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Professor Carlos Antunes. Queria perceber consigo estes dados que têm surgido nos últimos dias e que tem estudado, como tem feito já desde o início da pandemia, e queria olhar particularmente para as idades de ensino. Queria perceber, olhando para os diferentes níveis de ensino, começando pelos mais novos, dos 6, 12 anos, por aí. Neste momento, qual é a taxa de incidência do novo coronavírus nesta faixa etária?
Neste momento, à data de dia 18, a incidência acumulada há 14 dias por 100 mil habitantes dos grupos etários, diz-me que a faixa dos 6 aos 12 está a crescer mais rapidamente que as outras faixas etárias, incluindo população ativa e população não ativa, está, neste momento, à data de dia 18, com uma incidência acumulada de 982 infectados por 100 mil habitantes, o que corresponde a que praticamente 1% da população de 6 a 12 anos está infectada nos últimos 14 dias. Tendo estado, em 31 de dezembro, com 367, ou seja, 0,38% da população estava infectada em 31 de dezembro. Na faixa de 13 a 17, nós temos uma incidência acumulada atual a 100 mil habitantes, à data de dia 18, 1259 infectados por 100 mil habitantes. Isso corresponde a que, por cada 100 habitantes de 13 a 17 anos, nós temos 1,3 infectados, 1,3%. Tendo estado a 31 de dezembro em 0,45%, ou seja, em 31 de dezembro tínhamos 454 infectados nos últimos 14 dias a 100 mil habitantes e passamos, nestes 18 dias, para 1253. A faixa etária com maior incidência e que lidera o pelotão, acima de qualquer grupo etário, incluindo o grupo etário da faixa de 25 aos 65, que é o que nós consideramos população ativa. Este grupo 18,24 lidera o pelotão com 1628 infectados nos últimos 14 dias, à data de dia 18, por 100 mil habitantes, tendo estado a 31 de dezembro com 653 infectados por 100 mil habitantes.
O que me está a dizer é que a faixa etária entre os 18 e os 24 é o que está a crescer mais em novos casos.
Dos 18 a 24, desde maio, que é o grupo com maior incidência. Sempre foi, desde maio, exceto na primeira vaga até maio. Teve a crescer a uma taxa superior aos outros, tal como a faixa de 13 a 17. O que nós observamos em termos de velocidade de crescimento, é agora quem lidera a velocidade de corrida é a faixa dos 6 aos 12. A faixa dos 6 aos 12, a partir de dia 13, passou a ter uma taxa diária de aumento de 6,12%, superior a todos os outros, que têm uma taxa a 6%. Portanto, o grupo de 6 aos 12 é agora o grupo que tem maior velocidade de aumento de incidência acumulada. Não é a incidência absoluta a 100 mil habitantes, mas a variação com que ela está a ocorrer. E portanto, está se aproximar, por exemplo, da faixa etária da população não ativa, que é com mais de 66 anos.
Professor, só para perceber e para tentar deixar isto mais claro a quem nos estiver a ouvir. A faixa etária entre os 6 e os 12 é onde está a propagar-se mais rapidamente o vírus ou é onde está a aumentar mais em dimensão o número de novos casos?
É aquela que a velocidade de propagação é maior, aquela em que a taxa de aumento diário é maior.
Sim, compreendo.
E entre 30 de dezembro e 12 de janeiro, foram as faixas de 18 a 24 e 13 a 17.
Diga-me uma coisa, professor.
Quem lidera a corrida são as faixas que estão entre os 6 e os 24 anos. Isso é inquestionável.
Escutando o que me está a dizer, contraria quase por completo o que o Primeiro-Ministro disse esta tarde, de que não existe propagação do vírus nas escolas.
Em parte, contraria. Temos que analisar o que se diz de um lado e o que se diz do outro. O que eu digo, eu não digo onde a incidência ocorre. Não sei se é dentro da escola, se é fora da escola, se é no lar. O que eu digo é que estas faixas são as que estão a crescer mais rapidamente. Isso é o que eu digo. Agora, ninguém consegue provar onde é que estes jovens se infectaram. Isso ninguém consegue provar. Nem nós conseguimos demonstrar que se infectaram dentro da escola, entenda-se dentro do espaço escolar, sala de aula, nem ninguém consegue provar que as infeções dessas pessoas foi fora da escola. Isso ninguém consegue provar. Nenhuma das partes pode usar este argumento como dizendo que, por um lado, não é na escola que há a infeção, nem, por outro lado, pode ser usado como é na escola que está a ocorrer a infeção. Portanto, há que interpretar estas duas formas de ler e de que, em parte, sim, contrario, porque a incidência está a aumentar e está a aumentar a uma taxa superior às outras faixas etárias. Agora, eu não sei, ninguém sabe, onde é que se está a dar o foco da infeção O que nós sabemos é quanto mais contactos houver, mesmo na população adolescente, que tem a mesma capacidade de transmissão que os adultos, quanto mais contactos houver, maior será a transmissão. Se a transmissão é entre pessoas da mesma faixa etária ou entre pessoas de faixas etárias diferentes, ninguém sabe dizer. 87% dos contágios nós não os conseguimos identificar. E é preciso saber interpretar, é preciso interpretar muito bem essa leitura, porque eu vejo já muitas más interpretações.
Mas parece-lhe bem a decisão de encerrar as escolas, dado esses dados que acabou de avançar?
Claro que sim. A minha opinião é que nem sequer deviam ter aberto. Porque pelo conhecimento que temos e pela nossa análise, infelizmente, nós não tínhamos estes gráficos há uma semana. Só tivemos a partir de sábado, que foi quando nós fizemos a análise. E a partir daí vimos uma realidade que ninguém estava à espera que existisse, mas que já havia estudos noutros países e foi isso que nos levou a fazer também cá em Portugal.
