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A doença cardiovascular, nomeadamente o AVC e o enfarte, continuam a ser a principal causa de mortalidade em Portugal. E porque não é só a mortalidade que conta, também conta aquilo que são as consequências que derivam de ter tido um enfarte ou de ter tido um AVC, ainda que se sobreviva. Portanto, aquilo de que estamos aqui a falar não é só prevenir mortes, e nisso nós temos sido bastante felizes nos últimos anos. A DGS recentemente demonstra que, em termos de redução de mortalidade, nós temos uma redução de mortalidade por AVC que anda à volta dos 45% e por enfarte de 35%, que são números absolutamente extraordinários nos últimos 10 anos, e que mostram o quanto é importante nós termos realmente estratégias para organizar os cuidados, para conseguirmos antecipar os problemas e diminuir o número de eventos, mas também para os tratar muito bem. E há uma coisa que em Portugal acontece, que é que nós somos muito melhores na fase aguda de tratamento das dez doenças e, portanto, temos tido grandes ganhos em termos de mortalidade, também porque tratamos cada vez mais atempadamente e cada vez melhor as pessoas que têm estes eventos.
Pergunto-lhe, precisamente disse-me que no tratamento, Portugal é um país que é um dos melhores a tratar este tipo de doenças. O que é que está a ser feito e se é preciso fazer mais no trabalho de diagnóstico?
Há muitas coisas que vão ter que ser feitas. Portugal é bom no sentido de que nos últimos anos tem organizado aquilo que são as vias verdes, que são vias prioritárias de tratamento e de encaminhamento de pessoas para centros de referência, onde se pode fazer o melhor tratamento possível, quer no caso do AVC, quer no caso do enfarte. E nós temos tido efetivamente um acesso grande da nossa população à possibilidade de serem muito bem tratados. Claro que nós temos um problema, que tem a ver com a literacia da população, porque apesar de tudo, nomeadamente no enfarte agudo do miocárdio, a maior parte das pessoas não liga ao 112 quando se desloca ao serviço de urgência. E isso é um problema, porque pode eventualmente pô-los em risco por causa das arritmias e da morte, que pode acontecer subitamente por arritmias, antes sequer de podermos ser tratados pelo enfarte. E isso é uma das preocupações que nós temos tido, porque apesar do enorme percurso que se tem feito, na realidade, essa fatia de pessoas que vêm encaminhadas pelo serviço certo e pelos meios certos, continua a ser relativamente reduzida. Agora, o que está a acontecer e o que é que nós podemos fazer melhor? É informar a população relativamente aos sinais de alerta. As pessoas estão muito mais sensibilizadas para os sinais de alerta do AVC do que para os sinais de alerta do enfarte agudo do miocárdio e, portanto, isso faz com que possa haver aqui atrasos que são significativos e importantes.
E que sinais de alerta são esses, que as pessoas devem estar atentas?
No caso da doença coronária, regra geral, a história da dor no peito, que é o que as pessoas normalmente chamam de angina de peito, é o mais característico. Ou seja, é uma dor normalmente que surge subitamente no centro do peito, que pode irradiar para os braços, para o pescoço, para as costas, muitas vezes acompanhada da sensação de náusea, enjoo, as pessoas ficam a suar. Estas são características típicas, mas podem não ser tão típicas, porque as pessoas nem sempre descrevem estes sintomas como dor. Às vezes descrevem como mal-estar, às vezes pensam que é um afrontamento, que pode ser alguma coisa, por exemplo, de terem algum problema digestivo, porque às vezes a dor também não é bem no centro do peito, é mais perto do estômago.
E também é difícil identificar porque pode ser confundido com outros sintomas, não é? Às vezes uma pessoa está mais cansada.
