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Assinala-se o Dia Mundial da Luta contra o Desperdício, uma data que coincide também com o primeiro aniversário do movimento Unidos Contra o Desperdício. Francisco Melo e Castro é diretor deste movimento. Pergunto-lhe: um ano depois, qual o balanço que faz sobre o trabalho deste movimento no combate ao desperdício alimentar em Portugal?

João, boa tarde. Antes de mais, agradeço o vosso convite para estarmos aqui convosco na Rádio Observador. Respondendo diretamente, o Unidos Contra o Desperdício faz realmente amanhã um ano, quarta-feira, dia 29. É um balanço muito positivo, no sentido em que até hoje acolhemos dezenas, centenas de empresas, milhares de particulares que estão preocupados com o tema e que se quiseram unir a nós nesta causa, neste movimento, que é um movimento nacional, cívico, agregador, de todos para todos. Aqui não há donos, não há o lado de cá e o lado de lá. Estamos todos juntos nesta causa, todos unidos contra este tema. E por isso eu diria que o primeiro ano foi um ano também para nós de teste, de perceber a importância real que o mercado dava e dá a esta temática do desperdício alimentar. Entender também que há muitos mitos e muitas inverdades para desconstruir e há muito trabalho a fazer nesse sentido, de passar mensagens mais claras, mais eficazes, mais assertivas naquilo que tem a ver com a importância de combatermos o desperdício alimentar, mas realmente é um ano positivo e é um balanço muito positivo.

E em termos mais concretos, Portugal está num bom caminho para evitar o desperdício alimentar? O que falta fazer, no caso concreto português?

Essa é a pergunta do milhão, porque realmente o movimento Unidos Contra o Desperdício nasceu e continua com esse objetivo para ser um projeto primeiro agregador, ou seja, de juntarmos aqui os vários parceiros à volta da mesa para falarmos sobre este tema, porque se todos falarmos ao mesmo tempo, acabamos por ter uma voz mais forte e fazer-nos ouvir com mais relevância. Mas, por outro lado, também é um movimento de sensibilização e de comunicação, ou seja, nós não temos operação, nós não estamos no terreno, não somos nós que estamos a combater o desperdício, não somos nós que no dia a dia sabemos as toneladas de alimentos que calhar foram evitadas de irem para o lixo e que calhar foram transformadas em novas refeições, em bens alimentares para quem tem carências alimentares. Mas nós temos sabido isso e sabemos pelos nossos aderentes, ou seja, por todos os nossos parceiros, que há muito e bem a ser feito naquilo que tem a ver com o combate ao desperdício. Há muito boas práticas, há muito bons exemplos, há muito bons casos de norte a sul do país. Há várias iniciativas locais que são desenvolvidas também para combater o desperdício alimentar, seja no setor social, seja no setor privado, das empresas, seja no próprio setor público, nas empresas públicas do Estado. Há realmente uma vontade grande e crescente de todos para agressarem este tema e para se combater este problema.

Portanto, há um caminho a fazer, mas Portugal está em bom passo.

Sim, eu não queria responder de forma muito vaga, mas os números hoje, aquilo que são as estatísticas genéricas desenvolvidas pela ONU, pela FAO, estimam que em Portugal um milhão de toneladas acabem no lixo. Um milhão de toneladas de alimentos. Portanto, há aqui um número que é obviamente muito grande e são números que assustam, obviamente, mas eu acho que nós, através do movimento e dos vários parceiros que temos vindo a acolher no movimento enquanto aderentes, temos vindo a perceber que há uma vontade concreta e prática, com ações concretas e práticas no terreno para combater o desperdício. Portanto, acho que sim, há muito a fazer, mas também há um caminho já feito que é muito positivo.

E um milhão de toneladas que acaba no lixo de alimentos é por ano, certo?

Todos os anos.

Consegue dizer se é um número que tem vindo a crescer, é um número que tem andado mais ou menos estável?

Como digo, estas são estatísticas que eu acho que são feitas na percepção dos países e são valores que vêm a partir de dados da ONU, portanto, nesse caso, dados europeus, que depois adaptam a Portugal e à dimensão. E este tem sido um número usado nos últimos anos e, portanto, não há provavelmente aqui uma evolução ou uma noção de se houve um decréscimo, se não houve, se houve uma redução. O que nós sabemos depois, quando vamos ao terreno, é que hoje, versus cinco anos atrás, as empresas dos vários setores, desde a agricultura, à indústria, à distribuição, à logística, ao próprio consumo, à restauração, todas essas empresas já fazem muito mais no combate ao desperdício alimentar do que aquilo que faziam há cinco anos. Portanto, sabemos que hoje, certamente, o desperdício alimentar é menor do que era há cinco anos atrás. Sabemos também, por exemplo, que durante a pandemia, pelas piores razões, no caso da restauração, mas pelas não tão más razões do consumidor em casa, houve uma redução do desperdício no consumo, porque as pessoas tiveram mais tempo em casa, tiveram mais tempo para planear refeições e, portanto, tiveram mais tempo para estar atentas a este tema e a desperdiçar menos. E hoje também sabemos que a maior fonte de desperdício em Portugal continua a ser as nossas casas, as casas dos portugueses. E é aí que o movimento também quer atacar com mais eficácia e com mais assertividade.

