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Sou Manuel Jesus Ezequiel Pinto e tenho 45 anos.

Manuel está nesta altura a fazer reabilitação para recuperar das sequelas da Covid-19 e de um AVC que teve durante o internamento. Esteve um mês em cuidados intensivos. Em casa, a filha foi a primeira a testar positivo ao novo coronavírus. Manuel teve sintomas poucos dias depois.

Começou a doer muito o corpo no local de trabalho. Tive que vir embora e fui de carro direto ao Hospital São José.

O teste positivo chegou a 5 de agosto. Ainda esteve em casa, mas como os sintomas se agravavam, foi internado a 11 agosto. Já no hospital, acabou por piorar e entrou nos cuidados intensivos, onde foi entubado e induzido em coma.

Daí em diante, eu não me lembro de nada.

Foram 32 dias. As memórias são confusas.

Eu ouvia vozes e os médicos a falar e aquelas roupas astronauta que eles vinham e ouvi de um jovem.

As máquinas que medem os sinais vitais, os ventiladores, os tubos, o oxigênio, os médicos e enfermeiros dentro dos fatos de proteção. Nos cuidados intensivos, nunca há silêncio.

Estava ventilado e ainda hoje eu ouço o telejornal e cada vez que eu ouço as máquinas ligadas, o pipi, aquilo começa a mexer comigo, começo a chorar. Não quero ver. Aquilo impressiona-me muito.

Ali, deitado, entubado, Manuel sentiu o desespero.

Não podia dizer que estava vivo. Não me conseguia mexer. Estava paralisado. Só o meu cérebro é que estava a trabalhar.

Esteve no limite. A família foi avisada. Manuel estava em risco de vida.

Eu até pedi aos médicos, porque entretanto não estava cá, estava nos Açores, vim para cá. Entretanto, eu até pedi que se houvesse a oportunidade, ao menos de eu conseguir entrar lá dentro para me despedir.

Isaac Pinto estava pronto para ver o pai pela última vez, mas Manuel resistiu. A pouco e pouco, foi começando a reagir. Ainda nos cuidados intensivos, os médicos fizeram uma videochamada para casa.

Tens muita gente a orar por ti, por todo lado. Por isso confia em Deus. Tens que ter força.

No vídeo, Manuel está ainda entubado.

Já sei que tu estás melhor. Força! Não sais hoje, não sais amanhã, sais quando Deus o permitir.

Não conseguia falar, mas ouvia tudo.

Aí a minha mulher começou a falar comigo, eu ouvi a voz da minha mulher, comecei a lagrimar.

Pensa bem. Mas mesmo sem barba, tu sabes que eu te ramo, se tu tirares essa barba. Mas mesmo assim estás lindo, estás bonito.

Ó Manuel, fala. Fala com ela. Manda um beijinho assim. Manda um beijinho com a boca. Esforça-te.

Não consegue.

Isso!

Está a querer chamar-te.

Esforça-te. Ele tem dificuldade em falar, mas é por causa do tubo.

Sim. Ok.

E arranjou força para começar a recuperar.

Deram-me mais uma oportunidade.

A 7 de setembro fez exames e os médicos perceberam que tinha tido um AVC. Não é caso único. As consequências da Covid-19 estão a ser estudadas em todo o mundo e apontam para uma relação entre o vírus SARS-CoV-2 e doenças cardiovasculares, como o AVC.

A maior parte dos doentes que acaba por ter acidente vascular cerebral são pessoas que têm já alguns problemas prévios, alguns fatores de risco para acidente vascular cerebral e em que a infecção pode ter atuado como facilitador, descompensando já problemas prévios. Houve outros doentes em que isso não aconteceu. Eram pessoas que não tinham risco prévio.

Elsa Azevedo é diretora do serviço de neurologia do Centro Hospitalar de São João. Recentemente, este hospital fez parte de um estudo internacional que avaliou casos de AVC associado à Covid-19. Juntou 432 doentes de 17 países. Uma das conclusões é que a infecção em quem tem fatores de risco aumenta a probabilidade de um acidente vascular cerebral.

Por exemplo, uma pessoa que tenha alguma lesão prévia, vamos imaginar uma pessoa que tem já umas placas ateroscleróticas nas artérias, o fato de haver uma infecção que vai afetar o sistema vascular. Sabemos que a Covid-19 afeta o revestimento vascular, o endotélio. E, por outro lado, sabendo também que é uma doença que aumenta a coagulabilidade do sangue, isto pode facilitar Que pessoas que já têm estas placas descompensem e formem um trombo, por exemplo, ali em cima de uma das placas, acabando por ocluir a artéria.

Mas em muitos casos, os doentes eram saudáveis.

Verificou-se que em cerca de um quarto destes casos, se tratava de pessoas sem antecedentes, sem fatores de risco prévios e com idades também mais baixas, inferiores a 55 anos. E, portanto, aqui, de facto, as pessoas não teriam à partida um risco prévio e o acidente vascular cerebral provavelmente deveu-se apenas a complicações da infecção, nomeadamente um aumento da coagulabilidade e de uma inflamação das artérias e também do atingimento de outros órgãos pela própria infecção, como seja o coração e secundariamente acidente vascular cerebral.

