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Não tenho consciência de quando acordei, nem tenho memória desse momento.
Hélder Gomes esteve 52 dias em coma.
Lembro-me de coisas depois. Lembro-me de estar completamente fora de mim. Porque para mim aquilo foi estalar o dedo, foi ligar e desligar o botão. Desligaram, eu desapareci, voltaram a ligar e eu estava cá outra vez. Para mim, não houve tempo. Perdi o Natal, perdi a passagem de ano, perdi os 18 anos do meu filho, que era uma data importante, que eu gostava de ter passado com ele. Perdi.
Sentado junto à janela do quarto que agora ocupa no Centro de Reabilitação do Norte, vai recordando o que o trouxe aqui. É um dos doentes que está a recuperar das sequelas deixadas pela Covid-19. Testou positivo a 10 de novembro. Os sintomas agravaram-se e no dia 15 foi internado no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.
Do Pedro Hispano mandaram-me para o Santo António e como a situação era grave e precisava da máquina da ECMO, a única disponível era no Santa Maria e eu fui para o Santa Maria.
Hélder foi transferido para Lisboa, mas a última memória, antes de entrar em coma, ainda é do Porto.
Eles adormeceram-me ainda aqui no Santo António. Por estranho que pareça, há coincidências da vida. Na altura que me estavam a adormecer, entrou uma enfermeira que eu reconheci de estudar comigo no secundário. E a única coisa que me disse e que foi marcante, foi: "Hélder, tens que lutar com todas as forças, agarra-te àquilo que mais gostas." E eu disse: "Aos meus filhos." E ela disse: "Então agarra-te, porque vais precisar, porque o estado não está fácil. Se fores forte, vais conseguir ultrapassar isso."
Foi engraçado, porque eu não reconheci o Hélder de imediato.
Susana Costa é a enfermeira de anestesia do bloco operatório do Santo António. Na primeira vaga da pandemia, foi chamada a integrar uma unidade específica, criada pelo hospital, para cuidar de doentes Covid. Os cuidados intensivos eram uma realidade nova, o número de infetados aumentava a cada dia, o trabalho era duro e os turnos muito longos. No meio deste turbilhão, um dia ouviu um doente a chamar por ela.
Ele no dia em que entrou na unidade, eu estava de serviço, mas ele não era um doente que me estivesse atribuído, estava atribuído a uma colega, e eu por algum motivo entrei na sala onde ele estava a ser admitido, equipada, com máscara, com os óculos, com um barreta a proteger o cabelo, e já não me lembro o que disse, mas falei para a minha colega. E o Hélder do lado de lá disse-me: "Olá, estás boa?" E eu fiquei a olhar, meia curiosa, não estava a reconhecê-lo. E ele disse: "Não me estás a conhecer?" Eu disse: "Não." "Andaste no Rodrigues." "Andei", que foi o liceu onde andámos os dois. E diz ele: "Eu sou o Hélder." O que deixou-me perplexa, porque no meio daquela confusão, ele doente, com dificuldade respiratória, reconheceu-me de imediato.
No liceu, não faziam parte da mesma turma e nem sequer eram muito próximos. Desde esse tempo, nunca mais se tinham visto.
