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Em estúdio, junta-se a nós em direto neste jornal das 10, Francisco Mário Castro, coordenador do movimento Unidos contra o Desperdício. Bem-vindo, Francisco, obrigado por ter aceitado o nosso convite.
Muito bom dia. Obrigado.
Começamos talvez pelos números. Sei que o foco da campanha deste ano é mais o impacto ambiental, mas sugeria começarmos pelos números. O INE diz que cada português desperdiça em média 184 quilos de alimentos por ano. 184. Este número tem vindo a aumentar com o passar dos anos?
Antes de mais, bom dia, obrigado por me receberem aqui.
Obrigado nós.
É uma estreia, é fantástico ver finalmente esta tão famosa imagem do Rádio Observador que vejo com tão boas entrevistas.
É sempre bem-vindo.
Sim, esse estudo feito pelo INE foi feito já há uns anos. Não há em Portugal ainda uma capacidade muito efetiva de fazer a contabilização destes números e portanto temos que nos ir agarrando a estes estudos, que são feitos obviamente com base em amostragens. Mas efetivamente, esse estudo feito pelo Instituto Nacional de Estatística é bastante fidedigno e bastante assustador. Dito isto, até ao próximo estudo e à próxima amostragem, é sempre difícil perceber a evolução, se reduziu, se aumentou, mas o que é facto é que agarrando-nos a esses números, que são relativamente recentes, tem dois ou três anos esse estudo, é realmente avassalador pensar que cada um de nós, em média, deita 184 pacotes de arroz para o lixo todos os anos. Pensando no pacote de arroz de 1 kg, é isto. O movimento nasceu em 2020, que foi, aliás, o primeiro ano em que as Nações Unidas designaram este dia 29 de setembro. Eu costumo resumir, porque o dia oficial é o Dia Internacional de Conscientização sobre Perdas e Desperdício Alimentar. Não acho isto nada fácil e, portanto, resumo que é o Dia Mundial de Combate ao Desperdício Alimentar.
Francisco, numa altura em que temos muita informação, temos até, de certa forma, uma cultura que demoniza o desperdício. Sempre ouvimos as nossas mães dizer para não desperdiçarmos a comida. Temos agora aplicações que nos permitem até recolher em alguns cafés, restaurantes, comida que sobra, alimentos que sobram. Como é que se explicam números tão elevados?
Sim, eu acho que efetivamente há uma preocupação da sociedade, cada vez maior, nestes temas de sustentabilidade, onde está também o tema do desperdício alimentar. Eu acho é que, esse é que é o ponto, há uma preocupação muito grande em dezenas de temas ligados à sustentabilidade e ao futuro do planeta, e eu acho que às vezes o desperdício alimentar é deixado um bocadinho de lado. E nós, no nosso dia a dia, temos realmente muitas atitudes que não são refletidas, são completamente inconscientes, automáticas, e que acabam a gerar muitos resíduos e muito desperdício. Ao mesmo tempo, por outro lado, temos uma sociedade de consumo, não podemos deixar de viver isso. Independentemente das apps e de tudo aquilo que exista hoje, que é muito positivo, vivemos numa sociedade em que o consumo é sempre incentivado. Portanto, nós temos que pôr o dedo aqui e remeter para esta ideia de que temos que ser cada vez mais conscientes, cada vez mais responsáveis, nesse momento também do consumo.
Então pergunto para os nossos ouvintes da Rádio Observador, para os portugueses que estão a ouvir, que dicas é que deixa para haver uma diminuição do desperdício alimentar?
Nós vamos lançar esta semana e depois partilharemos convosco também uma música refeita a partir da célebre música do António Variações.
Qual delas?
Exato, qual delas. O quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga. Aqui, neste caso, é quando consumimos mais do que é preciso, o planeta é que paga. E efetivamente, são coisas muito básicas do nosso dia a dia. Nós irmos às compras com uma lista e com esse planeamento é, logo à partida, um ponto para reduzir o desperdício. Não irmos com fome. Quantas vezes, e se calhar nós os três aqui já o fizemos e todos os ouvintes da rádio já o fizeram, vamos com fome ao supermercado, compramos muito mais do que aquilo que precisamos. E portanto, são coisas realmente muito simples, mas que têm que partir de um ponto que é conhecermos o problema. E este eu acho que é o ponto mais importante e que estamos aqui hoje também, que é assinalar mais uma vez esta data e falar deste problema e desta dimensão, que as pessoas não têm noção. E quanto mais eu acredito que as pessoas passem a ganhar essa noção, passam também intrinsecamente a ter pequenos comportamentos no seu dia a dia, que têm um impacto gigante nesta redução do desperdício.
Francisco Mário Castro, para terminarmos a nossa conversa, o tema da campanha deste ano é o impacto ambiental do desperdício alimentar.
Isso.
E estamos aqui a falar também de 10% dos gases de efeitos de estufa que são produzidos pela comida em decomposição, pelo desperdício alimentar. Os portugueses têm noção também de que o desperdício alimentar tem este impacto no meio ambiente?
Eu diria que não. A começar por mim, há uns anos, quando comecei a envolver-me mais com este projeto, não tinha realmente noção de que 10% é muito. Só para compararmos, por exemplo, toda a aviação comercial, os aviões que sobrevoam os nossos ares, representa 2% dessas emissões de gases com efeitos de estufa.
Portanto, é ainda superior a isso.
Portanto, é cinco vezes menor do que o desperdício alimentar. O desperdício alimentar é responsável por consumir 25%, um quarto, da água doce do mundo. São números muito grandes, muito pesados. Temos realmente que ter alguma preocupação com isto e daí esta música do António Variações que vai sair em breve, com um remake, obviamente, e cantada pelo FF e pela Inês Herédia, que tem esta letra completamente repensada. A família do António Variações aceitou dar os direitos para podermos usá-la e esta melodia fantástica que toda a gente conhece, mas que aqui é quando consumimos mais do que é preciso, o planeta é que paga.