflição para as famílias. Dúvidas sobre a objetividade, lá está a famosa objetividade, o novo semideus, que também já caiu do Olimpo. Já tenho saudades da subjetividade. Nos tempos da horrível subjetividade havia prazos, havia calendários, havia cumprimento, havia provas corrigidas, havia recursos de prova. Era a subjetividade. A subjetividade nas tarefas eminentemente humanas não parece que faça mal a ninguém. O que faz mal é a arbitrariedade. Imagino que fosse isto que eles quisessem dizer. Os resultados são relativamente arbitrários e, portanto, injustos. Não acho que não eram subjetivos e existiam mecanismos de controle, que era o pedido de revisão de prova. Era relativamente fácil fundamentar um pedido de revisão de prova, até pela correção do professor, percebia que estava mal feita a correção. Agora, na nova era da digitalização, quero ver como é que se vai fundamentar um pedido de revisão de prova. Quando recebemos um papel assético com um número cuspigado ao lado, sabe-se lá quais foram os movimentos mentais do corretor e a chancela do classificador, como é que se pega naquilo se não há nenhum indício do que foi o critério de correção? Mas o que é certo é que o prejuízo pras famílias foi enorme, para os candidatos foi enorme e permanece a questão que a ninguém interessa, que é: para quê? Para quê esta experiência social que nos vai permitir a todos crescer? Para quê isto? Para que nos metemos nesta situação? Para que passamos por isto? Para que impusemos a esta geração e a estes miúdos esta atabalhoada, caótica e trapalhona entrada na universidade? Este grande exercício em nome da digitalização, da modernidade e da objetividade não cumpriu nenhum dos seus objetivos. Não funcionou, correu mal. Em matéria de objetividade estamos agora a ficar esclarecidos. Vem uma avalanche de pedidos de revisão, uma carrada de erros já detetados. E a pergunta é esta: para quê? Nós temos tantos problemas para resolver. Podíamos estar aqui a fazer um ditado dos problemas nacionais durante o programa todo, se quiséssemos torturar as pessoas que têm a paciência de nos ouvir. Mas não, aqui decidimos criar um problema novo, porque acháramos que tínhamos a solução.
Sendo que aqui, apesar de tudo, e apesar de toda a gente que esteve envolvida em processos que envolvam qualquer tipo de mudança informática, seja o que for, todos nós sabemos que o potencial para isto correr mal é enorme. Mas apesar de tudo, nós estamos a falar de uma coisa relativamente simples. É pegar num papel, digitalizá-lo, digitalizar é mais ou menos como tirar uma fotocópia.
Eu como sou um inabilitado para essas funções, tenho grande respeito por quem consegue fazer isto tudo.
Não, certo. O meu ponto é: não é a construção de um novo aeroporto. É só isso que eu estou a dizer. Agora, o que me deixou um bocadinho mais preocupado, especialmente ontem, foi o retrato que nós tivemos de como é que o Estado funciona. Ontem, o antigo presidente do Júri Nacional de Exames foi ouvido no Parlamento, o ministro também e depois também ouvimos o secretário de Estado da Educação. No ano passado foi feito um projeto-piloto com o exame de Filosofia desta digitalização para perceber como é que as coisas funcionavam. E então o presidente do Júri Nacional de Exames, que imagino que tenha conseguido acompanhar aquela experiência-piloto, chegou ao final da experiência-piloto e não escreveu um relatório a explicar o que tinha corrido mal. Logo a primeira coisa estranha.
É um caso de nem às paredes confesso.
