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Este é o Tratado da Saúde com o doutor João Marques Santos, médico de família da CUF. Olá, doutor. Bom dia, bem-vindo.
Olá, bom dia.
Vamos falar de algo que acontece a quase todos nós quando saímos do consultório e vamos à farmácia: a questão dos medicamentos genéricos. Doutor João, pergunto-lhe diretamente: se me receitarem o genérico, em vez do medicamento de marca, posso confiar? É seguro?
Sim, Mari João, é perfeitamente seguro. Os medicamentos genéricos passam por muitos testes de qualidade e são muito rigorosos antes de chegarem ao mercado e contêm exatamente o mesmo princípio ativo, ou seja, a substância que vai tratar a doença, na mesma dose e com a mesma forma de administração que o medicamento na marca original.
Mas há aquela ideia de que o genérico, como é mais barato, logo deve ser pior ou ter menos qualidade. Isto tem algum fundamento?
Isto é um mito. Os genéricos são mais baratos apenas porque a empresa que o fabrica já não vai ter os custos de investigação e desenvolvimento inicial que a marca original teve nos anos anteriores. Portanto, para ser aprovado, o genérico tem que provar a chamada bioequivalência.
Bioequivalência.
Sim, isto significa demonstrar que vai libertar no nosso organismo a mesma quantidade de princípio ativo no mesmo tempo que o medicamento de marca. Ou seja, há grandes estudos que acompanham centenas de milhares de doentes com hipertensão ou com colesterol elevado, por exemplo, e vão mostrar que a eficácia na redução de eventos graves e de efeitos secundários são exatamente os mesmos.
Mas doutor João, de certeza que já ouviu doentes no seu consultório dizer: "Doutor, este genérico não me faz o mesmo efeito" ou "Com este fiquei com dor de cabeça". O que explica isto?
Ouve-se isto com alguma frequência e há duas razões principais. Primeiro, porque há uma mudança de aspeto. Às vezes troca-se de genérico, a cor da caixa muda, o comprimido passa a ser redondo em vez de ser oval, o blister é diferente, isto vai criar muita confusão. Isto às vezes faz com que o doente falhe algumas doses, vai tomar os medicamentos a horas erradas e, entretanto, desorienta-se com as caixas e esta falta de adesão vai fazer com que o medicamento não seja efetivamente eficaz e, portanto, a pessoa percebe que o medicamento não é igual, entre aspas. A segunda razão é perceção. Se acharmos que algo mais barato não vai funcionar tão bem só porque é mais barato, o nosso cérebro também nos vai pregar aqui algumas partidas.
E não há exceção nenhuma? Há algum caso em que seja preciso ter mais cuidado ao trocar a marca pelo genérico?
Sim, há efetivamente exceções pontuais. Existem medicamentos que chamamos de margem terapêutica muito estreita. São fármacos em que pequenas variações na biodisponibilidade, que falei há pouco, podem fazer diferença, como é o caso de alguns anticoagulantes ou medicamentos para epilepsia ou para a tireoide, por exemplo. E nestes casos específicos, há estudos que nos mostram que a média é equivalente, mas que cada pessoa pode reagir de uma forma diferente. Portanto, nestas situações, se mudarmos de marca para genérico, ou mesmo entre marcas ou entre genéricos, vamos ter que ter uma monitorização muito mais próxima durante as primeiras semanas ou meses, com análises regulares de sangue, por exemplo, para perceber se efetivamente esta troca foi significativa ou não. Aqui a solução vai passar por manter sempre a mesma marca do medicamento ou o mesmo genérico.
Ok. Mas para a grande maioria dos medicamentos do dia a dia, para a tensão, colesterol, dores ou antibióticos, a troca é 100% tranquila.
É 100% tranquila se tivermos a certeza que não há enganos. Portanto, o fundamental é não interromper a medicação e tomá-la de forma correta. Se no balcão da farmácia prescreverem o genérico e se houver alguma dúvida, conversar logo com o próprio farmacêutico e eventualmente com o médico de família. E é importante tomar o medicamento certo, todos os dias, independentemente da caixa ser de marca ou genérica, e por vezes mais vale apostar sempre no mesmo do que estar a apostar numa marca ou num genérico específico, porque efetivamente sabemos que é aquele.
Portanto, a consistência aqui é a chave, não?
Tal e qual.
Doutor João, obrigada. Até amanhã.
Obrigado. Até amanhã.