Lembro-me que no turno seguinte que eu fiz, cheguei, o Hélder ainda estava na unidade e voltei a não estar com ele como meu doente, mas lembro-me que fui à sala onde ele estava e que estava na unidade ao lado, um doente já em fase terminal. Inclusive, que tinha sido permitida a visita dos familiares para se poderem despedir. E eu, por algum motivo, quando fui à sala, olhei para o Hélder e achei que ele estava muito incomodado com a situação, que aquilo estava a mexer com ele. E então, equipei-me, vesti-me, fui à beira dele e lembro-me que falámos um bocadinho e que eu tive lhe a dizer que aquilo não era de todo uma situação com a qual ele se devia se identificar, que ele que estava ali, que era jovem, que era saudável, que tinha todos os motivos para que as coisas lhe corressem bem e que a doença era a mesma, mas as circunstâncias que variavam com os doentes. E que a situação do doente que estava ao lado, que não era de todo ele, que ele deveria lutar e esforçar-se para ficar bem, porque tinha todas as condições para que isso acontecesse. Eu lembro-me que na altura, ele muito emocionado, mostrou-me umas fotografias dos filhos. Do rapaz e da rapariga, com orgulho enorme, apesar da dificuldade que ele tinha em falar, porque ficava muito cansado, mas mostrou-me umas fotografias dos filhos. Eu disse: "Aí está o motivo ao qual tu tens que te agarrar e tens que lutar por isto". E efetivamente, ele acenou-me que sim. Pediu-me na altura que falasse com a mãe dos meninos, que lhe dissesse o que é que se estava a passar e eu fiz o que ele me pediu, liguei à ex-mulher dele e falei com ela e tivemos esse contacto nessa altura. E ele serenou um bocadinho. Entretanto, as coisas também foram tranquilizando e infelizmente para o Hélder, nesse dia foi uma sequência de eventos todos muito rápidos.
O estado do Hélder estava a agravar-se e acabou por ser entubado.
Propusemos lhe a falar com a família, porque nós temos noção da realidade destes doentes, que muitos deles quando são entubados, depois podem recuperar ou não. Muitas das vezes é a última oportunidade que eles têm para falar com a família. E eu voltei Eu me identifiquei um pouco com a situação. Tinha a mesma idade que eu tenho, dois filhos de idade aproximada aos meus dois filhos. Vínhamos da mesma escola e eu estava a tratar e ele estava a receber cuidados e eu percebi que a diferença entre estar num lado e noutro é muito pequena. E eu me identifiquei muito com o Hélder e quando se começou a falar na unidade: "Vamos ter que intubar o Hélder", eu fui lá falar com ele e tentar explicar o que se ia passar. E disse que se ele não queria falar com a família, não lhe disse que poderia ser a última vez, como é óbvio, mas que ia estar intubado, que não sabíamos quanto tempo ele ia estar intubado, que se quisesse ser ele a dizer à família, porque podia haver uns dias em que não houvesse contato da parte dele, para eles não se preocuparem, para falar com a família. E ele assim fez, ligou aos filhos, ligou à ex-mulher, ligou, julgo que à irmã dele, e depois disso foi uma sequência muito rápida. Foi preparar a medicação, dar-lhe a medicação e eu lembro-me que na altura que lhe disse: "Pronto, agora a tua parte está feita, lutaste, agora vais descansar que nós vamos lutar por ti, vamos fazer tudo para que tu fiques bem". Há poucas palavras que a gente possa dizer nestas alturas. É muito difícil para eles, é difícil para nós também. É sempre difícil, mas quando é uma pessoa jovem, saudável, que nos faz realmente pensar que a fragilidade disso tudo, porque não são só os idosos a quem acontece, não é só aos idosos a quem corre mal. O Hélder fez-nos ver isso, porque foi um dos doentes mais jovens que tivemos. Tivemos alguns mais jovens, mas que não foram intubados e que tiveram uma passagem curta pela nossa unidade. Mas um doente jovem, saudável, sem doenças associadas e não estava a correr bem.
Depois disso, Hélder foi induzido em coma e os médicos determinaram que precisava de ECMO, uma máquina que substitui a função dos pulmões e do coração. Em São João não havia vagas, por isso foi transferido para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Susana foi sempre sabendo informações do estado de Hélder através da família. Ainda hoje. E recentemente, falou com ele no Facebook.
Troquei duas mensagens no Messenger, mas eu penso que ele ainda deve ter alguma dificuldade na autonomia com o telemóvel. Duas mensagens muito rápidas e ele agradeceu-me numa delas. Realmente marcou-me muito, como pessoa e como profissional.
As palavras de Susana, pouco antes de entrar em coma, são a última memória nítida de Hélder. Em Lisboa, esteve 46 dias em ECMO. Quando acordou, percebeu que não conseguia fazer nada.
