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No dia em que o Vaticano anunciou, nos últimos minutos, num curto comunicado, que Francisco morreu. Temos em direto ao telefone, nesta altura, o padre Manuel Cardoso, é diretor da Brotéria, o Centro Cultural da Companhia de Jesus em Lisboa. Padre Manuel Cardoso, muito bom dia. Esta notícia, nesta altura, acaba por ser um pouco inesperada, sobretudo depois de ontem todos nós podermos ter visto o papa.
Olá, bom dia. Completamente apanhado de surpresa. Pessoas na fragilidade e idade, conhecíamos a situação do papa, mas não estava todo à espera. Há sempre esta esperança cristã que nos anima, esta grande alegria, tanto bem que o Papa Francisco trouxe à Igreja Católica em tantas áreas e ao mundo, acho eu também. Se há uns dias, uma semana atrás, estávamos um pouquinho mais à espera. Esta notícia desde manhã apanhou-me um ninho desprevenido, talvez por estar desatento, mas acho que depois de ontem, como disse, todos nós ficávamos com o coração noutro lado.
Sim, com a convicção de que teríamos Francisco a pontificar a Igreja durante mais algum tempo. Já não. Agora a pergunta é muito óbvia, padre Manuel Cardoso, mas que marca é que deixa Francisco?
Acho que deixa uma marca muito transversal, porque repare, desde uma reflexão pujante e que animou a Igreja nos últimos anos à volta da Casa Comum e portanto toda uma questão ligada à justiça, mas também uma justiça que inclui a natureza, o cuidado da Casa Comum, da criação, no sentido muito lato, mas também uma reflexão muito séria sobre o mundo da cultura e das artes. Deste mês de abril, o padre João Norton-Gama tem um artigo na Brotéria sobre o Francisco e as artes. É impressionante o que este papa fez. No verão passado, tem uma carta belíssima sobre literatura e por que devemos ler romances e como isso faz bem à alma e faz bem à nossa formação moral. De facto, é um legado de uma reforma interior, no sentido da estrutura da Igreja, de uma reflexão sobre a justiça e sobre os povos com a Casa Comum e o nosso planeta, que é absolutamente impressionante, mas também ao mesmo tempo uma reflexão cultural muito pertinente e muito interessante. Por isso, parece-me que é um legado esmagador pela sua riqueza. Acho que todos nós estamos muito contentes, muito alegres e muito animados com a esperança de conseguirmos levar avante estes mandatos, estes convites que o Papa Francisco nos foi deixando ao longo destes anos de pontificado.
Ou seja, simplificando um pouco, podemos dizer que Francisco foi um papa reformador?
Eu acho que foi um papa reformador em grande continuidade. Ou seja, esta reflexão sobre a justiça social não começou com o Papa Francisco, mas tomou nuances próprias do seu tempo, porque também hoje em dia a nossa reflexão ética e moral enquanto sociedade é mais rica e isso também enriquece o pensamento da Igreja. A questão da literatura e das artes na reflexão do papa vem na tradição do Papa João Paulo II e do Papa Bento XVI, como é evidente, e de outros papas anteriores, mas estes três de cara mais forte. E, no entanto, o Papa Francisco também traz aqui um cunho muito específico e este enriquecimento contínuo acho que nos enriquece a todos como Igreja. Repare, os papas, no fundo, pontificam, ou seja, orientam, ajudam, mas não é suposto sermos nós que fazemos tudo. E portanto, cada um de nós, a partir do seu lugar na Igreja, padres, leigos, religiosos, mais crentes e menos crentes, mais batizados e menos batizados, às vezes também em grandes obras da Igreja, alguns não batizados são importantíssimos. E por isso acho que podemos continuar, quer dizer, trazer o empenho e o legado que ele nos deixa como estímulo para sermos cada vez mais sérios nas nossas vidas e na missão da Igreja que é vasta.
Os portugueses adotaram todos a expressão do "todos, todos, todos" que ele trouxe aqui a propósito da Jornada Mundial da Juventude. Mas Francisco era também um homem com humor e não escondia esse humor na relação que tinha com todos os fiéis.
