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Carla, voltamos à notícia de abertura deste jornal das 10. Tem a ver com as críticas feitas ontem à noite pela ministra Rosário Palma Ramalho, a propósito da provedora exonerada, Ana Jorge. Acusou a provedora de nada ter feito para resolver os problemas da Santa Casa e disse mais, disse que Ana Jorge subiu salários para benefício próprio. Temos agora em direto ao telefone Ana Jorge. Muito bom dia. Foi, de facto, ontem alvo de acusações que vão muito para além das questões de gestão, porque apontam também para benefício próprio. Como é que responde a estas críticas, Ana Jorge?

Bom dia, obrigada. Só posso responder que o benefício próprio é mentira, não há nenhuma decisão sobre isso. E, portanto, não me revejo naquilo que a senhora ministra disse e aquilo que posso dizer é que é mentira. Penso que tem a ver com algumas coisas relacionadas com a Lei do Orçamento de Estado, mas que eu apurei. Quanto às outras questões que me acusa, eu farei prova na Assembleia da República. Contesto profundamente tudo aquilo que a senhora ministra tem dito. Foi um ano extremamente difícil, mas nós fizemos tudo aquilo que era possível fazer para manter a Santa Casa de pé, para manter toda a atividade que ela tem feito na cidade de Lisboa e não só, porque temos intervenção na NUTII, portanto, nos concelhos que vão até Mafra e todos os outros à volta de Lisboa, na área da juventude, que é um esforço e de apoio aos tribunais, e que tudo isso se tem mantido. O apoio social em Lisboa não teve nenhuma diminuição, antes pelo contrário, e fizemos uma execução orçamental com resultados positivos em 23. E a senhora ministra tem lá o relatório de contas já. Não o tem no dia em que ela queria, porque nós tínhamos uma autorização do Tribunal de Contas e do ministério anterior para o entregar até dia 30 e justificamos a razão. E a senhora sabe. Portanto, tudo aquilo que diz, eu não me posso rever e considero, mais uma vez, que estou a ser maltratada. Tenho 50 anos de função pública, de causa pública. E mais, o aumento do que houve nos trabalhadores foi o acordo de empresa, que foi celebrado com as duas centrais sindicais, que nós conseguimos fazer com o mínimo de repercussão financeira, mas tendo em atenção os trabalhadores, principalmente os de níveis mais baixos, que é aquilo ao contrário que a senhora disse. E mais, quando eu disse isso à senhora ministra, ela disse-me que eu não devia ter feito o acordo da empresa, mas também não via problema porque ele podia cair. Portanto, do ponto de vista dos trabalhadores, estamos ditos.

Portanto, Ana Jorge, o que está a dizer é que, pelo menos numa reunião que teve com a ministra, houve um enorme mal-entendido. Cada uma entendeu coisas diferentes.

Provavelmente, entendemos coisas diferentes. Eu tenho, de facto, se calhar, um discurso diferente do da senhora ministra. Eu não sou jurista. Tenho uma preocupação muito grande com a situação social de todas as pessoas na área da solidão social e é nisso a minha grande preocupação, porque é para isso que existe a Santa Casa. E portanto, tentando salvaguardar sempre o interesse de todos aqueles a quem nós apoiamos e que são muitos.

Ou seja, terá estado Ana Jorge, a provedora da Santa Casa, mais preocupada em garantir toda a atividade de assistência e menos na gestão e na reestruturação que era necessária?

Não, isso não é verdade, porque eu para poder fazer e manter a ação social, eu tive que fazer reestruturações dentro da casa e houve reorganizações dos serviços que já foram feitas e outras que estão em marcha. Numa casa com 6 mil trabalhadores e com a complexidade que é a Santa Casa, para que não haja grande insegurança dentro da casa, é preciso fazê-la, como eu costumo dizer, com cabeça, tronco e membros. Isto é, temos que pensar muito bem naquilo que foi a redução dos custos e a redução de 40 chefias e não 19, como a senhora disse, que isso teve um impacto financeiro imediato, com a suspensão de algumas outras intervenções. Enfim, com um certo número de medidas de contenção financeira que eu irei explicar no Parlamento, com as medidas que tinham efeitos imediatos, a médio e depois a longo prazo.