Pronto, OK, fez-se aquilo e não se aproveitou nada, supostamente. Depois temos um ministro que também não pediu o relatório. Houve uma experiência-piloto, o ministro seguramente sabia que estava a existir uma experiência-piloto, esperou um dia, dois dias, uma semana, duas semanas, um mês, dois meses, não lhe apareceu nenhum relatório e não foi pedir o relatório, não foi perguntar o que se passava, não lhe interessou ler o relatório e mesmo quando decidiu generalizar a experiência-piloto, também, pelos vistos, não foi procurar relatório nenhum. A primeira coisa que se imagina que um ministro faria seria: "Então vamos lá aqui ver o que se passou no ano passado." E depois a seguir tivemos o secretário de Estado da Educação a dizer: "De facto, não houve um relatório, mas havia informações sobre o que aconteceu." Prestadas como? De que maneira? Toda esta tal informalidade que nós encontramos aqui, tal como vamos encontrar na questão da crise com Luís Neves, pelos vistos é uma característica do nosso Estado. O nosso Estado, além de ter o peso de um elefante em cima das pessoas, funciona à base da informalidade. Nós podíamos ter um Estado altamente burocratizado, não estou a dizer que fosse funcionar muito melhor, mas altamente burocratizado, com muitos funcionários que sabiam o que estavam a fazer, com procedimentos que tinham de cumprir, e nós percebemos que não. Não é isso que acontece. Por isso, quando formos fazer uma reforma a sério, quais são as garantias que as pessoas têm de que isto não se vai desfazer tudo? Eu acho que um dos grandes problemas disto a que estamos a assistir na educação é que as pessoas ficam em pânico com a possibilidade de haver reformas. Eu, que acho que nós precisamos de muitas reformas, fico um bocadinho em pânico.
A experiência das pessoas não é de informalidade. A experiência das pessoas quando se dirigem a qualquer outra autoridade, por exemplo, precisam de uma licença para uma coisa qualquer, nem sempre encontram do outro lado alguém disponível para ajudar. Encontram alguém que considera que é mais prudente e tendo instinto de autopreservação, o melhor é não decidir. Ou então negar provimento.
Certo.
Queres fazer um tanque no meio de lado nenhum? Nem pensar. É assim, há um medo do Estado, porque o Estado parece que não está aqui para nos ajudar, toda a gente vive aterrorizada, os funcionários vivem aterrorizados, ninguém é capaz de decidir, as Câmaras não decidem, porque cada decisão é um problema. Uma decisão errada lá de baixo nunca é revertida até ao topo, porque quem é que vai assumir a responsabilidade de ter invertido ou desrespeitado, ou não homologado, seja lá o que for, a decisão do técnico? O técnico pode ser a primeira instância que olhou para aquilo e se calhar viu mal, mas a enorme responsabilidade de decidir num país onde ninguém escapa ao celebrado escrutínio. Basta uma pessoa ter uma qualquer animosidade, manifesta-se com estes esforços privados que se fazem dentro do Estado e não sei o quê. E a história acaba sempre no Ministério Público a abrir inquérito. Oh, diabo!
Então nós já vamos falar dos inquéritos do Ministério Público.
Isto só para dizer que o Estado não é só burocracia. O Estado também é uma entidade composta por pessoas que, por instinto de auto preservação, têm uma preferência sistémica pela não decisão ou prolongar o movimento aos pedidos das pessoas.
Certo. Sendo que aqui, de facto, a relação do Estado com os cidadãos é formalismo máximo e dificuldade máxima, o que o torna ainda mais surpreendente quando vamos ver dentro do Estado como é que as coisas são feitas e chegamos à conclusão de que isto foi feito pelos vistos.
Mas tu já reparaste que estas disfuncionalidades do Estado de certa maneira irradiam para o setor privado? Isto é uma influência nefasta sobre o funcionamento do país. Por exemplo, antigamente, quando tinhas um problema com qualquer serviço de telecomunicações, que é o que me estou a lembrar, mas pode ser qualquer outro, tu telefonavas para um sítio onde eras atendido. Já reparaste que também as telecomunicações todas já fizeram as respetivas reformas digitais. Correu melhor do que a do Estado, mas o resultado é pavoroso.
Não, mas aí o objetivo é mesmo criar uma muralha entre as empresas e os consumidores. Eu ontem precisei de uma coisa e estive a gritar durante 10 minutos para um agente de IA: "Quero falar com um operador". E ele resistiu, Sérgio, mas eu no final consegui.
Conseguiste.
Tornei-me vitorioso. Senti-me no Odisseia.
Derrubaste o sistema.
Eu derrubei o sistema.
Eu, por acaso, uma vez também passei no centro comercial e só ouço um cavalheiro ao telemóvel a berrar assim: "Quero falar com um humano". E eu a pensar: "Mas para onde é que este tipo telefonou?"
Era eu, Sérgio.
Pensei que não era Marte, era um serviço qualquer, obtuso, com aquele bot obtuso a perguntar qual é o número de contrato.
