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Padre João Basto, depois do Papa ter aprovado o decreto que reconhece estas virtudes heroicas a Antoni Gaudí, seria para perceber como é que funciona todo este processo da beatificação e se isto pode, de facto, abrir portas a que aconteça a mais pessoas que não Antoni Gaudí.

Explicando por partes. O processo é um processo longo, que tem três grandes etapas: a etapa da declaração como venerável, que aconteceu agora com o Antoni Gaudí. Depois, há o processo seguinte, que é a beatificação, quando nós temos um novo beato na Igreja, e depois há o processo de canonização, ou seja, nós já reconhecemos que esta pessoa é santa. Trata-se de um processo longo, de muita investigação histórica, um processo também muito prudente, para reconhecer que uma pessoa na sua vida viveu de maneira particular os ensinamentos de Cristo e do Evangelho. É um processo longo e, como aconteceu com Gaudí, pode acontecer com outra qualquer pessoa, também no mundo artístico. Existe o processo do Gaudí, que é muito conhecido, mas também, por exemplo, existia já há algum tempo o objectivo de colocar um compositor também muito famoso, que é Anton Bruckner, nesta senda do caminho para a canonização, porque se reconhece que ele, como músico e como cristão, foi capaz de viver o Evangelho de maneira intensa e particular. Ou seja, a santidade para os cristãos é reconhecer que, embora sejamos todos pecadores, há pessoas que, na sua condição humana, conseguem viver o mistério de Cristo, o Evangelho, o amor, a caridade, a justiça, de uma maneira que nós reconhecemos que é um exemplo para nós. E o caso do Gaudí é paradigmático. Gaudí era um arquitecto que mudou a forma como nós concebemos a arquitectura, mas também acabou por mudar a forma como nós entendemos a vida cristã, ou mostrou-nos também como é que nós podemos viver a vida cristã no meio da arte. É esse o grande exemplo que Gaudí deixa. Gaudí, na altura. Eu acho que é reconhecível que Gaudí tem uma maneira de expressar arquitectonicamente que é totalmente distinta daquilo que o precede e daquilo que o antecede. E algo que ele conseguiu fazer, e a Sagrada Família é um exemplo máximo disso, mas não só, é mostrar como a criação, a natureza, é um lugar de excelência, do amor, da diversidade, da unidade e do espanto. Gaudí é um arquitecto do espanto. Se calhar, se nós quisermos contextualizar na arquitectura e na história da teologia, da arte cristã e da arte sacra, o que Gaudí fez foi: até Gaudí, a preponderância na Igreja era o retábulo, que derivava do período barroco, do período posterior ao Concílio de Trento. Gaudí retirou uma construção que, de certa maneira, é um artifício, uma construção imobiliária, e colocou dentro da igreja a natureza. Retirou os retábulos e tornou o próprio templo uma obra da criação de Deus. Nós entramos na Sagrada Família e reconhecemos que estamos dentro de uma floresta. Não estamos dentro de um sítio, de um espaço, de uma coisa. Estamos dentro de uma floresta. No meio da cidade de Barcelona, há algo que restabelece, no meio da correria do dia a dia, e na altura os dias já eram tão velozes que o próprio Gaudí acabou por ser atropelado por um elétrico. Nós temos ali uma floresta que nos relembra o período original. E isso é muito importante. Gaudí vivia até a sua actividade de arquitecto como um pequeno monge, tinha o seu estúdio. A obra que ele fazia era fruto de muita oração e, por isso, também nesse aspecto, a sua vida quotidiana, na forma como entendia o seu trabalho, Gaudí é um exemplo para os cristãos.

E havia algum motivo em especial, não sei se existe ou não, para o Papa Francisco ter agora aprovado este decreto. Foi pura coincidência depois de ter estado internado todos estes meses, ou é algo que o padre João Basto vê como, de facto, é um legado que o Papa Francisco pretende deixar?

Nós neste momento não sabemos se realmente se trata de uma coincidência ou se é realmente o Papa que reconhece que se trata de um legado. A valorização do Antoni Gaudí, porque estamos neste período agora em que vai ser declarado venerável, esta valorização que Gaudí conseguiu ter, tem um grande expoente antes do Papa Francisco, com Bento XVI. Bento XVI, quando consagra a Basílica da Sagrada Família, o Templo Expiatório da Sagrada Família, fala de Gaudí como o arquitecto de Deus. Na altura, já existia um processo de verificação e de acompanhamento da figura de Gaudí com o objectivo de o tornar santo. E sabemos que agora esse processo chegou ao fim de uma primeira etapa, ou seja, neste momento, o que é que nós sabemos? Sendo ele declarado venerável. Sabemos que foi feita uma primeira investigação histórica da vida de Gaudí. Sabemos que houve uma consulta na Igreja de Barcelona para compreender se realmente a figura do arquitecto Antoni Gaudí tem uma dimensão de veneração. Portanto, se as pessoas reconhecem Antoni Gaudí como uma pessoa digna de oração, se reconhecem nele aquilo que a Igreja também quer reconhecer, que não se trata de algo unilateral da Igreja. Há aqui uma consulta também ao povo de Deus. E o que sabemos é que existe neste momento a tentativa de o processo continuar, a intenção de o processo continuar para que Gaudí possa ser mais tarde declarado beato e posteriormente santo