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O governo anunciou há pouco que as aulas online vão regressar daqui a 10 dias, a partir de 8 de fevereiro. Jorge Ascensão, os pais estão preparados? O que é que lhe tem feito chegar? Os pais concordam com esta medida?

Esta é uma pergunta que não é fácil ter uma resposta única. Depende muito da perceção que os pais têm e das possibilidades que os pais têm. Nós temos que pensar que as condições familiares e o contexto habitacional não são todas iguais e, portanto, muitas vezes as reações são também de acordo com essas condições. Além de que temos famílias em que os pais continuam a trabalhar, temos famílias monoparentais e, portanto, há muitas situações distintas e as reações são diversas. Agora, nós percebemos que com esta interrupção letiva procurou-se, de alguma forma, compensar com as interrupções que aconteceriam mais pra frente, nomeadamente na Páscoa e no final do ano letivo, exatamente por estas diferenças e por estas desigualdades que o ensino à distância incorpora, agravando ainda mais as desigualdades que existem. Mas as condições da pandemia, de saúde pública, levaram-nos a ter que encerrar as escolas. Essa interrupção letiva não se pode prolongar indefinidamente. Vai-se ter que ir para aquilo a que eu costumo chamar o mal menor, é o mal necessário, que é procurar ir fazendo alguma coisa com o ensino à distância. Sendo certo que o nível de preparação, quer das famílias, quer das escolas, é muito diferente.

Eu ia lhe perguntar precisamente isto. Vamos para uma segunda ronda, entre aspas, os pais, não só os pais, mas também os alunos estão agora mais preparados e mais receptivos a este ensino à distância online?

Sim, seguramente. O ano letivo anterior foi uma aprendizagem, estamos mais preparados, melhor preparados. Não estamos, muito provavelmente, porque não temos uma prática metodológica em termos de pedagogia que seja facilmente adaptada ao ensino à distância. Portanto, continuaremos a ter dificuldades, continuaremos a ter situações onde é difícil ter rede internet, onde será difícil, provavelmente, numa outra situação, manter o computador ligado. Há situações muito distintas, mas na grande maioria foi uma aprendizagem, as pessoas aprenderam. E este tempo também, que agora vivemos de interrupção letiva, julgo que toda a gente foi percebendo que a probabilidade do ensino à distância acontecer era muito grande e também se foram preparando, como dizia há bocadinho uma pedopsiquiatra, foram-se preparando mentalmente, portanto também a preparação emocional para esta situação. É natural e é desejável que corra melhor, mas obviamente sempre atentos. Nós da nossa parte estamos sempre atentos, nomeadamente aos mais vulneráveis, aos que têm mais necessidades. Vamos ver. São três semanas, mais uma de interrupção letiva e depois as duas de ensino à distância. O que desejaríamos era que fosse tempo suficiente para poder fazer algum alívio da medida, ou seja, poder pelo menos haver ensino misto aos maiores e os mais pequenos poderem voltar à escola. Isso seria bom sinal, quer em termos de recuperação da saúde pública, porque se não for, temos que prolongar mais o ensino à distância e sabemos que ele vai ter impactos muito negativos. E não são impactos só às vezes as pessoas: "Ah, não é só uma questão das aprendizagens." É o impacto que este confinamento está a ter ao nível da saúde física, porque as crianças, muitas delas fazem muito menos exercício físico, ao nível da saúde mental, por todas as implicações que tem estar constantemente fechado. Se quisermos comparar com uma ideia idêntica àquilo que é a prisão. Estamos fechados, não podemos ir, não podemos ter. E é uma questão também de saúde social. Porque sabemos que isto tem um impacto muito grande, quer nos rendimentos familiares, quer em todas as possibilidades de desenvolvimento e de convívio familiar.

A propósito dos rendimentos familiares, deixa-me perguntar, tem sido suficiente o apoio do governo às famílias e aos pais para este ensino à distância, no sentido de os pais ficarem em casa, não poderem ir ao trabalho para poderem ficar em casa a tomar conta das crianças que ficam em casa a estudar?

O apoio que o Estado dá nunca é igual, nem em condições, nem em rendimento, àquilo que se obtém quando se está em trabalho, efetivamente. Portanto, nunca é suficiente. É uma almofada para amparar algumas situações, nalguns casos até bastante preocupantes, e sabemos bem de muitas dificuldades que se agravam em muitas famílias. Se o governo pudesse fazer mais, seria bom, mas também por isso é que dizemos que importa que cada um assuma a sua responsabilidade física, no sentido de que este tempo de confinamento possa ser o mais curto possível. Acho que temos que ter essa consciência. Não é possível estar ad eternum em casa, seja em teletrabalho ou não, mas em condições que são diferentes de trabalho e que sabemos que a produtividade é diferente e não é possível manter esta situação ad eternum sem graves prejuízos económicos, sociais e de saúde para todos, para as famílias todas.