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Gonçalo Lobo Xavier é diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição. O Governo assinou ontem o acordo com os parceiros sociais e, entre outras medidas, está previsto o aumento dos salários de 5,1% já para o próximo ano. Da parte da Associação Portuguesa de Indústrias de Distribuição, este é um objetivo exequível? É possível ter este aumento de 5,1%?
Devo dizer que a APED, como está representada na CIP, sentiu-se também representada e estando participando na comissão executiva, sentiu-se também representada, obviamente, neste desígnio, nesta assinatura deste acordo e por isso, formalmente demos o apoio e temos o suporte também da CIP nesta matéria, pelo que estamos ao lado deste desafio. É evidente que nós estamos a enfrentar um período bastante difícil da economia e que naturalmente vai trazer bastantes dificuldades e desafios ao nosso setor. Não escondemos isso. Mas já tínhamos feito, no início do mês de setembro, um acordo com o novo contrato coletivo de trabalho para o setor e que contemplava um aumento médio das remunerações perto dos 5%. Com este novo contrato, digamos assim, com este novo compromisso que nós aceitamos e vemos com bons olhos e como inevitável. É evidente que vai provocar um esforço muito grande por parte das nossas empresas. A APED representa 195 empresas, entre grandes empresas, microempresas, pequenas, médias, e os desafios são muito grandes, quer para o retalho alimentar, quer para o retalho especializado. Mas, conceptualmente, estamos de acordo que era preciso dar aqui um contributo importante para o aumento do salário mínimo e, de facto, não nos resta outra opção senão valorizar as carreiras do nosso setor. Já o tínhamos feito com o contrato coletivo que assinamos com o sindicato. É mais um desafio para o próximo ano que nós encaramos com otimismo, apesar de realmente vermos que vamos ter muitas dificuldades com o aumento crescente dos custos da energia e de uma enorme incerteza no comportamento dos consumidores. Mas era um sinal que era preciso ser dado e nós estamos alinhados com a assinatura e com o compromisso que a CIP teve nesta negociação.
Este valor também acaba por surgir numa altura em que vivemos uma altura de inflação e estes 5% acabam por não acompanhar esse mesmo valor. Haveria aqui margem para aumentar ainda mais estes 5% ou nesta altura, apesar da inflação, também há outros fatores que estão a complicar a economia, não só em Portugal, mas no mundo, seria impossível realmente ir além disto?
Repare que este é o compromisso possível, porque, como disse há pouco, o grau de incerteza é enorme. O comportamento do consumidor, o consumidor está com níveis de confiança muito baixos e naturalmente que na área do retalho vai-se sentir com muita intensidade esta desconfiança, esta falta de confiança no futuro próximo e esta incerteza. Ora, em períodos de incerteza, conseguirmos ter um compromisso de aumento de 5% é um compromisso importante, é o compromisso possível. Se há algumas áreas da economia que estão bastante sustentáveis, outras há que estão a enfrentar muitas dificuldades e por isso, um compromisso de 5% é um compromisso aceitável, razoável, em face da imprevisibilidade que vamos ter nos próximos tempos, decorrentes não apenas da guerra na Ucrânia, mas também do aumento crescente dos custos dos fatores de produção que atravessa toda a cadeia de valor. Por isso parece-nos um bom compromisso, compromisso possível e um compromisso que poderá ser muito importante para manter a sustentabilidade das empresas e, porventura, ajudar na criação de mais emprego para um setor que já representa mais de quase 140 mil colaboradores no país.
E já agora, disse que já tinham assinado um contrato coletivo anteriormente, que também previa este aumento perto dos 5%. Na altura, o sindicato reagiu bem a este valor ou acaba por também ainda não satisfazer os trabalhadores? Só para termos também uma pequena noção da reação dos trabalhadores.
Naturalmente que o contrato que nós assinamos para o ano de 2022 previa esse crescimento de perto de 5% da média salarial. Previa também um aumento importante, do nosso ponto de vista, no subsídio de alimentação, que passou para €6. E prevê também que no nível de entrada, o chamado primeiro nível do valor de entrada no setor, nós comprometemos, enquanto setor, a ter um valor €5 acima do salário mínimo nacional. Portanto, com esta subida, que previsivelmente vai haver para 2023, o nosso setor ainda vai pagar €5 a mais desse valor de referência do salário mínimo nacional. Portanto, estamos em crer que o sindicato, o SITESP, que assinou conosco este contrato coletivo depois de longas negociações, é um sindicato afeto à UGT, fez realmente um bom trabalho para a defesa da valorização das carreiras no nosso setor e para a defesa dos trabalhadores que são representados por eles. Por isso, estamos em crer que com mais esta subida de salário mínimo e com o compromisso que nós fizemos para os próximos dois anos, em cada um dos anos subir €5 acima do salário mínimo de referência, parece-nos que o tempo vai dar razão a este sindicato que assinou conosco um contrato coletivo de trabalho para o ano de 2022 e com compromissos para 2022, 2023 e 2024. Parece-nos que devem estar contentes nesta altura e o tempo vai lhes dar razão.