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Jorge Ascensão, começo por lhe perguntar: os resultados, os dados que mostra este estudo da DECO coincidem com as preocupações dos pais relativamente ao ensino à distância?
Sim, de forma geral. Nós já tínhamos alertado para a dificuldade que existia por parte deles na comunicação. Alertámos muito para a questão da comunicação. A comunicação já por si não é fácil, sendo à distância, muitas vezes sem se verem, com sessões assíncronas, portanto, não havendo possibilidade de fazer sessões síncronas. A pouca experiência por parte quer de professores, quer de alguns alunos para poder trabalhar com esta metodologia, de alguma forma, e nós já tínhamos percebido isso, já tínhamos alertado para isso. O ensino à distância, de facto, teve algumas lacunas, embora o estudo, e referia-se isto, dá tudo uma média positiva, 5,8 em 10, não deixa de ser positivo. De facto, houve situações que correram muito bem, houve um esforço enorme por parte de todos os implicados, mas também houve situações em que não houve essa capacidade e portanto as coisas não correram tão bem.
Quais são os seus destaques? Na sua opinião, quais foram as coisas que correram melhor e, por outro lado, as que correram pior?
Correram melhor quando houve vontade de estabelecer o contato e a possibilidade de fazer as sessões síncronas. E os alunos até gostaram e alguns até testemunharam que estavam mais focados, entre aspas, gostam disso. Os professores, muitos, apesar das dificuldades iniciais, deram a volta, fizeram o esforço preciso e conseguiram estabelecer contato e não desistiram nunca de conseguir chegar a todos os seus alunos. E houve os casos em que isto não aconteceu, em que houve muita dificuldade, em que houve uma opção mais por enviar trabalhos para casa, que é uma das coisas que o estudo faz, e também avaliado negativamente. Eram enviados trabalhos e depois o feedback era dado uma vez por semana ou duas, e obviamente que isto não podia correr bem. Desta forma, nós estamos a falar do ensino à distância e aquilo que se pretendia é que ele acontecesse, embora com suportes físicos diferentes, porque não era presencial, mas que a metodologia fosse o mais semelhante e frequente como era o presencial. A possibilidade de um contacto que não fosse diário, pelo menos de dois em dois dias, ou uma coisa do gênero. Mas houve casos em que os contactos entre professor e aluno eram uma vez por semana, às vezes uma vez de 15 em 15 dias. Obviamente que isso não podia correr bem. As famílias em casa também muitas vezes não estavam preparadas, nem tinham as melhores condições. E isto, obviamente, cumulativamente, acabou por gerar uma situação difícil de gerir e criou a insatisfação nalgumas famílias e que nós temos essa perceção e esse conhecimento, e alertámos para isso. Por isso também dissemos que a experiência do terceiro período seria importante para aquilo que neste próximo ano letivo precisamos que seja melhorado. Esperemos que sim.
Antes de irmos ao próximo ano letivo, o apoio prestado às crianças com necessidades educativas especiais foi aquele que por parte das famílias mereceu uma avaliação mais negativa, ou seja, de zero a 10, mereceu 2,5 por parte dos pais. Deve o Ministério da Educação precaver esta situação?
Sim, sem dúvida. Essa foi uma das situações, desde o início nós falámos, tivemos famílias que nos fizeram chegar essa preocupação e julgo que toda a gente entende que para essas crianças com necessidades muito mais particulares e que necessitam de uma atenção mais individualizada, nós inclusivamente propusemos na altura que desde logo no terceiro período, elas pudessem voltar, ainda que com horário, com pré-marcação, o que fosse, para aumentar as condições de segurança, mas era preciso que pudessem fazer o seu trabalho com os terapeutas, com os professores de apoio especial, e esse trabalho à distância não resultou. Não me admira nada que seja de facto, e foi também para nós o aspeto mais negativo, e por isso também dissemos que no próximo ano letivo isso não pode voltar a acontecer. Mesmo que haja necessidade de confinamento, ainda que profilático, se a criança não estiver infetada, deveremos criar condições dentro da escola ou na comunidade para que elas possam continuar a trabalhar com os seus professores e os seus terapeutas de forma presencial. Todos, é o que desejamos, mas muito especialmente essas, porque seis meses já foi tempo demais em que elas estiveram sem um trabalho que é muito importante para o seu desenvolvimento. E esse é seguramente um dos aspetos mais negativos de tudo aquilo que aconteceu, que são as crianças mais frágeis e que acabaram por ser as mais prejudicadas com todo esse processo e por isso nós temos que estar muito atentos. E eu sei, pelo menos nas conversas que temos tido, que há essa atenção por parte do ministério. Agora espero que tenhamos a capacidade de pôr em prática tudo aquilo que é necessário.