Exato. Não, qual é o número de contribuinte.
Que é uma coisa que todos nós temos tatuada na coxa.
E já reparaste que eles pedem o número de contribuinte para tudo ser mais rápido e quando um humano te atende, a primeira coisa que te pede é o número de contribuinte? É também uma coisa que eu adoro. Enfim, bom, já voltamos. Vamos só ao noticiário e já voltamos para o Luís Neves e para o Reino Unido. Bem-vindos de volta ao Realpolitik. Já estivemos a falar sobre a crise na educação. Também temos a crise Luís Neves. Sérgio, tu continuas a achar que o ministro da Administração Interna é um perseguido, um mártir?
Mártir se calhar é um bocadinho , tem conotações bíblicas que eu não traria à colação. Mas como acabamos de ouvir o noticiário, vamos já incorporar aqui um dado novo. Portanto, um candidato ao ensino superior, se bem percebi, que tenha recebido como nota um 13, pode perfeitamente, depois de constatado que a grelha de correção tinha erros, que afinal não tinha um 13, já andava ele a festejar aí pelas ruas de Portugal e de repente não, não tiveste nada um 13, um erro. Devias ter um sete. Mas de qualquer maneira vais ter nove e meio. Eu pergunto: do ponto de vista do objetivo que orientou e determinou esta revolução digitalizadora, que foi a objetividade, o que é que se há a dizer? Objetividade parecida só nas notas administrativas a seguir ao 25 de Abril.
Tu tiveste muitos setes, Sérgio, na tua carreira académica?
Nunca tive nenhum.
Não?
Não. Que me lembre.
Então vai surgir aí um documento.
Acho que tive uma negativa a matemática ou duas, quando estava no liceu.
Ok.
Mas acabei com 19 já, agora que estás aí a tentares chavalhar-me. A média 19. E pronto, então agora tu querias que eu escorresse.
Luís Neves. Vamos aos mártires.
Pronto, realmente. Eu estava aqui a pensar, já não sabia o que mais dizer sobre este episódio. E lembrei-me que realmente, estes famosos casos, como é evidente, não podem acontecer nas ditaduras, mas nas democracias são uma constante. Agora e no passado remoto. Quer dizer, a democracia ateniense também adorava os escândalos. E não só na democracia ateniense, eu lembrei-me. Eu não sei se o governo do Costa Cabral, no período que imediatamente antecedeu a Regeneração, se não teve a ver com o famoso escândalo do Macalés. Eu me esqueci de confirmar antes de vir para o programa, mas acho que também foi acusado de ter recebido Macalés e ter sido corrompido através de Macalés. Eu não sei que valor teria à altura um Macalés.
Um Macalés deve valer um bom dinheiro.
Um capote feito em Inglaterra, que era o equivalente aos carros alemães hoje em dia. Não sei, também era uma coisa um pouco suspeita. Mas agora deixando tempos remotos, lembremos: Mário Soares passou pela história dos dinheiros de Macau e do caso Emório. O Sá Carneiro pelos 30 mil contos. Lembras-te da história dos 30 mil contos? Cavaco Silva pela famosa casa do Algarve. Cadilhe, os móveis que foram transportados pela GNR para o novo apartamento de Azamoreira.
O guarda-fiscal.
O guarda-fiscal, exatamente. Tens toda a razão. Bom, eu lembrei-me de mais, mas agora confesso que não. Quer dizer, há uma espécie de purgatório Em que todos os políticos têm que mergulhar e alguns reemergem à superfície e outros são levados para as profundezas do Hades político, onde ficam para sempre. Mas é uma constante da democracia. Ou esta história, como já expliquei, a dos bidões e das bancas de madeira.
E o outro lado?
Eu percebo. Como é que isto se compara com a calesta do Costa Cabral?
Mas tu achas que a história do outro lado, nem o fato de a Polícia Judiciária ter chegado à conclusão de que-
Quer dizer, qualquer pessoa percebe que num país normal, o lugar do outro lado é na garagem da Polícia Judiciária. O que é que o outro lado está a fazer ao lado do tanque e dos bancos de madeira? Não é aí que está.
Não, estava em Barcelos.
Está em Barcelos.
Não, ao pé de um caminhão da ConstroBarcelos, que é a empresa do empreiteiro que fez as obras na PJ e também na propriedade de Luís Neves.
