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Temos agora em direto a vice-presidente da Ordem dos Psicólogos, Sofia Ramalho. Bom dia, obrigada por estar conosco.
Bom dia. Obrigada.
Bom dia. E começava precisamente por aqui: como é que pais e filhos gerem expectativas nesta viragem do ano, com toda esta incerteza?
Esta incerteza é generalizada aos vários contextos da vida de cada um de nós e nos últimos tempos tem sido uma certeza que a incerteza se mantém, mas de facto, existe uma possibilidade. Não são decisões fáceis, mas é importante conseguirmos uma boa conciliação entre aquilo que são as medidas sanitárias e aquilo que é a saúde psicológica, neste caso, dos jovens e de toda a comunidade educativa. E essa é uma preocupação. Mas temos que pensar também esta possibilidade, por exemplo, isto que aconteceu agora, de os alunos só poderem regressar, seja presencialmente, seja online, às aulas uma semana mais tarde, não significa que eles têm mais uma semana de férias, porque as semanas estão a ser atípicas também na maior parte das famílias portuguesas. As crianças e os alunos estão em casa, mas os pais estão a trabalhar, neste caso, em teletrabalho. Os pais, na maior parte das vezes, não estão de férias e as tensões nos ambientes familiares, a mudança de rotinas, está a acontecer e tem impactos, nós sabemos disso. E portanto, nós não podemos considerar isto um período de férias, propriamente. E estar a acrescentar dias no fim do ano letivo, para compensar, não é, de facto, a melhor solução.
E precisamente esse destaque que faz de que regressarem uma semana mais tarde ou até poderem ficar mais tempo em casa, não significa terem mais tempo de férias. A Sofia Ramalho faz parte também da Comissão de Acompanhamento do Programa de Recuperação de Aprendizagens. Isto vai ter efeitos, muito provavelmente, também nessa medida.
Sim, nós já estamos a prever efeitos e já estão a acontecer. Nós já vemos o impacto na saúde psicológica e no ambiente da própria escola, não só nos alunos, mas também nos próprios professores, nas próprias administrações escolares e no ambiente escolar. E portanto, nós sabemos que estes efeitos têm vindo a agravar-se, porque não estamos a falar só das consequências diretas da pandemia, mas das consequências também, digamos que uma espécie de efeitos secundários da pandemia, quando a pandemia já tem repercussões na vida das famílias, quer ao nível das questões da sustentabilidade económica, quer das alterações da rotina, quer da própria saúde mental e do acrescer de sintomatologia ansiosa e depressiva, também, nas crianças e jovens. E de facto, este grupo de trabalho está a colaborar com a Direção Geral de Educação, com a Direção Geral de Estatísticas, com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, com o Projeto Aventura Social e também com a própria Google. Estamos, neste momento, a criar a oportunidade de recolher nas escolas portuguesas indicadores da saúde psicológica e do bem-estar das escolas para propor medidas e recomendações específicas em função das necessidades, inclusivamente geográficas.
Não há, nesta altura, já algumas conclusões dessa recolha?
Não, ainda estamos numa fase prévia de recolha, de identificação dos indicadores para poder recolher.
E a propósito, já agora, dessas consequências que estava a falar para as famílias, para os estudantes, mas para a sociedade em geral, desta incerteza da pandemia e desta escalada de casos da variante Ômicron. O Jornal de Notícias traz hoje dados do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, que mostram que a ansiedade, a depressão e a perturbação do estresse pós-traumático afetam quase um quarto da população adulta. Há aqui algumas melhorias no último ano no que toca à ansiedade grave. Ainda assim, são dados preocupantes do seu ponto de vista?
Sim, são dados preocupantes, mas nós não podemos esquecer que nós já tínhamos dados preocupantes pré-pandemia e que, em relação, por exemplo, a outros países da Europa, Portugal apresentava também um índice muito elevado de ansiedade e depressão na população portuguesa. E portanto, a tendência é de agravamento, mas também é importante nós não pensarmos só naquilo que são os impactos na saúde mental e em sintomatologia mais clínica, mas também na ausência de saúde e de bem-estar. Ou seja, não é só a presença de problemas, mas também a ausência de bem-estar que nós temos que olhar, porque, na verdade, é importante que as pessoas sintam que têm capacidade e que têm competências para lidar com as diferentes situações da adversidade, que estão munidas de um conjunto de estratégias que permitam lidar com a complexidade destes problemas que têm vindo a ser gerados e que isso, sim, é o sinal de que estamos a investir verdadeiramente na saúde das pessoas e no fortalecimento, na tal resiliência das pessoas, para que possam lidar com as mais diferentes situações. Esta pandemia e outras que possam vir.
Há um investimento deficitário na saúde mental em Portugal. Estamos perto de eleições. Está à espera que este paradigma mude e que a pandemia, que é uma coisa má, ajude pelo menos a mudar este paradigma no que toca o investimento na saúde mental?
Sim, o próprio presidente da República mencionou ainda no outro dia que a saúde mental continua a ser o parente pobre. E de facto, nós não podemos pensar só em dizer que vamos investir na promoção da saúde mental, mas temos que concretizar isso no ponto de vista da operacionalização de programas específicos, pensados em função da especificidade das populações e da vulnerabilidade de algumas populações, para que, de facto, as coisas aconteçam. E, portanto, eu tenho esperança que este próximo governo possa basear-se nestes dados, que são tão concretos e que nós vemos no dia a dia, tão próximos de nós, para efetivamente apostar em verdadeiras políticas públicas, com medidas operacionalizáveis e concretas para a promoção da saúde e do bem-estar das populações.