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E para analisar o resultado desta primeira volta das eleições brasileiras, junta-se a nós neste jornal das 20h, o politólogo José Filipe Pinto, professor na Universidade Lusófona e especialista em movimentos extremistas. Muito bom dia, professor José Filipe Pinto e bem-vindo. Com estes resultados e com o tom que ouvimos ontem, é de esperar uma campanha para a segunda volta mais extremada ainda?
Muito bom dia, obrigado pelo convite. E Carla, claro que vai ser ainda mais extremada. Esta foi uma eleição a que concorriam 11 candidatos, mas verdadeiramente só dois é que contavam e outros dois eram para sinalizarem uma possível segunda volta, uma intenção de voto. Eu começaria por saudar, primeiro que tudo, a forma ordeira como o ato decorreu, porque em democracia o povo é soberano e os brasileiros puderam votar livremente. Ao contrário da campanha, que correu de uma forma que não é compatível com a democracia, o ato eleitoral decorreu dentro da normalidade. Depois, há um elemento fulcral também que deve ser analisado. As sondagens fracassaram rotundamente. Eu já tenho uma primeira interpretação. Penso que as sondagens, mais do que não terem estratificado bem a amostra, provavelmente não tiveram em conta o voto camuflado, o voto envergonhado. Aquele voto que decorre do medo, como a campanha estava a correr, de se pronunciar mesmo salvaguardado pelo telefonema. Eu penso que houve muita gente que enganou a sondagem. Significou o quê? Que já tinha a intenção de votar, por exemplo, em Bolsonaro, mas que tinha medo de assumir publicamente, ainda que por telefone, esse voto. E agora, é evidente, vamos ter uma segunda volta. E repare, no Brasil, até o passado é incerto, quanto mais o futuro. E Lula disse que nem o acaso é por acaso. Pois claro que não. Aqui não há acaso nenhum. Lula percebe muito bem que o que está aqui é que os dois candidatos são os dois populistas de populismos diferentes. O populismo de Lula é um populismo socioeconômico, o populismo de Bolsonaro é um populismo cultural ou identitário, e o populismo gera sempre uma elevada taxa de rejeição. Quer dizer que nós temos aqui um petismo e um antipetismo, um bolsonarismo e um antibolsonarismo. E por isso mesmo, o que vamos encontrar na segunda volta é precisamente um extremar ainda maior dessas posições e uma vitimização. Bolsonaro vai deixar, provavelmente, de apostar naquela política de denunciar que as urnas não são seguras, mas já explicou que a primeira vitória dele foi vencer as sondagens, precisamente porque venceu a mentira. É esse o tipo de discurso que vamos ter. Eu chamaria ainda a atenção para um estado que é fulcral e provavelmente os nossos ouvintes não saberão por quê. Minas Gerais é o estado que decide tudo, porque quem ganha em Minas Gerais, ganha a eleição no Brasil. E por que isso acontece? É que Minas Gerais é um microcosmos, é o estado do Brasil que reflete melhor a diversidade do Brasil. Tem uma zona muito rica, tem uma zona muito pobre e tem uma zona da classe média. Em Minas Gerais, Lula ganhou, mas não ganhou com a percentagem, com a diferença que se esperava. É aqui, neste tecido social, que vai investir muito Jair Bolsonaro, que é um presidente impreparado, sem dúvida nenhuma, mas que conta com um elemento fundamental e que se prende com a corrupção que ainda está colada à imagem do Lula da Silva e do PT.