Quer dizer, numa sociedade subordinada à virtude do senhor Robespierre, tudo isso se resolvia com a guilhotina. Não é verdade? Luís Neves, avança e direi só ao patíbulo, que é pra aprender a não pôr trilhados em Barcelos. Agora que os padrões de virtude já não estão nesses cumes chimeiros, nós temos que nos interrogar. Nada disso é uma história especialmente apresentável, mas então justifica correr com o ministro? Esta que é a avaliação que temos que fazer.
Mas quer dizer, eu acho que a resposta-
Toda a gente concorda que também a decapitação sumária na Praça da Revolução
Pode eventualmente ser excessiva.
Pode eventualmente ser excessiva. Talvez uma amputação de uma mão, sei lá.
Mas parece-me que a resposta à pergunta sobre se o ministro deve continuar a ser ministro, depende também um bocadinho daquilo que o ministro nos disser.
Do ponto de vista dos interesses lesados, eu acho que ninguém tem dúvidas de que as trapalhadas no ingresso no ensino superior não têm comparação com as tábuas Xilampas ou Xilipas, como é que elas se chamam? Xulipas?
Xulipas, acho que é Xulipas.
O impacto das Xulipas convertidas em bancos e o impacto dos exames digitais convertidos num caos, do ponto de vista do prejuízo causado ao país, acho que a gente percebe que a ordem de grandeza não é a mesma. Mas eu pergunto: alguém vê no horizonte, avançando pelo meio da névoa em direção a nós, um futuro ministro da Educação melhor que o Fernando Alexandre? Mesmo que nos ponhamos todos neste momento ali na barra, com os olhos postos no mar oceano, eu sinceramente não vejo nenhum candidato melhor. A minha preocupação realmente é dizer as coisas com justiça e com verdade. E depois olhar com humildade pra o país que somos e que temos. Perceber que estas pessoas estão a cumprir uma missão cívica dificílima. Estão a fazer o melhor que podem e sabem. Não são perfeitos, são seres humanos, são portugueses. O que é um português? É uma raça vocacionada pra sobreviver no ecossistema difícil chamado Portugal. E portanto, quer dizer, em vez de farisaísmos e em vez de perdermos a capacidade de avaliar, somos capazes de aprender qualquer coisa com isto e mudar-nos pra melhor? Não somos. Bom, melhor é provavelmente continuarmos mais ou menos na mesma, mas antes vamos fazer aqui um exercício expiatório e exemplar.
Mas quer dizer, tem de haver algum nível de responsabilização política.
Mas claro que está feita. Por exemplo, o Fernando Alexandre fez uma coisa que eu gostei imenso de ver, que foi assumir a responsabilidade toda e até pediu desculpa às pessoas. Quer dizer, em vez de estar a enfeitar esta trapalhada e a tentar disfarçar o seu real significado, reconheceu que correu mal. Eu se fosse a ele já não dormia a pensar na prova de 2027. Porque conhecendo nós aquilo que a casa gasta.
Certo.
Agora, quer dizer, vamos ver se ele consegue melhorar o que fracassou estrondosamente, do meu ponto de vista, uma reforma desnecessária, não suficientemente explicada, que pretendia objetividade e estamos conversados. Esperemos para o ano que corra melhor, esperemos que os impactos este ano sejam minorados, em linha com as advertências sensatas do ponto de vista do presidente da República. E pronto, já chega. Não há nenhum super Fernando Alexandre, à coca, pra se vir sentar na cadeira dele.
Isso não há, seguramente. Mas a tua conclusão é: a reforma não era necessária, a reforma não fazia sentido, a reforma foi mal feita, foi tão mal feita que afetou milhares de alunos e de famílias, até pondo em causa o rigor e a equidade, mas passem-me aí um copo d'água e vamos à próxima.
Mas a experiência histórica demonstra, eu aqui vou citar um autor chamado Miguel Pinheiro, que quando se faz uma remodelação é sempre pra pior. Estive bem ou não?
Certo, estiveste bem.
Pronto, gosto de fazer as minhas "quotations" com rigor.
Estiveste bem.
Estranhamente, Miguel Pinheiro está desejoso que mudemos pra pior.
