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É uma marca fortíssima. O Carlos Avilez deixa um lastro muito potente no teatro português, não só como encenador e como criador de uma companhia tão importante como o Teatro Experimental de Cascais, mas também estando à frente do Teatro Nacional D. Maria II, que eu agora dirijo. O Carlos era um encenador de uma modernidade muito relevante, um grande defensor dos textos de dramaturgia portuguesa, mas também muitas vezes revisitando alguns clássicos da dramaturgia nacional. Eu relembraria uma produção do Teatro Nacional D. Maria II, curiosamente, "Ricardo II", de Shakespeare, com uns telões incríveis da Graça Morais, que neste momento estamos a mostrá-los na nossa exposição que está a percorrer o país, mas que dá um sinal muito claro dessa capacidade do Carlos de combinar várias estéticas muitas vezes, mas sempre na criação de um teatro muito rigoroso e muito apoiado nos atores. O Carlos amava profundamente essa relação com os atores e esse lastro prolonga-se pelas várias gerações que foram tendo contacto com o Carlos. Relembro também que o Carlos fundou a Escola de Teatro de Cascais e que continua a dar ao teatro português figuras importantíssimas, atores importantíssimos. E por isso tudo, esse lastro continuará durante muitos e muitos anos.

Conheceu pessoalmente, privou pessoalmente com o Carlos Avilez?

Não tanto como teria gostado. O Carlos foi sempre muito simpático e muito aberto a falarmos sobre esta minha nova experiência à frente do Teatro Nacional D. Maria II. Deu-me imensa força para este ciclo da minha vida profissional e alguns conselhos. Mas sim, fica algum amargo de boca de, por exemplo, não poder ter mostrado no Teatro Nacional uma nova encenação do Carlos. Mas gostaria também de dizer que estreou, agora muito recentemente, aquela que é infelizmente a última encenação do Carlos Avilez, a "Electra", no Teatro Experimental de Cascais, e por isso convidaria o público a correr em massa para ver esta última obra do Mestre Avilez.

Alguma história em particular que recorde de Carlos Avilez?

Eu acho, sobretudo quando eu era um jovem ator, havia muito esse desejo de estagiar no Teatro Nacional e eu acabei por fazê-lo como ator, assim que saí da Escola Superior de Teatro e Cinema, mas infelizmente o Carlos já não era diretor do teatro nessa altura. Mas lembro-me de que havia essa excitação da parte dos atores de quererem trabalhar com o Carlos, de quererem entrar nas produções do Carlos. E eu estive numa produção que esteve ao mesmo tempo que uma encenação do "Frei Luís de Sousa", do Almeida Garrett. Eu estava num outro espetáculo, mas de qualquer forma, tinha esse contacto diário com os ensinamentos e com a obra do Carlos Avilez e isso foi muito determinante para a minha carreira.

Vai ficar uma marca para o futuro do teatro português?

Sim, sem dúvida. À frente do Teatro Nacional é um período de grande atividade do Teatro Nacional D. Maria II, ainda com o elenco fixo. O Carlos fez um uso exemplar dessa possibilidade de ter um grande elenco no Teatro Dona Maria, que entretanto agora já não existe, mas que deixa essa marca, ao mesmo tempo de modernidade, mas de grande respeito pela tradição teatral. E acho que esse legado é duradouro.