Francisco Melo e Castro, o movimento, pelo que apuramos, tem mais de 2 mil associados. Como é que estas pessoas combatem o desperdício? Na prática, como é que isto se passa?

Há vários recursos. Nós temos o site unidoscontrododesperdicio.pt, que partilha já uma série de boas práticas e de ideias muito simples para que as pessoas possam Efetivamente, combater o desperdício alimentar. Aliás, no ato da ação, quando uma pessoa vai ao nosso site e preenche o formulário para poder ficar próximo do movimento e das suas newsletters e dos seus conteúdos, no âmbito dessa adesão, a própria pessoa compromete-se a uma série de dicas muito práticas, desde o já known de planear, fazer uma lista de compras antes de ir ao supermercado, não ir com fome, fazer compras ao supermercado, não ter vergonha de pedir as sobras que possam sobrar no prato ou numa travessa no restaurante para levar para casa. Enfim, como vê, coisas muito simples, que não implicam sermos cozinheiros de estrelas Michelin, nem sabermos sequer cozinhar, como é o meu caso, por exemplo, dois ovos estrelados sem os desmanchar, muitas vezes acabo por os desmanchar, não sou grande cozinheiro, e não é preciso isso para evitarmos o desperdício. Há coisas muito simples no nosso dia a dia que todos podemos fazer, mesmo aqueles como eu, que não são bons cozinheiros e que não têm jeito na cozinha, e que podemos fazer para combater e para evitar que comida acabe no lixo e fazer desperdiçá-la.

E nas empresas, os métodos propostos para evitar o desperdício têm sido bem recebidos pelos funcionários, têm captado bem estas dicas?

Esse tem sido um desafio interessante. A maior parte das empresas que são nossas aderentes têm uma preocupação relevante e grande com o tema do desperdício alimentar e muitas delas têm feito exatamente essas ações de formação dos seus colaboradores, no sentido de poderem gerir da melhor forma aquilo que são muitas vezes os excedentes. Dou-lhe, por exemplo, o exemplo de uma das cadeias de distribuição alimentar, um dos supermercados bem conhecidos aqui dos portugueses, não vou agora para trazer o nome, mas que me lembro de há uns tempos atrás, os termos colocado em contacto com outro nosso aderente, que é especializado em fazer este tipo de formações aos colaboradores dos supermercados, para que eles possam, da melhor forma, gerir aquilo que são muitas vezes as sobras, os produtos que já por alguma razão não podem ser postos na prateleira à venda ao consumidor, e que se calhar noutro tempo os empregados não saberiam, os colaboradores não saberiam o que fazer com aquilo e que hoje passam a saber o que fazer e como gerir ou como fazer o handling, digamos assim, o manuseamento desses produtos, para que depois eles possam, por exemplo, ser doados à Refeed ou a outras organizações como a Banca Alimentar e chegar a quem precisa em boas condições.

E para fecharmos agora aqui a nossa entrevista, Francisco, pergunto-lhe, se pudesse elencar as principais regras de combate ao desperdício alimentar, quais é que seriam?

Se o desafio é lá para casa, e é para o leitor, e é para o cidadão português como eu, acho que posso voltar a dizer aqui algumas que já lhe disse aqui. A primeira, acho que é essencial, quando estamos nas compras, levarmos uma lista de compras, planearmos as compras, porque se planearmos as nossas refeições semanais e com base nisso criarmos uma lista de compras, vamos ser muito mais eficientes e vamos comprar aquilo que é absolutamente necessário. Depois, não ir às compras com fome, porque quando vamos com fome acabamos por colocar no carrinho muito mais daquilo que precisamos e obviamente e consequentemente acabamos por ter produtos em casa que mal ou bem vão ser desperdiçados e que vão acabar no lixo. Depois temos também esta questão, por exemplo, na restauração, que acontece muito, que é não ter vergonha. Não ter vergonha de pedir as sobras, de pedir a caixa para levar as sobras para casa, para exatamente não deixarmos no prato ou na travessa. Outro, por exemplo, é pedir a dose certa. Muitas vezes vamos a um restaurante que já estamos habituados e já sabemos que as doses são grandes e que não as comemos, não conseguimos comê-las todas, então pedir logo à partida à pessoa ou empregado de mesa que nos traga uma dose mais pequena, que é a dose certa para nós. E estes, por exemplo, aqui, como vê, são medidas muito simples, que não implicam nem cozinhar, nem reinventar receitas, nem nada de coisas muito complexas e que eu acho que qualquer um, qualquer português pode aplicar, qualquer pessoa pode fazer.