Eu não conseguia coçar o nariz. Eu não conseguia chegar a mão ao nariz para coçar o nariz. Eu não mexia as pernas, as pernas estavam completamente paralisadas. O braço mexia uma coisa muito mínima e eu lembro-me que estava sem calças de pijama e olhei para as minhas pernas e disse: "O que é isto?" Houve uma altura da minha vida que pratiquei muito ginásio e tinha os braços mais largos do que tinha as pernas na altura. Era só mesmo pele e os ossos. A massa muscular desapareceu toda e eu não me conseguia estar sentado, manter o pescoço direito. Um desespero total e a pergunta: "E por quê?"
Até esta altura, com 47 anos, nunca tinha tido problemas de saúde. A Covid-19 deixou-o com uma tetraparesia, uma perda de força muscular global. Não tem equilíbrio no tronco, o movimento nos braços é limitado e mal consegue mexer as pernas.
Por exemplo, se estiver a perna por cima da roupa, na cama, eu consigo mexer a perna para um lado e para o outro. Se tiver o lençol e a coberta, o peso disso já não me deixa fazer.
Hélder começou recentemente a fisioterapia no Centro de Reabilitação do Norte, em Vila Nova de Gaia. Aqui chegam os doentes da região norte do país em estado mais grave, com capacidade de aguentar um tratamento de recuperação intenso. Entre as 08h30 e as 16h30, só há pausa para almoço. Têm fisioterapia, terapia ocupacional, terapia da fala, nutrição, enfermagem, apoio de psicologia e de assistência social. Muitos deles são doentes pós-Covid.
Uma passagem nos cuidados intensivos, nomeadamente quando é prolongada, pode causar algumas sequelas num conjunto até que é denominado de síndrome pós internação em cuidados intensivos. Estes doentes Covid, caracteristicamente, têm uma passagem nos cuidados intensivos que é bastante prolongada e portanto são particularmente suscetíveis a sofrerem este tipo de sequelas. A síndrome pós internação em cuidados intensivos comporta imensas alterações diferentes Logo desde o início, algumas alterações cognitivas. São doentes que muitas vezes apresentam alterações da atenção, da memória, da velocidade do pensamento, alterações executivas. Além disso, a intubação, as traqueostomias e toda a fraqueza resultante da estadia prolongada, da sedação, dos próprios fármacos, dá alterações ao nível da deglutição e da voz. E são doentes que têm uma fraqueza muscular associada aos cuidados intensivos, que vai ser variável na sua gravidade, consoante as alterações que têm. Porque esta fraqueza pode resultar de lesões musculares, lesões dos nervos ou de ambas as estruturas. E vai ser mais grave quanto maior for o tempo passado na enfermaria, em imobilidade, e portanto, alguns deles têm parestesias muito importantes e vêm totalmente dependentes, quer na deambulação, portanto em cadeira de rodas, quer em tudo aquilo que são as suas atividades de vida diária.
Ana Machado Lima, a coordenadora da Unidade de Reabilitação Geral de Adultos, explica que há outras sequelas.
Nós ao longo do tempo temos vindo a perceber que o vírus, embora seja predominantemente respiratório, também afeta outros sistemas. E já temos cá internados alguns doentes que tiveram um síndrome neurológico sobreposto como consequência do vírus. Alguns doentes com AVCs que se associaram à infecção por Covid, alguns doentes que tiveram Síndrome de Guillain-Barré, que no fundo é uma inflamação, digamos assim, e uma lesão dos nervos do corpo todo, também associado à Covid. Alguns doentes que tiveram uma encefalopatia posterior reversível, que é uma alteração que surge a nível cerebral. Também se pensa que resulta da infecção que tiveram por Covid e um deles inclusive ficou com uma cegueira cortical e com alterações cognitivas das quais não recuperou.
No centro, cada caso é avaliado à chegada. As necessidades de terapia são identificadas e é traçado um plano com objetivos específicos que vão sendo ajustados ao longo do tratamento. Não há um tempo fixo para recuperar. Em média, dos doentes que têm passado por aqui, a reabilitação dura cerca de mês e meio, mas há casos que exigem que o tratamento seja prolongado. E alguns nunca vão voltar a ter todas as capacidades.