Com ou sem doenças associadas, tudo parece indicar que quando há infecção com o novo coronavírus, os acidentes vasculares cerebrais são mais graves. Elsa Azevedo explica que normalmente 20% dos casos de AVC atingem pequenas artérias. Quando o AVC se relaciona com a Covid-19, esse valor é de 10%.

O acidente vascular cerebral associado à Covid-19, de uma forma geral, foi mais grave porque afetou mais vezes grandes artérias. E quando afeta grandes artérias, quer dizer que uma grande artéria leva sangue para um território cerebral grande. Portanto, quer dizer que são acidentes vasculares cerebrais em que é afetada uma área grande do cérebro e portanto, são mais graves. Em geral, a mortalidade foi cinco vezes superior se o AVC se associou à infecção por Covid, relativamente aos doentes que têm acidente vascular cerebral sem Covid.

Neste momento, está a decorrer um outro estudo que junta cinco hospitais do norte do país, do qual faz parte o São João. O objetivo é perceber a incidência de casos de AVC associados à Covid-19 em Portugal. E já é possível chegar a algumas conclusões.

Verificou-se que enquanto as estatísticas internacionais dos vários estudos mostravam que havia AVC em 0,5 a 5% dos doentes com Covid hospitalizados, o nosso estudo mostrou do norte que houve acidente vascular cerebral em cerca de 2% dos doentes internados.

Este estudo no norte do país está a associar-se a outros centros europeus para perceber a dimensão desta nova realidade. A diretora do Serviço de Neurologia do Centro Hospitalar de São João lembra que ainda vamos ter de conviver com a Covid-19 por muito tempo e o processo de vacinação não está concluído. Por isso, Elsa Azevedo defende que é preciso agir onde é possível. É determinante o acompanhamento médico de quem tem fatores de risco cardiovasculares.

É muito importante que nós não descuremos o seguimento das pessoas que têm estas doenças crônicas, porque têm que estar compensadas, têm que ter as suas consultas de rotina, têm que fazer a medicação para estas doenças e a medicação preventiva quando indicada, nomeadamente antiagregação plaquetária, por exemplo, fazer a aspirina quando está indicada, fazer um anticoagulante quando está indicado, porque o descurarmos este aspecto vai fazer com que se a pessoa tiver uma infecção, vá ter certamente um quadro grave que possa precipitar o acidente vascular cerebral. Para as pessoas estarem mais protegidas, porque de facto as pessoas ainda estão expostas a risco de infecção, e portanto devem ter a sua saúde bem cuidada e ter estas doenças crônicas bem controladas, de forma que se por acaso apanharem a infecção, não tenham tanto risco de evoluir para um quadro grave ou, por exemplo, com um acidente vascular associado.

Depois de 32 dias nos cuidados intensivos, Manuel foi transferido para a enfermaria do Hospital Curry Cabral e começou o processo de recuperação.

Iniciei na fisioterapia, terapia da fala, terapia ocupacional para ganhar sensibilidade. Eu não conseguia abrir a rolha de uma garrafa.

Para além das sequelas físicas, há também sequelas neurológicas.

Eu perdi a noção do tempo. Muita coisa eu esqueci. Coisas antigas lembro, coisas novas não me lembro. Afetou muito a minha mente. Tudo em consequência do AVC.

Lentamente, foi recuperando as capacidades.

Foi maravilhoso, tenho que agradecer muito à equipe médica, o esforço dos enfermeiros, os terapeutas foram essenciais para a minha vida.

Manuel deixou o Hospital Curry Cabral a 19 de outubro. Passou a ser acompanhado como doente externo. Faz fisioterapia, terapia da fala, terapia ocupacional. São três dias por semana e as sessões chegam a durar três horas. Será assim nos próximos tempos. O processo de recuperação é lento E Manuel às vezes desespera quando pensa na vida que tinha.

Era uma vida agitada. Eu trabalhava na Associação Cristã, na qual eu fazia desde escrever cartas, fazer pedidos a instituições para dar alimentos a quem mais carecia e era pastor evangélico.

Tudo mudou de repente.

Há coisas que eu já não sou capaz de fazer. Escrever num computador, que era o meu trabalho diário. Dependo da minha mulher para me vestir, para tomar banho, dependo dela para tudo. Eu vivo na dependência e às vezes irrita-me.

Não conseguir fazer coisas simples do dia a dia. A ansiedade de não poder trabalhar. Para além da recuperação física, Manuel tem também acompanhamento psiquiátrico. Está a tentar processar tudo o que passou.

Penso que a vida de ninguém é a mesma desde que houve o Covid-19.

Ainda hoje tem pesadelos. Sonha com o tempo em que esteve internado. Os médicos dentro dos fatos de astronauta, o som das máquinas. Tem um longo processo pela frente, mas todos os dias consegue fazer um pouco mais.

Sinto essa recuperação cada vez mais forte. Eles dizem que eu sou muito novo vou recuperar, mas é bom. Eu tinha uma vida muito ativa e sinto falta do trabalho. Eu tenho fé que vou melhorar.