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Jornal das 10, com edição da Carla Jorge Carvalho. Bom dia, Carla. Começamos com essas buscas a vários membros do Exército Português suspeitos de traficarem diamantes, ouro e droga.

Crimes que terão acontecido durante missões da ONU que os militares estavam a desenvolver na República Centro-Africana. A TVI avançou que há, pelo menos, 10 detidos na sequência desta investigação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção, que está a ser acompanhada pelo juiz Carlos Alexandre. A RTP adianta que há ainda, pelo menos, mais dois mandatos de detenção em curso. A Rádio Observador está a acompanhar isto numa altura em que o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, está em Coimbra a falar aos jornalistas. Vamos tentar acompanhar à boleia das televisões.

Muito obrigado. São as primeiras declarações.

Augusto Santos Silva, sem se debruçar muito sobre o que está a acontecer nesta altura com esta operação da Judiciária, que ainda decorre. Vamos daqui a pouco olhar com mais rigor para o que disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros. Para já, vamos em direto até ao Regimento de Comandos da Carregueira, em Sintra. É lá que está a Filipa Ribeiro. Filipa, esta é uma operação de grande envergadura.

É mesmo a maior operação do ano levada a cabo pela Polícia Judiciária. No total, estão envolvidos mais de 200 inspetores para fazer cerca de uma centena de buscas na Grande Lisboa, no Porto, em Bragança e também em Vila Real. Algumas dessas buscas decorrem aqui onde estou, no Regimento de Comandos da Carregueira. Em cima da mesa está a possibilidade destes comandos e antigos comandos do Exército usarem uma posição privilegiada que tinham nessas missões da ONU. Os militares usavam a capacidade de carga dos aviões da Força Aérea para transportarem diamantes, ouro e droga para a Europa, beneficiando do fato de a carga não ser fiscalizada. O negócio assenta, sobretudo, no lucro com os chamados diamantes de sangue, que são retirados da República Centro-Africana, que está em constante conflito armado, onde também se luta pelo controle dessas minas. Depois, a partir de Portugal, o ouro e a droga seriam transportados por via terrestre para Antuérpia, Bruxelas e até mesmo para a Bélgica, onde depois seriam vendidos por valores milionários. E é aqui que surge um segundo crime que estará em causa, o branqueamento de capitais, porque o material era vendido através da compra de bitcoins, a moeda virtual. De acordo com o que está a ser avançado, estes militares envolvidos neste processo de venda chegavam a receber 50% do valor. Esta é uma operação que já teve início em 2020. Recordo que Portugal tem feito parte de vários contingentes da ONU em operações de paz na República Centro-Africana e terá sido exatamente nesse contexto que estes crimes de tráfico tiveram lugar. Aqui nos Comandos da Carregueira, em Sintra, para já, a manhã tem sido calma, apenas algumas movimentações à porta. É de notar que têm entrado algumas pessoas durante a manhã, mas ainda não há qualquer indicação de que tenham sido detidas pessoas aqui neste regimento. O Observador também já tentou contactar a Polícia Judiciária, que nos remete informações para mais tarde.

Filipa Ribeiro, em direto do Regimento de Comandos da Carregueira, em Sintra, um dos pontos das cerca de uma centena de buscas que a Polícia Judiciária tem em curso ainda neste momento de norte a sul do país, com a indicação já de vários detidos. Junta-se agora a nós o presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, António Nunes. Muito bom dia, António Nunes. Obrigada por estar conosco.

Bom dia.

Bom dia. Não é nada comum assistirmos a buscas nos vários ramos das Forças Armadas e com o nível de elaboração que aparentemente está aqui em causa. Do que estamos a falar? O que pode estar, de fato, aqui em causa nestas investigações?

A descrição está bem feita. Trata-se de, eventualmente, alguns militares que prestaram serviço na República Centro-Africana, que abusivamente utilizaram as suas funções para poder cometer crimes. Há que distinguir e sublinhar que não podemos confundir o Regimento de Comandos, os Comandos, o Exército Português, que tão boas provas tem dado internacionalmente e que tem prestigiado a nação portuguesa, com alguns elementos que, de uma forma, eventualmente, porque também ainda não sabemos até onde é que vai a profundidade desta investigação, terão cometido crimes que mancham significativamente a nossa imagem, mas não podem, em momento algum, pôr em causa a confiança que nós temos que ter nas nossas Forças Armadas e naquilo que é o reflexo do trabalho das nossas Forças Armadas nos vários teatros de operações, onde permitiram salvar centenas ou milhares de vidas de cidadãos que estavam oprimidos.

Mas uma situação destas abala necessariamente a instituição.

Naturalmente que abala a instituição, mas nós temos que ter também sempre este pensamento. Não estamos a falar, pelo menos até ao momento, de que seja uma situação provavelmente muito alargada. Trata-se de um conjunto de elementos que, aproveitando uma oportunidade, o fizeram. E naturalmente que nós já assistimos a escritos e até alguns livros de outros teatros de operações, como no Vietname e em outras áreas do globo, que estes momentos onde há a possibilidade de transportes que são menos vigiados pelas autoridades competentes, designadamente as polícias de fronteira e as alfândegas, que à meia volta existem estes crimes. Portanto, o que nós temos que aqui tomar em atenção, e Portugal aqui falha um bocadinho, deva-se reconhecer, é que nós somos muito pouco preventivos, somos muito bons reativamente e não tenho dúvida nenhuma de que quer a Polícia Judiciária Militar, quer a Polícia Judiciária Civil vai fazer uma investigação aprofundada e vai encontrar todos aqueles que de um momento para o outro decidiram cometer crimes, eu não tenho nenhuma dúvida sobre isso, e a justiça vai atuar sobre eles. O problema que nós continuamos a assistir em Portugal é a área da prevenção, porque tudo isto se passa no momento em que nós devemos tomar em consideração que, por natureza, se há medidas de prevenção para o transporte de mercadorias, quer civis de um lado para o outro, também no transporte militar se deve verificar, pelo menos por amostragem. E muitas das vezes nós confiamos demasiado nas pessoas.

E portanto, António Nunes, quando fala em medidas de prevenção nas Forças Armadas, fala concretamente de quê? Dessas observações aleatórias relativamente às cargas?

Falo sobre isso, que nós não podemos em momento algum ter uma situação de que haja qualquer pessoa, qualquer cidadão português esteja acima daquilo que é o cumprimento dos deveres e, portanto, deve aqui ou além ser observado sobre o seu comportamento para não termos surpresas como estas que estamos a ter, como falo noutra situação. É que cada vez mais a demografia de Portugal e de alguns países condiciona o número de disponíveis para integrar as fileiras, quer das Forças Armadas, quer das forças e serviços de segurança. E quando nós temos uma diminuição significativa no número de candidatos, passamos a ter uma probabilidade de incorporar pessoas que têm menos escrúpulos e isso pode provocar situações, no futuro, negativas. A demografia não é só um problema de economia, é também um problema social e um problema de segurança.