É verdade. Acho que humor e amor, pode brincar com as palavras. Sim, acho que sim. Era um homem também com uma capacidade de proximidade e de vários gestos pequeninos, alguns muito deliberados, outros quase que espontâneos no encontro com as pessoas, que foram marcando e que nos foram também dando a conhecer este homem. O Jorge batizado, o Francisco, papa. Quer dizer, este homem que independentemente da função, era também um homem com imensos talentos e com uma capacidade de interação humana empática muito grande. E também acho que isso marcou-nos a nós, conhecermos a pessoa, e marcou a forma como ele exerceu o governo na Igreja, porque Deus Nosso Senhor dá-nos os talentos que temos e a partir daí também exercemos as nossas missões. Mas é verdade que era um homem de uma empatia absolutamente excepcional e que se deu todo. Acho que para todos, mas que se deu também todo. E há aqui esta inteireza que eu acho que, de alguma forma, muitos de nós ficamos marcados, mesmo gente que não gostava particularmente da Igreja Católica, ficar impressionado com esta inteireza de um homem que se dá todo, que está todo naquilo que faz e que leva muito a sério e fala muito coerente. Também com o talento que tinha de ser transparente e de interagir. Mas é muito bonita essa inteireza e totalidade que acho que ele deixa também como legado e como benefício, uma benfeitoria que ele traz à Igreja e ao mundo.
Sinto que, padre Manuel Cardoso, Francisco enfrenta uma situação muito grave na Igreja Católica, que tinha a ver com a revelação dos abusos sexuais no seio da Igreja Católica. Foi provavelmente um dos grandes obstáculos ou uma das grandes dificuldades que teve assim que assumiu a liderança da Igreja Católica. A questão ficou ultrapassada, ficou resolvida com ele?
Só um detalhe histórico, desculpa. Essa questão já vem de trás.
É verdade que sim.
Só para não estarmos aqui a deturpar a história. A questão da procura da justiça, era a procura de que a Igreja seja uma instituição cada vez mais justa e cada vez mais adequada, é uma procura infinita. Estamos a descobrir pontos novos em que se calhar noutras alturas não estávamos tão atentos ou que se deformaram entretanto. E por isso não acredito que as coisas estejam resolvidas de uma vez por todas Somos chamados a estarmos muito atentos, somos chamados a ter boas estruturas de governo e boas estruturas institucionais que ajudem a evitar asneiras e erros. Nesse sentido, o chamamento a sermos cada vez mais justos e mais corretos é infinito, não se acaba com ninguém. Cada passo que se dá para frente é um passo no bom sentido e a vigilância é imperativa. Portanto, nesse sentido, acho que a missão continua. A missão a que somos chamados é de justiça, e a justiça constrói-se no dia a dia, não é uma questão absoluta que se constrói uma vez e fica feita.
Qual era a relação de Francisco com Portugal? Estamos todos muito recordados da visita a Lisboa. Com Portugal e com o culto mariano, como é que Francisco se colocava?
Acho que toda gente viu a grande piedade e o grande carinho que o Papa Francisco tinha por Fátima, por Nossa Senhora na sua aparição em Fátima, de forma particular. A nossa igreja em Portugal, como fomos agraciados com esta visita da senhora, temos também essa relação muito particular com Maria e acho que o Papa Francisco, não por ser português, mas por outras vias, talvez também pela própria espiritualidade inaciana, porque a presença de Maria é também muito forte na Companhia de Jesus e na espiritualidade da Companhia de Jesus. Talvez pela espiritualidade argentina, não sei dizer exatamente, mas é verdade que o Papa era um grande amigo de Nossa Senhora e acho que Nossa Senhora também foi muito amiga dele.
E agora coloca-se sempre também a questão da sucessão. Não há ninguém óbvio sempre nestas situações, pois não, padre Manuel Cardoso?
Acho que num funeral tratar de heranças seria de mau tom. Acho que vamos agora agradecer a vida de Francisco, agradecer as benfeitorias que ele deixou à Igreja, os muitos processos, agora o processo sinodal que ele nos deixou e que temos que levar para frente e continuar a levar a sério. E a seu tempo, eheremos essa parte. Acho que hoje é um dia para darmos graças, animarmo-nos também, chorar e com tristezas lamentarmos a perda de alguém de quem gostávamos muito. Mas acho que essa conversa será para daqui a uns dias ou semanas