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200 cientistas assinaram uma carta aberta para alertar a Organização Mundial de Saúde para reconsiderar a transmissão da Covid-19 por aerossóis. A OMS já admitiu esta forma de transmissão, que abre novas preocupações. Entre o lote de cientistas estão três portugueses. Um deles é o professor catedrático Manuel Gameiro da Silva, da Universidade de Coimbra. Professor, muito bom dia.

Olá, muito bom dia.

Bom dia, obrigada por se juntar à emissão da Rádio Observador. Começo por lhe perguntar quais são os riscos no dia a dia com esta transmissão do vírus por aerossóis?

A principal consequência é que aquele conceito que nós tínhamos de que havia uma distância de segurança, que tipicamente dizíamos que seria entre um metro e meio e dois metros, essa distância de segurança deixa de existir, porque quando as partículas de menor dimensão, que nós exalamos, ficam em suspensão no ar. Porque nós exalamos partículas que podemos classificar em três classes, que são aquelas que têm dimensão tipicamente até cerca de 10 mícrons e que, por exemplo, quando nós no inverno exalamos e vemos aquilo a que chamamos o nosso bafo, aquela pequena nuvem que conseguimos ver durante algum tempo é constituída pelos aerossóis. E essa nuvem desaparece porque essas pequenas partículas perdem a fase líquida, a fase líquida evapora, e depois só o núcleo da partícula, imaginemos se a partícula estiver carregada com vírus ou com bactérias, é que fica em suspensão. E para estas partículas de menor dimensão, o balanço de forças entre o peso da partícula e as forças de arrastamento de natureza aerodinâmica é favorável às forças aerodinâmicas, o que faz com que essas partículas fiquem a seguir a trajetória das correntes de ar do espaço onde nós estamos.

Professor Manuel Gameiro, ajude-me a perceber, e a quem nos está a ouvir nesta altura. Em relação a este vírus, o Covid-19, este risco de infecção é maior por Covid-19 através dos aerossóis? Em relação a vírus anteriores, este vírus é diferente nessa transmissão?

Os dados que nós já sabemos é que aquilo que diferencia claramente este vírus relativamente, por exemplo, ao SARS-1 ou aos vírus anteriores, é a sua capacidade de multiplicação no interior do corpo dos infectados. Há uns dados publicados na Alemanha pelo laboratório de microbiologia de Bundeswehr, perto de Munique, que dizem que o vírus se multiplica cerca de mil vezes mais do que o SARS-1. Qual é que é o resultado disto? É que os aerossóis passam a vir com uma carga viral muito mais elevada e há muito maior probabilidade de exceder o chamado limite de infecciosidade. Portanto, uma pessoa é infectada, no fundo, pela dose a que está sujeita. E a dose a que está sujeita é o produto da concentração pelo tempo de exposição. De maneira que se a concentração for muito mais elevada, mesmo num tempo mais curto, pode chegar para que a pessoa fique infectada.

Nesta altura, ficamos a saber, as evidências são estas, de que se transmite pelo ar o vírus, é isso que defendem. A Organização Mundial de Saúde tardou a reagir a esta possibilidade ou a admitir essa possibilidade da transmissão do vírus pelo ar, da forma como vocês a defendem?

Eu acho que sim. Para mim, foi uma relativa surpresa, porque eu fiquei muito surpreendido quando, em meados de março, na sequência de um trabalho publicado por cientistas americanos da área da saúde, que fizeram estudos sobre a prevalência do vírus nas superfícies, nos aerossóis, etc. E compararam com o SARS-1, e a conclusão a que chegou é que a prevalência era basicamente da mesma ordem de grandeza. E na sequência disso, em que um dos dados mais relevantes era que nos aerossóis o vírus podia permanecer durante cerca de três horas. Houve uma conferência de imprensa de uma diretora da Organização Mundial de Saúde, Maria Van Kerkhove, em que ela dizia que, tendo em conta que o vírus podia estar por três horas nos aerossóis, nas unidades de prestação de cuidados de saúde, as pessoas tinham que ter particular cuidado, deviam usar máscaras, porque, por exemplo, se tivessem a entubar alguém e se formassem aerossóis, podiam ser contaminados. O que está aqui subjacente? É que para as cúpulas da Organização Mundial de Saúde, não se considerava que na respiração das pessoas se formam aerossóis. Portanto, metade das partículas que nós exalamos, são partículas com capacidade para aerosolizar todas aquelas que estão abaixo de 10 mícrons.