Muitas vezes é isso que acontece, mas aí até entramos num outro ponto, que é: eu acho que este governo tem um problema estrutural, que é o seguinte: o plano de Luís Montenegro, logo no início dos tempos, no seu primeiro governo, foi o seguinte, ele pensou: Estou aqui no governo, sou o primeiro-ministro e há uma coisa fundamental nesta legislatura que é o Parlamento. Eu tenho um governo minoritário, tudo se vai jogar no Parlamento. Eu tenho que fazer no Parlamento as coisas de forma que a dada altura possamos ir a eleições para eu ganhar uma maioria absoluta. Eu tenho que ter alguém em quem confie absolutamente no Parlamento para conduzir politicamente o debate no sentido ou de conseguir apoios no Parlamento que nos permitam fazer coisas incríveis, ou então, falhando isso, que era o mais provável, obviamente, sem eles terem maioria absoluta no Parlamento, que conduza os portugueses até à conclusão de que nós precisamos de uma maioria absoluta porque o Parlamento está minado. E para fazer isso, ele pôs o Hugo Soares no Parlamento, que é o seu alter ego. Parece-me que isso criou uma disfunção que é a seguinte: Luís Montenegro não tem ninguém no governo em quem confie verdadeiramente para tratar das coisas, para mandar nas coisas, e a segunda pessoa mais importante do governo não está no governo, está no Parlamento. Isso cria uma disfunção e por isso parece-me que a única remodelação governamental que faria sentido era Luís Montenegro pôr Hugo Soares no governo para ser o número dois do governo, pôr lá alguém no Parlamento, e essa era a única maneira deste governo funcionar decentemente.
Eu não tenho estudos para me pronunciar sobre uma reforma governamental com essa amplitude e ambição.
Sérgio, mas então assim não tem ninguém com quem salvar o país, que eu estou a perceber.
Querias fazer comigo uma frente unida, mas não vais fazer. Eu espero que alguém no governo ouça isto, porque essas pérolas de sabedoria não se podem perder.
Olha, eu estou aqui, eu ilumino o caminho.
Eu sei, tu és como uma colheita militar, tu és uma candeia que ilumina não em cima.
Sou uma candeia. Olha, vamos passar para outras candeias que estamos a 10 minutos do fim do programa e além de salvar Portugal, temos que salvar o Reino Unido. Tomou posse o novo primeiro-ministro pelo Partido Trabalhista, o Andy Burnham. Não houve eleições, não houve nada, simplesmente houve uma mudança de liderança no Partido Trabalhista. É assim que as coisas se passam no Reino Unido, não há nada de ilegítimo nisso. O Andy Burnham já fez um primeiro discurso, já tomou algumas medidas. Como é que tu olhas para ele com esperança ou com ceticismo?
Não, eu olho com esperança. Espero que a vida corra bem ao Andy Burnham e que a sua visão, a sua conceção do que deve ser o futuro do Reino Unido, se concretize, se revele viável. Como ele próprio já teve ocasião de aprender, está fortemente condicionado pelos mercados financeiros que emprestam e financiam o Reino Unido, como nós também. A nossa lição foi mais dolorosa, mas também aprendemos isso. Mas ele tem realmente uma ideia que, no essencial, consiste em reconstruir as condições para que o Reino Unido, nós podemos chamar de Inglaterra, que é como nós portugueses chamamos o Reino Unido, andamos aqui com esta coisa do Reino Unido. A Inglaterra possa ter uma atividade industrial relevante, que foi aquilo que deixou de ter a partir do fim dos anos 70 e do princípio do thatcherismo. Os problemas já lá estavam, não foi a Margaret Thatcher que os inventou. Os problemas da base industrial inglesa, que era muito forte. Basta dizer que a Inglaterra chegou a ser o maior produtor europeu de automóveis. Automóveis são produtos de alto valor acrescentado. E não foram os trabalhistas que arruinaram o setor automóvel inglês. Há várias teorias sobre isso. Provavelmente foi o facto de estarem afastados do ambiente concorrencial da CEE e, portanto, passaram muitos anos a fazer carros maus. E depois tinham aquele problema das relações industriais, como eu dizia, os sindicatos também tiveram um papel altamente prejudicial. E o que é certo é que a Inglaterra, depois da senhora Thatcher, aliviou o Estado de tudo que não era rentável e toda a indústria pesada, inclusive os transformadores, automóveis, uma parte enorme que vivia ao norte da Inglaterra desde a Revolução