Claro. E o cansaço, curiosamente, nomeadamente nas pessoas mais idosas, nas pessoas diabéticas e nas mulheres, pode haver outras apresentações. Embora a dor torácica seja a mais frequente, pode haver outras apresentações. Ou seja, pode ser uma aflição, pode ser uma sensação, por exemplo, de falta de ar, pode ser um desmaio. Portanto, há várias coisas que podem levar a que isto possa acontecer e as pessoas têm que estar alerta para isso. E quando isso acontece, aquilo que têm que fazer é ligar ao 112. Não é pôr-se no carro e irem a correr para o serviço de urgência, porque podem ter, como eu expliquei, uma arritmia e eventualmente não serem capazes sequer de chegar ao serviço de urgência. Portanto, isso é fundamental. Mas há aqui uma coisa também que eu gostava de deixar claro. Há duas coisas que nos preocupam ainda assim. E apesar de termos tido uma redução do número de enfartes nos últimos 10 anos, e agora termos estabilizado mais ou menos entre os 13 mil e os 14 mil enfartes por ano. O que é que me preocupa? Primeira coisa: a mortalidade indiscutivelmente reduziu imenso, mas quando vamos olhar para a mortalidade nas pessoas abaixo dos 70 anos, essa estabilizou. O que quer dizer que nós temos melhorado muito, mas à custa de pessoas mais velhas, não necessariamente onde nós estaríamos à espera de ter mais ganhos, que serão as pessoas mais novas, que são aquelas onde claramente nós temos uma maior probabilidade de ter impacto naquilo que vai ser a vida útil destas pessoas. Portanto, nós não estamos a conseguir fazer um bom trabalho. E o que nós verificamos é que a maior parte destas pessoas, obviamente, que têm enfarte agudo do miocárdio, são pessoas com fatores de risco. E os fatores de risco mais frequentes, regra geral, são a hipertensão, a dislipidemia, ou seja, as alterações do colesterol, e a diabetes. E aqui põe-se o problema de que o que nós precisamos também são estratégias preventivas para diminuir cada vez mais o número de enfartes, nomeadamente nesta população mais nova, onde nós ainda estamos muito a tempo de evitar um primeiro enfarte ou a recorrência depois de um novo enfarte.
Portanto, é aí que está, neste momento, onde se pode melhorar em Portugal?
O foco principal vai ter que ser a prevenção e o diagnóstico precoce. Portanto, eu diria que nós temos evoluído imenso nos últimos anos naquilo que é qualidade do tratamento na fase aguda e falhamos, provavelmente, nas áreas onde são, quer, por um lado, depois de já ter um evento, garantir que não vai haver um novo evento, porque vamos fazer todas as medidas de prevenção para evitar esse evento e, por outro lado, identificar as pessoas que estão em maior risco, tratar agressivamente esses fatores de risco e evitar que algum dia venham a ter um evento. Portanto, estas são áreas absolutamente críticas. Identificar precocemente os sintomas para permitir um tratamento atempado, mas acima de tudo prevenir para que não aconteça.
E essa qualidade no tratamento, já percebemos que na prevenção há um trabalho enorme a fazer. Ia lhe perguntar se a qualidade no tratamento é eficaz também no Serviço Nacional de Saúde. E se há alguma expectativa, por exemplo, neste governo, neste ministério, para que esse trabalho de prevenção também seja feito de forma mais eficaz, se há alguma luz por parte do governo.
Ora bem, a primeira coisa é: se há sítio onde efetivamente o trabalho que está a ser feito no tratamento da fase aguda é bom, é no Serviço Nacional de Saúde, muito mais até do que nos serviços privados, onde as equipes não estão tão montadas para esta resposta imediata. Portanto, nisso os cidadãos portugueses podem estar descansados, porque as vias verdes, como eu expliquei, que são então vias preferenciais em que as pessoas depois de serem identificadas como tendo a suspeita de um AVC ou de um infarto, são rapidamente encaminhadas para o sítio certo, onde podem fazer os tratamentos certos. Isso está montado, está a funcionar e isto tem não só a ver com a organização da estrutura pelos vários ministérios da saúde que foram passando ao longo dos anos, mas os próprios hospitais e os próprios serviços de cardiologia conseguiram fazer uma organização nesse sentido. E no lado AVC, a criação das unidades AVC ajudou muito a que fosse rápido este tipo de intervenção. E essa intervenção claramente ainda continua a ser bastante melhor no Serviço Nacional de Saúde do que na resposta privada. E aí os cidadãos têm que acreditar que têm é que ligar 112. Em relação à prevenção, ora, isto é um desafio, indiscutivelmente. Nós melhoramos muito, por exemplo, naquilo que é a identificação da hipertensão e da diabetes e aquilo que tem sido a tentativa de controle da diabetes e da hipertensão, embora estejamos ainda muito longe do desejável. Mas a verdade é que isto tem acontecido porque tem havido um investimento nos cuidados de saúde primários que permitiu haver indicadores nos cuidados de saúde primários que, em certa medida, incentivam a que isto seja possível. Este esforço, apesar de ter sido feito, não consegue colmatar uma outra problemática, que é o aumento daquilo que é o risco na nossa população, quando nós estamos a falar de pessoas que são cada vez com mais excesso de peso ou obesidade. E esse excesso de peso ou obesidade vem associado a um risco maior de hipertensão, de diabetes e, portanto, todas estas coisas têm que ser vistas também como não só fazermos uma melhor identificação e tratamento nos cuidados de saúde primários, mas acima de tudo, desenvolver medidas gerais de rastreios muito precoces destes fatores de risco e também a capacidade de alguma forma educar, nomeadamente os mais jovens, a conseguirem compreender que têm que evitar tudo o que vai levar a este aumento de risco. E aí nós ainda não estamos a fazer o que devíamos.