Jorge Ascenção, para terminar, o que esperar do próximo ano letivo? E também se houver necessidade de outro confinamento, estaremos mais preparados, tanto a nível de pais, de alunos, de crianças, também de professores, para o novo método de telescola, de ensino à distância, ou os mesmos problemas que agora este estudo fala podem se repetir?
Eu espero que não. Seria muito mau quando nós aquilo que pedimos às nossas crianças, aos nossos jovens, é que se aprenda com o erro, é que se evolua. Aprender é exatamente isso Evitar repetir os erros. Nós já tivemos uma experiência, neste momento já não significa que sejamos surpreendidos. Já percebemos melhor todo o problema, sabemos da sua complexidade ou temos uma perceção mais clara da sua complexidade. Eu espero que ainda que se cometam outros erros, pelo menos possamos evitar aqueles que cometemos. Isto vai exigir, e nós dissemos, um envolvimento de todos. Um dos erros que provavelmente está a cometer neste momento é que o planeamento do ano letivo feito pelas escolas, está a ser feito numa grande parte de casos, não digo em todos, mas às vezes está a ser feito de forma isolada. Nós sabemos que é preciso envolver as famílias, é preciso que as autarquias se envolvam, porque a resposta tem que ser da comunidade. É bom que a escola esteja com as melhores condições, mas também é bom que essas boas condições possam acontecer fora da escola, sob pena de uma coisa acabar por prejudicar a outra. Há todo um trabalho de planeamento que está a ser feito e que eu julgo que terá resultados positivos naquilo que será o que nós desejamos para o ano letivo. Um ano letivo que, dentro das condições em que estamos e dentro destas condicionantes, possa decorrer e que aconteça ao longo de todo o ano de forma presencial, é o que se espera. Se houver necessidade do confinamento profilático, e também obviamente que admitimos e que há uma probabilidade para isso, sobretudo se houver a tal segunda vaga de casos, etc, que este confinamento profilático tenha todas as condições. As famílias têm ainda que também saber que tipo de acompanhamento, que apoios é que terão para acompanhar os próprios filhos. É uma das questões que ainda não se sabe muito bem. Como é que isto vai acontecer? Quando é que regressam, não regressam, como é que isso vai ser feito? Ainda é algo que precisamos de clarificar um pouco mais. Sabemos que em termos de condições das escolas, por aquilo que nos tem chegado, têm os equipamentos, têm tudo preparado, planos feitos. Dentro dos espaços, sabemos que a distância não será exatamente aquela que seria desejável, mas haverá toda a cuidado em termos de comportamentos e atitudes. Nós vamos tentar também orientar os nossos filhos. Aquilo que nós esperamos é que não vai ser o ano letivo que gostaríamos. Não é fácil estar a assistir a uma aula com máscara. Não vai ser fácil naquelas condições, estar a desenvolver o melhor trabalho. Nós percebemos isso, mas seguramente será melhor do que aquilo que aconteceu com o ensino à distância. Temos que evitar que sejamos obrigados, por todas as razões, para além das razões pedagógicas, mas também por razões de saúde, psicológica, emocional e até por razões sociais, temos que evitar a necessidade de fechar. E por isso, é bom que cada um assuma as suas responsabilidades, para que as coisas corram nas condições que todos sabemos que são, mas corram bem. E que depois se for necessário algum confinamento profilático, seja também desfasado e que seja o mínimo de situações. É uma incerteza, é verdade, é uma incógnita e isso deixa-nos a todos preocupados, mas também nos deixa mais atentos para acudir, se for caso disso, alguma situação.