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Junta-se agora em direto neste jornal o epidemiologista Henrique Barros, presidente do Conselho Nacional de Saúde e presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto. Muito bom dia, Henrique Barros.
Bom dia.
Estamos aqui a falar e a registar um crescimento exponencial de casos de infecção com esta variante, que é aparentemente mais benigna. Na sua perspectiva, Henrique Barros, chegamos a uma altura que seria importante repensar a estratégia de combate à Covid-19 e aliviar algumas medidas, nomeadamente estas regras de isolamento?
Bom dia. Não há nada que tenha especialmente mudado. Aquilo que mudou, fundamentalmente, e isso é verdade em imensos países, foi a enorme capacidade de fazer testes, ou seja, de identificar pessoas que têm infecção e que têm essa infecção sob formas mais benignas no seu decurso. Só o exemplo português é muito interessante. Mas ele reproduz-se de formas semelhantes nos diferentes países que identificaram ao longo desta manhã. Se olharmos para Portugal e olharmos para o que se passava, por exemplo, no dia 23 de dezembro de 2020, a média de sete dias de testes realizados eram quatro testes por mil pessoas. Hoje em dia, o número médio de testes por mil pessoas, na última semana, o valor correspondente é 400% superior. Ou seja, em vez de uma média de quatro testes a sete dias por mil pessoas, tivemos praticamente uma média de 20 testes a sete dias por mil pessoas. Simplesmente, este facto dá-nos a dimensão de que nós estamos a fazer tantos mais testes que identificamos, acima de tudo, muito mais gente infetada do que fazíamos antes. Antes estávamos, sobretudo, a identificar os casos que tinham queixas ou um número relativamente pequeno de pessoas que procuravam saber se estavam infetadas, nomeadamente numa suspeita de um contacto possível.
E, portanto, agora estamos a conseguir varrer mais todas as pessoas, mesmo os assintomáticos.
Exatamente. Só para ter uma noção, quando aqui há algum tempo se olhou para tudo o que se tinha publicado nos vários países, em várias circunstâncias, verificava-se que havia, para cada pessoa identificada, diagnosticada, usando os testes moleculares, os testes de PCR, verificava-se que havia globalmente no mundo 18 pessoas infetadas, ou seja, que tinham evidência de contato com a infecção, através da pesquisa de anticorpos. E nós próprios, em Portugal, podemos mostrar que à medida que o tempo foi passando, olhando para o que acontecia no início da pandemia entre nós, portanto, em abril, maio, junho de 2020, e depois no fim do ano e no início deste ano que estamos agora a viver e que vai acabar, ia diminuindo a razão entre o número de pessoas que tinha estado infetada com um diagnóstico, aquelas que contam para aquele milhão e cerca de 200 mil pessoas que se diz que infetaram em Portugal, e o número de pessoas nos mesmos grupos populacionais que tinham evidência de infecção. Portanto, não mudou nada de especial. O que nós estamos a ter é, felizmente, uma enorme capacidade de fazer testes, e ainda bem, é fundamental que eles sejam feitos, porque eles vão cobrir as eventuais falhas da vacinação. Deixa só para terminar. Que não haja razão nenhuma para mudar o nosso cuidado com a infecção, o que não quer dizer, e desde o princípio que isso foi verdade, que nós tínhamos que saber qual era a nossa estratégia. E portanto, parece que há uma espécie, ou pode parecer, isto agora é opinativo, nem sei se tenho o direito de o dizer, mas parece que um certo cansaço está a fazer as pessoas mudarem a perspectiva, esquecerem-se que a infecção continua, em muitos casos, a ser grave, gravíssima até nas pessoas não vacinadas, sublinho, nas pessoas não vacinadas. Que estas variantes são a evolução esperada da replicação do vírus, particularmente em circunstâncias em que existe mais de metade da população do mundo ainda não vacinada e, portanto, continua suscetível. E nós não vivemos fechados, não temos uma cerca em torno do nosso espaço geográfico que impeça o vírus de circular. E não podemos esquecer que se é verdade que, eventualmente, esta variante, como seria de esperar, aliás, na evolução natural do vírus, tende a ser menos agressiva de um ponto de vista da gravidade da doença que provoca, o que também carece ainda claramente de verificação por causa desta razão que falamos, ou seja, pela extraordinária quantidade de pessoas que estão a ser testadas, e muito bem, sublinho. Nós, por exemplo, não podemos esquecer-nos, ainda não sabemos o suficiente, se também aqui não vamos encontrar aquele problema que nos preocupava tanto e de que não nos podemos esquecer, que são as formas longas de infecção das pessoas que continuam sintomáticas ao fim de vários meses.