Industrial, simplesmente sumiu-se. E cresceu a praça financeira de Londres, que exige uma moeda forte, e a moeda forte torna as exportações inglesas menos competitivas e, portanto, tudo convergiu para impedir uma economia exportadora e industrial. Como é que isto se vai reverter? Bem, agora há uma situação que vem agravar este quadro geral, que é a transição energética, que torna a energia muito cara e a indústria não pode operar com a energia mais cara da Europa, que é o preço da energia em Inglaterra. Portanto, a situação é bicuda, mas o primeiro-ministro está convencido que o arranque industrial menor é possível avançar para um modelo parecido com, por exemplo, o da Suíça. A Suíça é um país com uma moeda forte, portanto, a princípio, um país que não seria competitivo e, no entanto, tem produtos de alto valor acrescentado, como por exemplo, os fármacos. É uma grande potência. Portanto, é possível conciliar uma atividade econômica privada industrial com uma economia, com uma moeda forte, que dê garantias e permita o funcionamento de uma praça financeira. Essa é a esperança dele. O sul da Alemanha também é outro exemplo. O marco alemão é uma moeda forte, não era por isso que se deixavam de exportar os carros ou mais. Portanto, esse é o modelo dele. Ele diz que o que está a prender, amarrar o norte da Inglaterra ao atraso é o desinvestimento, a concentração dos recursos em Londres. Portanto, ele defende, no fundo, aquilo que nós aqui chamaríamos uma regionalização. Ele defende a regionalização E defende um investimento infraestrutural no norte, para que o norte tenha condições mais apelativas para atrair capitais e investimentos. Tem qualificações, tem cidades com uma tradição industrial, e ele acha que é possível operar isso. Não é propriamente como diz a direita, depreciativamente, uma tentativa de regressar aos anos 70, ninguém tem saudade dos anos 70. É a tentativa de permitir ao Reino Unido dar um salto em frente e conciliar os interesses da praça londrina com uma capacidade industrial que levante do atraso relativo em que caiu todo o norte de Inglaterra. Eu tenho muita esperança que ele seja bem-sucedido. É preciso trazer ao mercado de trabalho 12 milhões de pessoas, é um número espantoso. Pessoas que não estão à procura de emprego e não estão a trabalhar, que estão a pesar na Segurança Social. É preciso lidar com os preços da energia, não sei se ele tenciona recuperar o petróleo do Mar do Norte e as reservas que os ingleses ainda têm, ou se tenciona avançar para aquele objetivo tipicamente inglês do net zero. Porque a verdade é que as energias alternativas são muito caras e funcionam como uma renda que é paga não só pelas famílias, mas também pela indústria, por toda a sociedade inglesa. Porque é preciso financiar essa transição, e essa transição é muito cara. Como é que ele vai resolver todas estas dificuldades? Cá estaremos no nosso posto de observação privilegiado.
Olha, nós agora trocamos de lugar. Agora foste tu a oferecer pérolas aos nossos ouvintes. E eu vou focar-me aqui só num detalhe que eu achei muito revelador do Partido Trabalhista nos últimos tempos, e que tem a ver com o seguinte.
Lá vem uma salva de artilharia quanto ao partido do povo trabalhador.
Como se sabe, o Partido Conservador já vai em três mulheres primeiras-ministras. Umas melhores, outras coitadinhas, terríveis, como a Liz Truss, a Margaret Thatcher. Santo Deus.
Mas tens que reconhecer que está dois a um para as incompetentes.
Aquela que dançava como um robô.
Sim, é três a meio.
Exatamente.
Mas que dançava lindamente.
Lindamente. E os trabalhistas, que são o partido da igualdade. A verdade é que lá vão escolhendo homem atrás de homem para a liderança. E, ciente disso, um alto dirigente do Partido Trabalhista, quando soube que o Andy Burnham ia ser o novo líder, o que é que ele decidiu fazer? Decidiu dizer que ele ia ser, na verdade, a primeira mulher primeira-ministra do Labour, porque ele ia ter uma agenda assumidamente feminina, focada na saúde, na educação, nas finanças familiares e em questões como ruas mais seguras, apoio social e segurança online para as crianças, e disse que ele tinha uma paixão por questões orientadas para as mulheres e muito menos para bombas e orçamentos. Portanto, na cabecinha destas pessoas que mandam no Partido Trabalhista, em primeiro lugar.
