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Dentro do táxi, José Saraiva vai vendo televisão no tablet. É mais uma tarde que vai passar estacionado em frente ao mercado de Alvalade, em Lisboa.

Não tem mais nada que fazer. Chegamos a estar duas horas, uma hora e meia, duas, três horas parados numa praça táxis para fazer um serviço. Às vezes €3,25, que é a bandeirada mínima aqui nesta zona. De resto, é o problema maior desta classe e estamos a fazer uma média de dois, três serviços por dia.

Se antes da pandemia José Saraiva chegava a faturar €70, €80, agora são raros os dias em que volta à casa com mais de €10 no bolso.

Até há duas semanas, isto estava a tentar normalizar-se, estava aos poucos a subir e, de um momento para o outro, voltou tudo à estaca zero.

A Câmara de Lisboa anunciou um apoio de €500 a fundo perdido para cada taxista, mas nesta praça o ambiente é, para já, de desconfiança.

Isto é como São Tomé, é ver para crer. Enquanto não houver nada, não podemos dizer que eles vão dar ou não dar, porque de promessas está o mundo cheio.

Mais à frente, nesta fila que ultrapassa a dezena de táxis, está António Monteiro. Garante que qualquer apoio ajuda, é preciso é que chegue e depressa.

Ia ajudar muito. Não sei se isso é verdade, se eles vão dar alguma coisa, eles prometem, mas não dão nada. Até agora não deram nada.

António Monteiro assegura que há muitos custos escondidos nisto de ser taxista.

Um táxi é uma empresa. Agora, se as pessoas virem o que é uma empresa, vejam logo as despesas que isto tem. Tem Segurança Social, tem PEX, tem rádios para pagar, tem contabilista, tem tudo. Por isso a gente está aqui a fazer dinheiro para pagar as despesas, mais nada. Trabalhamos todo dia sem fazer nada para nós, é para pagar as despesas.

Na situação de António e José estão muitas centenas de outros profissionais. Pela cidade de Lisboa vão-se acumulando os carros nas paragens de táxi.

Se reparar aqui, olhe a quantidade de carros que estão nas zonas, nas praças táxis. Isto está aqui para tudo. Em praças táxis, nos Olivaes tem nove, Cinco de Outubro tem sete, está tudo assim. Isto só de rádio táxis. Num dia normal, antes da pandemia, estávamos aqui 10 minutos e saíamos.

Arrancar parece não estar fácil para estes taxistas. Muitos já encostaram de vez.