Nós temos alguns doentes que não vão recuperar completamente todos os défices. A maior parte desses doentes, o que acontece é que eles têm lesões decorrentes da passagem nos cuidados intensivos, mas algumas que nós achamos que até podem ser também consequências de atingimento direto pelo vírus, mas que têm algumas alterações neurológicas sobrepostas, que depois vão impedir a recuperação completa.
Ainda não se sabe tudo. A pandemia tem um ano. Há estudos que estão a ser feitos, mas é cedo para perceber todas as consequências. Hélder Gomes acaba de chegar de mais uma passagem pelo hospital. Na última semana, no centro de reabilitação, desenvolveu uma colecistite, uma inflamação da vesícula biliar, que o obrigou a ser transferido.
No sábado passado tive umas dores abdominais terríveis. Não se sabia de que era. Entretanto, mandaram-me para o hospital de Gaia. Regressei hoje, portanto quinta-feira, e chegou-se à conclusão que era um problema com a vesícula. Sinceramente, não sei se está relacionado com a questão Covid ou não, mas felizmente estou bem e agora estou pronto para começar amanhã novamente a fazer a fisioterapia para a evolução ser o mais rápida e o melhor possível.
Foi mais uma vitória, mais um obstáculo que teve de ultrapassar.
Mais um problema que apareceu. Infelizmente, eu já estou aqui há três semanas, aproximadamente. Três, quatro semanas. E não tenho feito muita fisioterapia porque tenho tido problemas que me vão proibindo, não me vão permitindo estar disponível para fazer a fisioterapia.
Hélder está ansioso para voltar ao trabalho de reabilitação, mas estes percalços, às vezes, desanimam.
Há uns dias alguém me dizia: "Hélder, um sorriso, não estás feliz?" E é um bocadinho de pôr aquilo na balança, é olhar para o copo meio cheio ou meio vazio. Estou feliz porque consegui vitórias. Eu tive pessoas amigas que me disseram que achavam que eu não ia sobreviver, que o quadro era tão negro. E estou feliz por ter conseguido isso. Estou feliz por estar aqui no centro de recuperação, mas ao mesmo tempo uma pessoa pergunta: "Por quê? Por que desta maneira?" Isto pode modificar significativamente a nossa vida. Há pessoas que não recuperam e ficam com mazelas. Por exemplo, eu não era diabético, fiquei. Eu não tinha problemas nenhuns de saúde e agora vou ter um problema de rins que me vai acompanhar para toda a vida. Portanto, há mazelas que vão ficar.
As mazelas, como lhe chama Hélder, não são a única preocupação.
Estamos aqui, eu trabalho, estou de baixa, mas as contas continuam a aparecer e em termos de rendimentos, baixa consideravelmente. Isso é outra questão que
Queremos, quer não, a pessoa de vez em quando pensa nela.
Há preocupações económicas, há agregados familiares a ficar sem emprego. Portanto, há um conjunto vasto de alterações que estão a acontecer na dinâmica familiar, independentemente da própria situação da doença, que já por si é altamente ansiogénica, também por essa possibilidade ou essa percepção de que pode voltar a acontecer, mas que associada a todos os outros fatores e que efetivamente há um conjunto de fatores que ultrapassam especificamente a doença covid e que faz com que seja muito mais complexo ultrapassar, portanto, esta sintomatologia em períodos muito curtos.
Sara Silva é a coordenadora do serviço de psicologia do Centro de Reabilitação. Explica que muitos doentes chegam em situações agudas de estresse e ansiedade. A passagem pelos cuidados intensivos é perturbadora. Não há dia nem noite, as luzes estão sempre ligadas, não há silêncio, as máquinas não podem parar. Mas para além dessa situação traumática, há o isolamento.