Mas a reestruturação da Santa Casa parece-lhe que pode ser levada a bom porto e com os resultados que se esperam sem passar por despedimentos?

Se nós formos despedir em massa, estamos a pôr pessoas sem emprego e são, no fundo, pessoas que a Santa Casa está a apoiar. Não faz muito sentido, a não ser que, e não está em condições disso, a Santa Casa não está em rutura financeira. Portanto, fazer despedimentos de pessoas que fazem falta para a intervenção social, eu tenho que perguntar se é essa a forma melhor para fazer uma reorganização da casa. A casa precisa de uma reorganização, eu sempre o disse, e disse isso desde o primeiro dia. Portanto, é disso que estamos a falar.

Com que expectativas é que olha para o arranque das audiências que vão começar no Parlamento? Vai ser um momento para estes esclarecimentos ou vamos assistir a muitas versões contraditórias e não perceber o que é que aconteceu, de facto, o que é que correu mal na gestão da Santa Casa?

Eu acho que na gestão, durante o meu tempo ou antes de eu ter estado? Há duas fases.

Há duas fases que começam quando? Começam com a gestão que a senhora assume?

A fase que eu entrei, eu estanquei muito daquilo que nós consideramos em mesa, que temos provas disso, temos pareceres e portanto, é disso que eu irei dar conta ao Parlamento.

Quanto tempo espera que vá continuar à frente da Santa Casa até ser substituída? Tem algum prazo? Tem algum calendário?

Não, nós podemos, tanto quanto diz, a gestão pode ir até 90 dias, portanto, não sei quando é que a senhora ministra e o governo, principalmente o governo, porque o lugar de provedor é a nomeação do primeiro-ministro em conjunto com a ministra da tutela. E nós não somos um órgão da administração pública. Nós somos uma instituição tutelada, que é um pouco diferente das outras situações. E que eu acho que há alguma confusão sobre isso.

Portanto, tem 90 dias até lá. Como é que se exerce essa função?

Não, eu não tenho. Eu espero que não sejam 90 dias, porque a Santa Casa, com a dimensão que tem e com a responsabilidade que tem, não pode estar em gestão tanto tempo.

Porque até lá vai ser uma gestão corrente ou vai continuar a aplicar essas reformas que estava a dizer que já estavam em marcha? Vai continuar a executá-las?

Não posso fazer, em gestão não se pode fazer isso.

Portanto, é mesmo a gestão corrente. Ana Jorge, sente-se vítima de um saneamento político?

Eu gostaria que não fosse considerado, mas pelo que parece, parece que é. Eu sinto mal se isso acontecer, porque eu quando estou em cargos, estou por um projeto, por uma opção, por uma causa. E sempre assim o fiz. E as causas são as causas, e sirvo com transparência e, agora faltou-me a palavra.

Com espírito de missão.

Missão e sou leal a quem está. Quando não posso ser, eu venho-me embora, como já fiz noutros locais.

E é o que está à espera agora que aconteça.

Não, quer dizer, não é bem assim. Assim eu fui despedida, mas as outras vezes que aconteceu, que eu não me revi, mesmo em situações da minha área política, eu disse: "Eu não quero continuar, porque eu não me revejo neste modelo". E eu saio. Eu tenho a minha carreira pessoal, e a minha vida, e aquilo que eu sempre prezei foi o meu estar. E, portanto, é isso que me causa e é isso que me pauta ter estado até ter aceito nesta altura, ter ido para a Santa Casa há um ano. Muito obrigada.

Muito obrigada nós, Ana Jorge. Obrigada pela disponibilidade de reagir aqui em direto às críticas, às acusações feitas ontem à noite pela Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Um processo que culminou com a exoneração de Ana Jorge