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Acreditação do primeiro curso de medicina no privado, se de alguma forma muda algum paradigma naquilo que é o ensino da medicina no sistema português.
A nossa posição tem sido sempre muito clara em relação a esta questão. Lamentamos que a decisão tenha sido neste sentido, a decisão com o maior peso da agência de acreditação. Acho que é uma cedência ao poder político, uma vez que todas as entidades ligadas à medicina manifestaram que não seria a altura oportuna para esta tomada de decisão. E estou a falar quer das escolas médicas, quer da ANEM, da Associação Nacional dos Centros de Medicina, quer da própria Ordem dos Médicos. Portanto, pensamos que é basicamente uma decisão política. Não penso que isto vá melhorar o ensino médico em Portugal, acho que vai penalizá-lo e eventualmente até será um aumento daquilo que muitos consideramos a proletarização da medicina. Decide quem tem que decidir, mas achamos que é uma má decisão e é um mau dia, pelo menos o ensino médico em Portugal.
E pode estar de alguma forma relacionada com esta questão que existiu este ano das universidades públicas não quererem ter tido mais vagas dos cursos de medicina?
Não, mas nós justificamos a razão porque não queríamos. Não é uma questão de não querer, é que entendemos que não seria útil para o país. Neste momento está a aumentar quer o número de vagas, quer o número de escolas médicas. Portanto, não era uma questão de querer ou deixar de querer. Foi uma análise objetiva, consubstanciada, que demos inclusivamente todas as razões e toda a informação, porque é que entendíamos não ser oportuno ou útil para o país, neste momento, para ter este tipo, quer de aumento de vagas, quer de mais escolas médicas, usando todas as referências, tirando as pessoas diretamente envolvidas. Existe aqui um grande conjunto de opiniões em relação a este assunto, tirando as pessoas diretamente ligadas, por exemplo, à Universidade Católica, neste caso, ou outras universidades privadas que também estavam a pedir autorização e acreditação. Mas de resto, todas as entidades, as instituições, as pessoas que são responsáveis pelo ensino médico ou que andam de alguma forma ligadas à medicina em Portugal, entendiam que isto não era oportuno neste momento. Portanto, esta é uma decisão que vai ao arrepio daquilo que foram as recomendações das entidades que têm responsabilidade do ensino médico e da medicina em Portugal, portanto só pode ser considerado como uma cedência à pressão política que tiveram ou a outras que não queremos conhecer. Mas só pode ser isso. Se as pessoas que estão no terreno e que são responsáveis manifestaram, de forma muito clara e muito objetiva, porque é que entendiam que isto não é útil para o país, e depois é conferida essa acreditação, algo aqui está completamente dessincronizado. Mas isto em Portugal muitas vezes é o que se observa. Mas é uma decisão interesse. Mas enfim, temos que viver com isso e temos que respeitar as entidades que têm responsabilidades em Portugal para tomar estas decisões, mas não podemos deixar de lamentar uma decisão que entendemos que é uma má decisão.
Só para terminar, deixe-me perguntar se isto vai obrigar o ensino público a alguma adaptação, tendo em conta esta nova oferta, ou este novo concorrente. Sei que a palavra às vezes não é bonita, mas se vai obrigar a alguma adaptação.
Repare, nós estamos sempre em adaptação. O ensino da medicina é um ensino dinâmico. E só temos pena que muitas vezes a tutela não saiba ou não entenda o que é o ensino da medicina. E nós temos feito de várias formas. Temos feito chegar à tutela as necessidades que existem para uma evolução moderna do ensino da medicina, que nós, nas nossas faculdades e escolas médicas, fazemos o possível e o impossível para conseguir manter esse nível e conseguir manter aquilo que é o ensino bom, que é um ensino que tem formado excelentes médicos. A medicina tem características específicas, quer dizer, as pessoas falam muitas vezes, em que os médicos ou o ensino da medicina é muito corporativo, e é utilizado isso sempre que querem ter uma desculpa para quando nós defendemos o ensino da medicina. Porque a medicina é uma das áreas, claro que todas as áreas são importantes, mas eu penso que ninguém quer ter um mau médico, ninguém quer ter uma má medicina. E isso só é possível se nós tivermos a capacidade de ter instituições e ter a capacidade de ter as pessoas boas, as pessoas melhores formadas, para não termos depois maus médicos ou má medicina. Se formos banalizar o ensino, se formos torná-lo exatamente igual a qualquer outra área e quer haver mais 100 ou 200 ou 300, é um bocadinho indiferente, aumentas a taxa de desemprego. Na medicina, isso não deveria, esta é a nossa opinião, como eu disse, não deveria acontecer, porque é um investimento brutal que está a ser feito numa área que é uma área crítica. É a área em que as pessoas quando interrogadas, qual é a área mais importante para si, a saúde, regra geral, vem em primeiro lugar. E portanto, devia ser também a área mais acarinhada. Decisões deste tipo, entendemos que não vêm contribuir para isso e apenas vêm deteriorar um pouco mais o sistema do ensino médico em Portugal, uma vez que vão permitir um excesso de oferta formativa, que vai ter consequências mais tarde ou mais cedo, na qualidade quer do ensino, quer depois da própria prática médica que se vai seguir. Mas enfim, como digo, nós respeitamos as decisões que são tomadas pelas entidades que são responsáveis por este tipo de decisões, mas não podemos deixar de o lamentar.
Senhorartíssimo Fausto Pinto, muito obrigado pela disponibilidade.