Enquanto que numa outra altura, um doente que nós identificássemos que precisava da família ao pé dele, que não seja mais para invalidar aquela percepção de que eu estou sozinho no mundo. Não, está aqui. Nós hoje em dia não fazemos isto com a mesma facilidade. Nós não podemos agarrar numa família e pô-la aqui ao pé do doente ou de todos os doentes. E, portanto, é o medo da doença regressar, é o medo de algumas sequelas, é o medo dos familiares ficarem afetados, mas depois é todo um outro conjunto de medos e de receios muito válidos, de um conjunto de situações paralelas que continuam a acontecer. E que não podem ser descuradas, não é por não serem covid que são descuradas e efetivamente as pessoas sentem muito isso. Muito esse isolamento, muito esse estar sozinho, muito essa preocupação com as questões económicas da família, com eu estou aqui, não estou a contribuir para o sustento da casa. Efetivamente, tudo junto, amplifica-se completamente estas situações.
Hélder sente essa falta da família.
Por causa do covid, não há visitas. Eu já não vejo os meus filhos há mês e tal. Posso dizer que a minha mãe, segundo o que a minha irmã me diz, chora todos os dias e só vai parar quando me vir entrar em casa.
As saudades custam, mas aqui, no centro de reabilitação, encontrou mais apoio numa cara conhecida. É uma outra coincidência.
Que é quase um jackpot encontrar um colega de trabalho que conheço há cinco anos. Estamos os dois e é importante porque a pessoa conhece já. É importante ter um amigo aqui ao lado, porque uma pessoa apoia-se.
O facto de se apoiarem um ao outro, tem sido importante, acho que foi para os dois, não é?
Sim, com certeza que sim. O exemplo de domingo, que a senhora doutora pensava que eu estava, mas não estava. Estava era sozinho.
Estava a sentir falta também.
Estava de alguma coisa. Domingo é mais estranho.
Encontramos António Teles no ginásio. Faz uma pausa na bicicleta quando nos aproximamos. É ele o colega de trabalho e agora de quarto do Hélder.
Conhecemo-nos na empresa e fui eu um dos que fiz a entrevista ao Hélder, eu e o meu chefe direto, e ele veio trabalhar para o meu setor. Trabalhou comigo nove meses. Depois houve uma vaga no departamento comercial para fazer propostas, etc. E ele depois passou para lá, que era mais a praia dele. Era a área que ele tinha vindo.
António e Hélder trabalham numa empresa do ramo automóvel em Vila Nova de Gaia.
Eu já sabia que ele estava cá, mas não sabia onde, não sabia internamente como é que isto funcionava. E estava para aí dois quartos antes do meu. Foi quando a doutora Ana e a psicóloga também falou comigo, se eu não me importava de mudar para o quarto dele.
A equipa médica do centro percebeu que juntá-los no mesmo quarto ia ajudar nesta fase da recuperação.
Somos um apoio um para o outro. Sentia a falta dele no fim de semana. Não me custa admitir isso, independentemente de ele não ser muito falador, etc. Mas tive. No fim de semana que ele não esteve, eu fiquei assim um bocado abananado, porque não tinha ninguém, estava sozinho no quarto. Ainda para mais eu ainda estava em isolamento e portanto nem podia sair do quarto. A televisão fazia zapping constantemente, não percebia nada. E sentia a falta dele.
Esse episódio, no domingo, deixou-o em baixo.
Aquilo que estávamos na conversa há bocado com a doutora. No domingo passado, o meu companheiro de quarto tinha ido para o hospital, foi internado. E eu estava no quarto, ao fim de semana não há fisioterapia, e eu estava um pouco triste, aquela nostalgia de estarmos ali sem fazer nada, sem termos pessoas, sem nada. E a enfermeira reparou que eu estava triste. "O senhor está triste?" "Estou um bocado triste." Aqui regista-se tudo. A doutora na segunda-feira quando me viu aqui, veio falar comigo. Começou por dizer que eu estava a melhorar, que estava a progredir imenso. "Eu soube que o senhor Teles no fim de semana estava um bocado triste e eu quero animá-lo a dizer que efetivamente está a correr tudo bem para si." São pormenores Para nós vale muito.
