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Junta-se agora a nós Ana Gomes, socialista, foi candidata presidencial em janeiro deste ano, foi também eurodeputada pelo PS. Muito boa tarde, Ana Gomes.
Olá, boa tarde.
Como é que olha para estas declarações de António Costa que, por um lado, descreve 2021 como ano de fim da geringonça, mas por outro, também acaba por bipolarizar aquilo que pode ser a escolha dos eleitores para as próximas eleições?
Eu acho que António Costa tem razão quando diz que a maior parte dos portugueses se determinará em função do PS e do PSD. Eu até diria mais, dos líderes do PS e do PSD, mas têm outras escolhas e naturalmente poderá haver também quem olhe para os programas e para o papel dos diferentes partidos, porque obviamente é improvável que quer PS, quer PSD tenham maioria absoluta e portanto terão sempre que compor com outras formações, e daí que a sua importância seja evidente. Das outras formações, o seu peso relativo será significativo. Quanto à geringonça ter acabado em 2021, é uma narrativa que António Costa alimenta, mas que não tem adesão à realidade, visto que foi em 2019 que efetivamente a geringonça acabou, por decisão de António Costa e do PS, que o respaldou nessa posição, de não querer entrar em nenhum entendimento com o partido que estava disponível para isso, claramente o Bloco de Esquerda. É verdade que o PC já não estaria, ou pelo menos nos termos anteriores, com o papel passado, mas nada impediria que o PS tivesse continuado a conversar com o PC. E foi Jerónimo de Sousa que, aliás, até em resposta a uma primeira versão dessa tese de António Costa, depois explicou que o telefone nunca mais tocou. E no que toca ao Bloco, foi o PS que rejeitou qualquer entendimento com o Bloco, estando o Bloco até disponível para fazer um acordo para a governação. Portanto, a geringonça de fato acabou em 2019. E nestes últimos dois anos, o que nós temos visto é até muito mais coincidência nas votações parlamentares do PS com o PSD do que com qualquer outro partido, sugerindo que no fundo, o bloco central informal já vem funcionando.
Diz António Costa, disse nessa declaração: "Em 2019 a geringonça foi assim assim, em 2020 ainda mais assim assim, em 2021 manifestamente não existiu". Mas olhando ainda para essa declaração, António Costa não está aqui a cometer novamente um erro por estar a travar à partida as pontes à esquerda e por estar a travar, na verdade, pontes, porque há três meses fez o mesmo com o PSD quanto ao orçamento e abriu espaço a esta crise política.
Sim, eu acho que não foi inteligente ter recusado qualquer entendimento com o PSD, sendo que eu sempre defendi que era preferencialmente à esquerda que o PS devia ter um acordo de governação. Mas isso não descartaria possíveis entendimentos com o PSD em questões que exigissem o consenso mais alargado possível, como seriam reformas de fundo, por exemplo, na fiscalidade, na justiça, etc, que o PS tivesse entendido empreender. Não foi o caso. Não foi, portanto, inteligente que cortasse desse entendimento com o PSD, como não foi inteligente, do meu ponto de vista, e não serviu o país, também eximir-se a um entendimento de governação com o Bloco de Esquerda, que criasse as condições para uma governação estável, fizesse reformas de fundo e que não desse o resultado que tivemos neste orçamento de Estado, onde também se podia ter negociado mais para não precipitar as eleições, e onde as questões que os parceiros à esquerda do PS levaram à discussão do orçamento eram questões que podiam e deviam ter sido discutidas fora do orçamento, se tivesse o PS de António Costa disponível para conversar sobre essas matérias com o PC e com o Bloco. E estou a me referir, obviamente, à regulamentação laboral, às questões que no fundo estiveram na origem dos votos negativos desses dois partidos de esquerda ao orçamento apresentado pelo PS. Aliás, o simples fato de o PS ser quem fez o orçamento, do meu ponto de vista, obrigava-o a tomar a iniciativa de falar com os outros partidos.
Sem travar pontes à partida.
Exatamente.
Estamos de fato a 40 dias dessas eleições legislativas. Temos esta posição por parte de António Costa, de referir que a geringonça morreu, que a escolha é entre o PS e o PSD, mas temos também um Partido Socialista, hoje na voz do Eduardo Cordeiro, a não querer responder se, no caso da vitória pender para o lado do PSD, se o PS viabiliza esse governo. Temos neste momento dificuldade em esclarecer os eleitores daquilo que pode ser o cenário pós-eleitoral?
Eu compreendo a posição de Eduardo Cordeiro, pois se António Costa já disse que se perdesse abandonaria a direção do partido e abandonaria a vida política em Portugal, ele não pode estar a comprometer o PS para a possibilidade de A direita ter uma maioria e poder formar governo. Portanto, eu compreendo perfeitamente que Duarte Cordeiro não possa comprometer António Costa, como o próprio António Costa não se pode comprometer nessa matéria.
Claro.
Visto que não tendo capacidade de formar governo o PS, o próprio líder do PS já disse que abandonaria.
Sim. Mas perante o crescimento de outros partidos, pelo menos de acordo com as sondagens que vão sendo divulgadas, com essa dispersão de votos que tem sido espelhada nas sondagens, o que temos neste momento acerca desses 40 dias é o cenário de um governo de bloco central ser a solução mais provável nesta altura?
Não sei. Eu não defendo, pelo contrário, acho que essa solução seria extremamente nociva para o país e nociva para os dois partidos, porque eu acho que o que serve a democracia e serve o país é haver alternância. E é evidente que a alternância se faz em torno do PS e do PSD. E, portanto, eu não apoio uma solução de bloco central informal ou formal. Espero que o PS tenha votos suficientes para governar e espero que procure o entendimento à esquerda.
E há espaço para isso depois desta crise política?
Claro, a questão não é haver espaço, é haver vontade política da parte da direção do partido. Ora bem, tudo vai depender exatamente dos resultados. Se o PS ganha, e ganha reforçando significativamente em relação aos resultados que teve em 2019, ou se ganha por poucochinho, e aí a tentação será de procurar o bloco central. Eu acho que o bloco central, como digo, é um desastre para o país. E há outras hipóteses. As sondagens mostram que há outras hipóteses, que é efetivamente o PSD ter também uma votação que lhe permita aspirar a governar e a fazer uma coligação.