E esse quem é? Desculpa.
Ele não-
Não divulgou a sua identidade.
Por razões misteriosas teve o bom senso de não revelar a sua identidade. Mas em primeiro lugar, eles acham que as mulheres, coitadinhas, essas coisas de bombas, guerras e orçamentos, não se cansem com essas coisinhas, que isso faz mal à vossa cabecinha e depois ficam muito cansadas. E preocupem-se com as finanças familiares, com a saúde, com a educação. Uma mulher preocupa-se é com estes assuntos e não com outros, por um lado. E, por outro lado, acham que um homem pode ser a primeira mulher primeira-ministra só porque sim. Isto mostra um pouco aquilo que tem sido um dos problemas do Labour nos últimos tempos. Um outro problema que eu temo que o Andy Burnham tenha, que é o da falta de convicções. Há uma anedota, e ele próprio tem falado essa anedota nestes dias. Como as pessoas saberão, houve o Blair, o Brown, o Corbyn à frente do Partido Trabalhista, políticas muito diferentes, odiavam-se uns aos outros. Então a anedota diz: um blairista, um brownista e um corbynista entram num bar. E o barman diz: "Olá, senhor Burnham." Portanto, ele conseguiu estar em todo lado, sempre. E quais são as verdadeiras convicções que ele tem? Vamos descobrir agora. Parece-me que ele fez uma boa escolha para as finanças, porque colocou lá o ex-ministro da Defesa, que se demitiu há umas semanas, porque não estava a haver dinheiro suficiente para a defesa.
Um homem de princípios.
Um homem de princípios, e agora ele é que vai mandar nas finanças. Esta escolha para os negócios estrangeiros, acho um pouco mais-
Ed Miliband.
Do Ed Miliband, acho um pouco mais preocupante, porque o Reino Unido vai ter que falar com os Estados Unidos, por mais que eu odeie Trump, e ter um ministro dos Negócios Estrangeiros que já disse N vezes que Trump é frequentável, não sei.
Quer dizer, nós temos que ter presente que vivemos num mundo irracional, onde milhares de milhões, trilhões, como dizem os americanos, são gastos em munições, armas, e nós precisávamos desse dinheiro para a transição energética. Mas não, estamos a comprar armas para nos podermos matar uns aos outros. É nesse mundo que operam os governantes, o Reino Unido Já não tem a importância global para sozinho fazer a diferença. E portanto, eu espero, apesar de tudo, dentro desses constrangimentos e dentro da irracionalidade geral desta vida, que é uma comédia e uma tragédia de maneira internacional, talvez o Ed Miliband consiga catequizar os seus colegas dos negócios estrangeiros para a necessidade de se levar a sério a questão ambiental. Os custos de não se enfrentar os desafios ambientais vão ser provavelmente muito maiores do que os custos que a transição energética impõe. Mas se um país se lança sozinho, como o Ed Miliband queria, nessa trajetória de ser como tu, uma luz que irradia, ilumina a humanidade e mostra que é possível. Ele está a imolar o Reino Unido no altar da transição energética e um preço desproporcionado está a ser pago pela economia e, portanto, pelo nível de vida dos ingleses. Um país que polui 2% ou produz 2% de dióxido de carbono. Ou seja, um país que por si só pode sacrificar-se, imolar-se e castigar-se para operar sozinho uma transição energética que vai ter um impacto marginal na situação climática global. Talvez ele seja um grande evangelizador. Aliás, ele tem qualquer coisa de evangelizador. Sempre que o oiço parece que me está a dar uma lição.
E está.
Parece o "Libération". E, portanto, desejar que ele consiga realmente catequizar e evangelizar os seus pares europeus e mundiais.
Vamos esperar por isso. Agora, quem nos está a ouvir tem que ser forte, porque nós agora vamos fazer uma pausa. Vamos voltar a 19 de agosto. Vai ser um período ainda razoável sem o programa. Portanto, muita força a todos. Sérgio, muita força pra ti também e um abraço.
Um abraço pra ti. Um abraço pra todos. Boas férias.