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Começamos com a razia que se está a sentir nos mercados e não é só por causa do surto. As bolsas europeias abriram em queda livre a acusar o nervosismo dos investidores com a guerra de preços no petróleo que foi lançada pela Arábia Saudita, além dos receios à volta do coronavírus que já têm marcado os mercados nas últimas semanas. A Arábia Saudita anunciou uma descida do preço do petróleo em 20% para o valor mais baixo desde 2016. Este anúncio já provocou a maior queda nos preços do petróleo em três décadas desde a Guerra do Golfo, com o barril a negociar nos 30 dólares. Estas mexidas surgem depois do falhanço nas negociações para convencer a Rússia a juntar-se aos cortes de produção programados pela OPEP. Em direto nesta edição junta-se o analista de mercados Ricardo Evangelista. Ricardo, bom dia. Como é que os mercados estão a reagir a esta guerra de preços, os mercados europeus?
Bom dia. Os mercados estão a reagir mal, estão a reagir com um certo pânico. Temos, por exemplo, o DAX que no seu contrato futuro desde a abertura de mercado hoje já perdeu mais de 8%. E se formos a comparar com o fecho de preço na sexta-feira no mercado de futuros, a perca é ainda muito maior, é de cerca de 17%. Portanto, os investidores estão a sentir um certo pânico. É verdade que este pânico está a ser intensificado pelo que se passou no mercado dos produtos energéticos, do petróleo, mais concretamente por causa disso que disseram da situação entre a Arábia Saudita e a Rússia, mas eu penso que é sobretudo devido à deterioração do sentimento de mercado que advém do problema em Itália. Em Itália há agora uma quarentena em que um quarto da população do país está basicamente impedida de sair da sua região. Isto pode ser um sinal do que está para vir em outros países europeus e o impacto que estas medidas draconianas para restringir a circulação de pessoas e minimizar a disseminação do vírus vão ter no crescimento da economia global são muito difíceis de contabilizar. E face à incerteza, muitos investidores estão agora a alienar posições nos mercados de ações e penso que esta tendência se deverá manter pelo menos até que tenhamos mais alguma claridade sobre quanto tempo vai durar esta epidemia e qual vai ser a sua intensidade.
O Ricardo Evangelista usou duas vezes a palavra pânico. É isso que descreve melhor o que se está a passar hoje numa sala de mercados?
Sim, é um dia muito difícil nas salas de mercados, aqui para nós também. O mercado está-se a comportar de forma errática. Os produtos, ou melhor, os ativos não se comportam de acordo com as forças subjacentes que normalmente determinam a sua performance. Estão se a comportar de acordo com um certo sentimento de ansiedade e de angústia e que poderemos até, no limite, descrever como pânico.
Isso quer dizer, Ricardo Evangelista, que estamos a olhar para uma recessão em breve?
É muito provável que sim. A recessão tecnicamente são dois trimestres de crescimento negativo. É praticamente certo que a nível global o crescimento da economia já neste trimestre será negativo, afetado sobretudo pela quebra de produção e consumo na China, mas que agora se está a propagar um pouco por todo o planeta. A menos que haja uma resolução muito rápida desta situação, o que não parece ser o caso por agora, então deveremos ter um cenário semelhante no segundo trimestre, o que então colocará a economia global numa recessão técnica e penso que se não todos, pelo menos a maioria dos países europeus também virão a sofrer isso.
Os próximos dias podem ser decisivos ou mesmo assim pode haver uma correção agora nas próximas horas?
Repare, pode haver uma correção, a correção será sobretudo, se ela acontecer, resultado de medidas de estímulo que irão ser tomadas. Vimos que a Fed cortou taxas de juro em 0,5% na semana passada, a primeira vez que o fez fora de uma reunião desde o pico da crise financeira de 2008. É de esperar agora que outros bancos centrais e mesmo governos também adotem medidas de estímulo e medidas de encorajamento para os mercados. Mas vamos ver o que vai acontecer. Penso que dentro do BCE há pouco espaço de manobra nesse sentido, será mais a nível político que esse estímulo poderá ser eficaz. Se tivermos, por exemplo, uma concertação entre vários países para um estímulo fiscal. Mas vamos ver o que acontece nos próximos dias, mas será de esperar algo dos políticos e dos bancos centrais.
Aguardemos então por essas reações. Ricardo Evangelista, muito obrigada por ter estado em direto conosco na Rádio Observador. O analista de mercado está em Londres e está a ajudar-nos a perceber a dimensão destas perdas nos mercados financeiros.