Portanto, Henrique Barros, o que se deve continuar a fazer é continuar a testar muito, em massa, vacinar e manter os mesmos níveis de isolamento profilático?
A quarentena, ou seja, as pessoas saírem do contato com outras, porque elas próprias contactaram com alguém doente, com infecção, sempre foi excessiva, se quisermos, na maior parte das circunstâncias e sobretudo, sublinho, tem sido errática na forma de ser aplicada. Muito provavelmente, nós exageramos sempre no número de dias. As pessoas já se esqueceram que no início era preciso esperar por um teste PCR negativo, o que demorava, e sabemos hoje muito bem por quê, às vezes, meses a acontecer.
E, portanto, isso poderia ser revisto nesta altura, numa altura em que podemos ter 37 mil casos diários, podíamos rever essas regras e o número de dias?
Podemos, naturalmente, rever. E deixe-me dizer, o número médio de casos que nós estamos a ter não é 37. Se olharmos para esta semana que passou, a média de casos, porque houve dias com 16 mil, também houve dias com três mil. A média de casos, e devemos olhar para esse valor médio ao longo da semana, até porque há variações e na próxima semana vai acontecer o mesmo, há feriados, essas coisas todas, andou à volta dos 10 mil casos por dia, em média, durante a semana. Mesmo que a infecção esteja a duplicar, temos de esperar para ver se é mesmo assim, porque as medidas que estão a ser usadas, seguramente, nomeadamente o teletrabalho, o fim das aulas que aconteceu, o aumento da vacinação que continua, tudo isso vai ter efeito e começa a ter efeito. Portanto, digamos que daqui a uma semana haverá, em média, e isso num cenário mau, em vez de 10 mil, seriam 20 mil casos por dia. Portanto, não vamos ter dias e dias seguidos, 37 mil casos. Vamos olhar para isto com a calma, se me permitem o termo, necessária, que estes números indicam. Só para terminar. Se nós voltarmos a ter dias com 300, 400, 500 mil pessoas a testarem-se, o que está muito bem e deve acontecer, sobretudo se as pessoas forem contactar umas com as outras, isso poderá acontecer. Agora, essas infecções nem correspondem a doença, nem necessariamente correspondem à transmissão da doença.
Portanto, não teremos um janeiro particularmente difícil a este nível de situações graves.
Se os testes se mantiverem como estão, não, mas temos que ter atenção a uma coisa. Há uma relação muito clara entre a temperatura e as condições meteorológicas. Sabemos disso para todas as infecções ao longo de décadas e séculos até. Se o inverno for mais suave, naturalmente que haverá menos efeito na carga de infecções. Se o inverno for mais rigoroso, tenderemos a ter mais casos. Precisamos, portanto, também de nos proteger melhor. Agora, temos também que adaptar, isto é uma questão de racionalidade, temos que adaptar aquilo que fazemos a dois factos essenciais: a vacina é extraordinariamente protetora, portanto, se estivermos vacinados, estamos protegidos e continuamos protegidos. E naturalmente que se não queremos correr riscos praticamente nulos, devemos utilizar os testes como uma forma adicional de saber se estamos ou não, eventualmente, a transmitir o vírus. E estas duas coisas juntas dão-nos uma enorme segurança. E as outras medidas de proteção, nós sabemos que elas são extremamente úteis, não só para a Covid, como para as outras infecções. Por isso é que nós não vemos gripe como habitualmente víamos nesta altura do ano.
Henrique Pais, uma última questão. Está marcada uma nova reunião no Infarmed para o dia 5 de janeiro, para o novo ponto de situação. Esse encontro deveria ser antecipado ou esta data parece-lhe correta para se conseguir observar como é que a pandemia evoluiu nas últimas semanas?
Qualquer data é boa para ver como a pandemia está a evoluir, portanto, não há razão para mudar ou para não mudar.