Professor, para além de analisar os dados que vão chegando diariamente, olha também para os dias que se seguem e as semanas que se seguem e faz essa previsão. O primeiro-ministro, o governo decretou o encerramento das escolas por 15 dias. Parece-lhe suficiente?
Ninguém pode responder. Eu acho que ninguém pode responder a essa pergunta. Temos que, nesta situação, ser drásticos, utilizar o princípio da máxima precaução, que é aquilo que nós defendíamos e que pelos vistos está a ser agora usado como razão para esta decisão. E temos que ir monitorizando, nomeadamente, este indicador do aumento da incidência por faixas, bem como a incidência a nível nacional, bem como a evolução do Rt. O Rt está a nos dar já a indicação de que está a haver uma inversão da propagação. E pensamos, desconfiamos, que seja já um sinal da penetração da nova variante. Dado que o Ricardo Jorge informa que provavelmente no final do mês nós vamos ter uma prevalência da nova variante de 60% nas infecções, quer dizer que o Rt será superior. E, portanto, nós estamos já a ver uma inversão, independentemente das medidas, uma inversão na dinâmica do contágio. O Rt interrompeu a sua descida e está a inverter, passando a começar agora a subir. Está na mesma 1.3, mas como nós analisamos temporalmente, temos um gráfico, analisamos a sua evolução, conseguimos fazer essa leitura melhor.
E perante também esses dados que tem e olhando para este confinamento que está a ser apertado quase dois em dois, três em três dias, na última semana já é a terceira vez que é revisto, e perante os dados que temos da propagação da pandemia em Portugal, quando é que será possível chegar àquela fase já descrita como o achatar da curva?
Não sabemos, porque os indicadores que utilizamos estão a nos dar uma divergência e estão a dizer que ele está indefinido. Basicamente é isto.
Indefinido entre alguma altura específica, ou seja, temos um espaço temporal muito longo?
Cada vez mais longo. Portanto, há uma semana estávamos a vê-lo basicamente no final deste mês. Durante esta semana já o começamos a ver no início de fevereiro e agora está a nos fugir ainda mais pra frente. Ou seja, o pico da montanha que temos que trepar está a ficar cada vez mais alto, que é a incidência, e cada vez mais longe. E nós, para começarmos a descer o número de casos, temos que subir a montanha até ao topo e começar a descer. Ora, se estamos a subir uma montanha que está a crescer cada vez mais e cujo pico está cada vez mais longe, está a ver a imagem. E isto, claro, repercute-se depois nos internamentos e repercute-se nos óbitos. E nós já estamos a ver isso com grande impacto.
O que me está a dizer é que pelo menos mais duas, três semanas vamos continuar a subir essa montanha.
Eu não lhe consigo dar a certeza, mas é mais provável que o pico ocorra depois de duas semanas, depois daqui a 15 dias, do que antes. Agora, também não sei qual o impacto destas medidas que vão começar na segunda-feira. Contudo, o que eu sei é que o seu impacto só se vai sentir nos dados daqui a 10 dias. E depois aí é que começamos a ver se de facto está a resultar ou não está a resultar. E aí poderá começarmos a ver novamente a definição do pico. Mas muito dificilmente em 15 dias a gente vai conseguir. Depende, obviamente, da eficiência, da efetividade das medidas. Isso vai depender disso. Aqui não há grande ciência. Porque nós para conseguirmos achatar, há vários indicadores que têm de ocorrer. Um deles é o número de diagnósticos que nós fazemos diariamente, tem que corresponder ao número de contágios que estão a ocorrer. Que é pro vírus não nos dar a dança. E o outro indicador é o Rt tem que convergir e cruzar o 1.0. Ele está agora em 1.3, tem que começar a descer, convergir 1.0 e depois passar por ele. Só aí é que ocorre o pico. Nós não estamos a antever quando é que vai ocorrer. E, portanto, a nossa incógnita agora é a nova variante. É um novo player. É o novo fator de forçamento. Como é que ela vai influenciar a evolução dinâmica desta pandemia? Essa é uma incógnita que a gente sabe.
Claro.
Podemos especular, podemos tentar modelar, mas nós não sabemos. Portanto, vai haver aqui uma relação de forças entre medidas de confinamento, entre capacidade de testagem, de tentar mais rapidamente identificar quem está contagiado para os isolar, as medidas de isolamento e redução de contactos e a variante nova, que vai fazer uma força noutro sentido. Nós estamos a empurrar a mola pra baixo e vamos começar a sentir outra força a empurrar a mola pra cima.
Falou já conosco nas últimas semanas do número de casos positivos que fogem ao rastreio e que não chegam a surgir os resultados.
Esse é o outro indicador. Esse é o indicador que estabilizou, subiu desde o pós-Natal dos 400 para os 2800, estabilizou, anda agora ali nos 2100, 2200, 2500.
2500 casos positivos que não são detetados.
Que não são detetados. Sim, exatamente. Agora, esses alguns vão ser detetados, porque quando contraírem sintomas, eles serão apanhados. Os que não contraem sintomas, esses provavelmente não são apanhados. E são cerca de dois terços. Portanto, somando isso a sete dias, temos 17.500. Se somarmos a 14 dias, temos 35.000. 70%, dois terços desses, que é 20 mil, não são apanhados porque são assintomáticos. E esses criam novas cadeias de transmissão. E é isso que faz perder o controle da monitorização. Do chamado rastreio. Portanto, nós temos que, por um lado, aumentar a capacidade de rastreio, significativamente, para ser compatível com a taxa de transmissão, e por outro lado, temos que impedir que o vírus infecte pessoas a uma velocidade cada vez maior. E isso é através das medidas.