Ajude-me a entender também. O uso da máscara é obrigatório nesta situação e o distanciamento sugerido nesta altura é suficiente? Os dois metros, mais centímetros, menos centímetros, como costuma dizer.

Repare, nós temos três modos de transmissão que estão associados a três dimensões típicas de partículas: abaixo de 10 mícrons, entre 10 e 50 e acima de 50. Abaixo de 10 mícrons são os aerossóis. Entre 10 e 50 é o chamado modo de transmissão por gotículas, que são partículas que fazem trajetórias, diríamos, quase que na horizontal, e é possível que uma partícula que saia da minha boca vá parar à zona de inalação do meu interlocutor. Essa partícula tipicamente cai a cerca de dois metros. E depois temos as partículas ainda maiores que caem antes de um metro e que são aquelas que são responsáveis pelo chamado modo de transmissão por contato. A utilização de máscaras faz o seguinte: as partículas maiores e de dimensões intermedias simplesmente não saem. Portanto, com a máscara cortamos logo dois modos de contato. Em relação aos aerossóis, passa a sair uma percentagem muito menor. Tipicamente, sairão cerca de 20% do que sairia antes. E se nós tivermos o aerossol do lado do recetor, também passa a haver uma redução, neste caso, ainda maior, porque a máscara é mais efetiva na inalação do que na exalação. Porque quando eu exalo, os espaços entre a máscara e a cara abrem por causa da pressão positiva. Quando nós inalamos, isso vai fechar mais. Portanto, máscara do lado do recetor e máscara do lado do emissor corresponde a 20 vezes menos concentração.

E o distanciamento?

O distanciamento funciona para o modo das gotas e para o modo do contato. Se nós estivermos a usar máscara, repare, eu produzo os aerossóis. Por exemplo, eu tenho uma sala com 20 metros quadrados e os aerossóis vão se distribuir por toda a sala, ao fim de algum tempo.

Ou seja, nesta altura é mais seguro estar no exterior do que no interior. Ou seja, as medidas para os espaços fechados são suficientes, as que estão nesta altura a ser tomadas.

Não, o que precisamos nos espaços fechados, relativamente aos aerossóis, além das máscaras, é ventilação, porque precisamos de diminuir claramente a concentração. Imaginemos, eu tenho um pouco de vinho. Se lhe juntar muita água, diminui claramente a concentração alcoólica.

Muito obrigada, professor Manuel Gameiro da Silva.

Só uma, que eu posso dar uma última recomendação?

Sim, para concluir rapidamente.

Relativamente aos espaços exteriores, a proteção não é total. Portanto, a minha sugestão é que o uso da máscara deve ser obrigatório sempre que nós vamos para algum sítio onde haja ocupação múltipla, seja no exterior ou no interior, porque as pessoas podem ser infectadas nas esplanadas, nas paragens de autocarros, nas plataformas do caminho de ferro, etc. Porque aquela proteção adicional que há no exterior, devida à radiação ultravioleta, precisa de 10 minutos para aniquilar o vírus. Portanto, se as pessoas estão umas ao pé das outras, aquilo é uma questão de segundos. E além disso, para que o efeito da velocidade mais alta que há no exterior se fazer sentir, é preciso alguma distância. Então se nós vamos para sítios onde há a possibilidade de estarmos perto de outras pessoas, a única forma de garantir que cortamos as linhas de transmissão efetivamente, é a utilização das máscaras.

Muito obrigada.

Para mim, a principal falha do desconfinamento foi não haver utilização generalizada de máscaras quando se sai de casa.

Fica aqui esta opinião de Manuel Gameiro da Silva, professor catedrático da Universidade de Coimbra. Muito obrigada pela sua disponibilidade.

Obrigado eu.