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Gostava de começar pela reação de Donald Trump. Este resultado fica aquém das expectativas dos republicanos, o próprio presidente norte-americano o admitiu. Disse que o resultado republicano não foi melhor apenas porque o seu nome, Donald Trump, não estava no boletim de voto. É mesmo assim?
Eu acho que é verdade que este tipo de eleições, que não são eleições presidenciais, portanto, neste caso nem são eleições intercalares, são Estados em que há eleições agora, nomeadamente a Virgínia, Nova Jérsia, e a eleição também para o município de Nova Iorque. Mas, por exemplo, temos o referendo também na Califórnia, que é importante. Quando é assim, à partida, é mais difícil mobilizar eleitores, mas isso também se aplica supostamente ao outro lado. Não é apenas ao partido republicano, que neste caso tem o presidente, também é em relação ao outro partido, porque à partida as eleições presidenciais são as mais importantes e há sempre mais eleitores que por arrasto também vão votar nas outras coisas. Não é um completo disparate, mas está longe de explicar tudo. Trump também refere a questão desta paralisação no governo, por via da impossibilidade de aprovar as despesas públicas e isso também provavelmente é um fator. Mas a questão é se isso leva os votantes a votar contra o Partido Republicano, eu diria que talvez seja a altura de os republicanos repensarem a sua postura, embora aquilo que parece estar implícito também na posição de Trump é que o que eles deveriam fazer era acabar com a regra da supermaioria no Senado, esta regra do chamado filibuster, que no fundo significa que na maior parte das decisões é preciso não uma maioria de 51, dos 100 senadores, 51, não uma maioria simples, mas uma maioria reforçada de 60 senadores.
Alguma da imprensa norte-americana diz que estas eleições serviram de avaliação, quase como umas eleições intercalares ao primeiro ano do segundo mandato de Donald Trump.
Sim, no fundo, todas as eleições são, muito mais do que as sondagens, são realmente também um pouco uma avaliação da administração, do governo, há sempre esse efeito. É verdade que há outros fatores, e obviamente os candidatos também têm importância, mas aqui há este dado que é incontornável, que é os democratas ganharam basicamente em toda a linha, mesmo em estados onde pareciam estar com mais dificuldade, por exemplo, Nova Jérsey, onde aliás Donald Trump tinha conseguido um bom resultado, não tinha vencido, mas tinha conseguido subir muito a sua votação nas eleições presidenciais, onde a eleição parecia relativamente próxima. No entanto, os democratas também ganharam, nomeadamente para governador. Na Virgínia, onde havia várias eleições, para governador parecia uma vitória segura, porque realmente o candidato a governador democrata é bastante popular, mas, por exemplo, para procurador-geral, que lá nos Estados Unidos também são eleitos, parecia muito mais disputado, também venceram. Mesmo em Nova Iorque, onde tinha um candidato bastante à esquerda, que ganhou por uma margem relativamente curta, mas ainda assim venceu. Realmente é difícil tirar daqui outra conclusão que não há aqui uma manifestação bastante clara de descontentamento por parte dos eleitores e, por exemplo, no caso da Virgínia, que é o estado vizinho da capital americana, mas vizinho no sentido que muitos dos bairros de Washington, na verdade, já fazem parte da Virgínia, basta atravessar o rio Potomac e já se está na Virgínia, em termos formais, e há aí muita gente obviamente a trabalhar para o governo federal que não está a receber, porque é uma das consequências também desta paralisia. É natural que também estejam particularmente insatisfeitos e, portanto, ou tenham votado democrata em maior número ou eventualmente sendo mais republicanos, tenham eventualmente abstido.
Por último, e tocaste nesse ponto, Bruno, Nova Iorque elegeu o primeiro maior muçulmano, filho de pais indianos. O que isso representa?
Vamos ver o que é que representa. Nova Iorque é pouco representativa dos Estados Unidos. É uma cidade muito especial em muitos aspectos. À partida, muito mais, obviamente, à esquerda do que a generalidade dos Estados Unidos, e mesmo mais à esquerda ou uma esquerda mais radical do que muitos outros espaços urbanos. Eu acho que é preciso ter cuidado em tirar grandes conclusões de um caso que me parece à partida excepcional. Acho que este candidato dificilmente seria viável, mesmo na maior parte das outras grandes cidades norte-americanas, eventualmente numa ou outra, mas muito poucas e certamente, por exemplo, como candidato presidencial, não me parece que tenha grandes possibilidades. Agora, é relevante que ele realmente tenha conseguido ainda assim ser eleito. Ele tentou moderar alguns dos seus aspetos mais radicais, mas não todos. Acho que sobretudo o que talvez seja aqui mais interessante é que ele apostou claramente também numa linha de populismo económico, ou seja, esta ideia de prometer, nomeadamente lidar, por exemplo, com a questão da habitação, que é um problema cada vez mais agudo nos grandes centros urbanos por todo o mundo. Em Lisboa, isso é bastante também evidente. Ele prometeu aí medidas muito assertivas e acho que realmente também isso foi importante para mobilizar muitos eleitores. Vamos ver se não tem aqui um efeito depois contrapoducente nalguns aspetos. Por exemplo, há esta especulação de que há muitos milionários que vivem em Nova Iorque, que assustados com esta ideia de eventualmente um aumento muito significativo de impostos, políticas mais hostis em relação aos empresários, podem estar a contemplar mudar-se, nomeadamente para sítios como a Flórida. Se for assim, isso pode ter aqui um impacto também negativo na capacidade do candidato realmente cumprir algumas dessas promessas mais ambiciosas.