António também está no centro para recuperar das sequelas da Covid-19. Antes de ser infectado, já tinha vários fatores de risco cardiovasculares: diabetes, colesterol elevado, hipertensão, excesso de peso e tinha sido fumador. No início de janeiro, depois do teste positivo ao novo coronavírus, esteve internado no Hospital de Santo António, no Porto, e chegou a ficar quatro dias em coma.
Não conseguia andar, não conseguia comer. Não comia. Tive que estar a soro alguns dias que eu nem olhava para a comida. Eles queriam me dar a comida, mas eu rejeitava, não tinha apetite nenhum. Não mexia na cama. Fiquei ali uns dias sem atividade, nada. Vieram pôr uma argola. Senti muita dificuldade em entender isso, tenho que ser honesto.
Chegou ao centro de reabilitação há cerca de duas semanas.
Tenho atingido os objetivos, tenho ultrapassado os objetivos. Todos os dias ultrapasso os objetivos, o que é uma coisa extraordinária para mim, avaliando que há 15 dias eu nem andar, andava. Tive que aprender a andar outra vez e hoje já caminho nos corredores, já estou pronto a largar a cadeira de rodas, que é o meu próximo objetivo. Deduzo que para semana vou ter essa prenda, de abandonar a cadeira. O resto aqui é trabalho.
O ginásio está equipado com máquinas de exercício de todos os tipos. Aqui treina-se mais força de pernas, ali movimento dos ombros. Os terapeutas vão orientando o trabalho de cada doente.
Já sabe, se sentir um esforço muito forte, tem que me dizer, combinado? A ideia do exercício é que seja um esforço leve, mas durado.
Um equilíbrio entre o estímulo, o incentivo para conseguir ir mais longe, ao mesmo tempo que vão lembrando que o trabalho é progressivo.
Não está a sentir para já, levezinho. É isso que eu quero, como é o primeiro dia, vamos com calma.
Não é fácil. A determinação em voltar a ser o que se era e a vontade de regressar a casa, é forte. É preciso gerir expectativas. António confessa que ajudava estar com a família de vez em quando, sem ecrãs, ao vivo.
Nós somos muito agarrados uns aos outros. O meu filho mais velho está a estudar em Lisboa e nesta fase ele está cá. Ele tem agora um projeto em março e ele está se a recusar fazer tudo porque enquanto eu não for para casa. Nós agarramo-nos um ao outro. Cada um de nós agarra-se uns aos outros lá em casa e portanto, isso é uma prova também de carinho dele, mas ainda temos que falar melhor sobre isso, porque eu queria que ele fosse fazer o projeto. Diz ele que pode adiar, não adiar. Vamos ver.
Um assunto para resolver em breve. Agora está concentrado em recuperar e já tem uma meta definida.
Olhe, tenho, não nego. Eu faço anos no dia 12 de março. Faço 60 anos. Então tenho esse objetivo. Mas também se não for, não vou ficar triste. Eu gostava de passar os anos em casa e estou a trabalhar para isso.
Hélder partilha o mesmo desejo.
Eu faço anos a 31 de maio. Eu gostava de nessa data poder festejar o meu aniversário já de pé, autônomo. Tenho esse como objetivo. Faço 48 anos nessa altura e acho que era uma prenda bonita eu poder já estar em casa, já estar a ter a minha vida normal, a trabalhar. Era importante.
Ao final da tarde, Hélder e António sentam-se à janela do quarto, que está virado para o mar. Quando acaba o dia, ficam ali. Contam os barcos que chegam da pesca. Tentam adivinhar a vida daqueles homens que desafiam as ondas e entre conversas banais, vão puxando um pelo outro, celebrando as conquistas de cada dia.
Há coisas que uma pessoa pensa na vida, damos valor a determinadas coisas que realmente não são assim tão importantes. Cada vitória, o chegar com o dedo ao nariz, é insignificante para qualquer pessoa, mas eu quando consegui foi uma vitória, porque não tinha que pedir: "Olha, calça-me o nariz".