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Nuno Grande é um dos signatários de uma carta aberta, uma petição que exige ao presidente da Câmara de Viseu a revogação da decisão de executar o projeto de alteração da Praça 2 de Maio. Eu perguntava-lhe qual é que é este projeto e o porquê da necessidade de revogar esta alteração.

O que eu sei é que há um projeto de requalificação daquele lugar, assinado pelo arquiteto Álvaro Siza e pelo arquiteto António Madureira, que durante anos manteve ou propunha que aquele espaço fosse um espaço aberto, como aliás acontece noutros mercados murados que existem em Portugal. É, portanto, um programa, uma tipologia muito característica desse tipo de mercados e que faz todo o sentido que se mantenha aberta no seu centro. Naturalmente que algumas atividades que hoje ocorrem nesse tipo de espaços obrigam a que haja uma cobertura temporária ou parcial. E o que eu sei é que o anterior presidente da Câmara, não o atual, pediu ao arquiteto Álvaro Siza que pensasse nessa possibilidade de cobrir parcialmente a praça, não lhe retirando esse caráter de espaço aberto. E foi o que ele fez e entregou esse projeto à Câmara, que não é conhecido, não sabemos porquê, esse projeto nunca foi debatido, nunca foi divulgado. Entretanto, o novo presidente, de há uns anos para cá, tem insistido na ideia de que é preciso cobrir o mercado. Aliás, não sei se sabem, mas há uma série de tendas de plástico que têm sido colocadas temporariamente nesse mercado para vendas, imagino eu que de Natal ou outro gênero de vendas desse tipo, que acabam sempre por desvirtuar a leitura desse vazio. E imagino que por causa do constante aluguer dessas tendas, finalmente tenham pensado que o melhor seria cobrir definitivamente um espaço que foi pensado pelo arquiteto Álvaro Siza como um espaço aberto. E é este absurdo que nos faz assinar esta carta aberta ou esta petição. Porque, naturalmente, aquele lugar vive dessa relação entre o cheio e o vazio. Entre o perímetro construído e um espaço aberto central, com lindas magnólias, que convém preservar. E eu não sei se cobrindo aquele espaço, se de alguma vez essas magnólias irão sobreviver a uma utilização tão intensa e coberta do mesmo. Portanto, é isso que nos leva. Nada nos motiva contra, eventualmente, o arquiteto que fez este projeto e foi mandado pela Câmara, provavelmente sem se aperceber que estava, de alguma maneira, a infringir um princípio básico de autoria. Há um autor, esse autor está vivo, há um código deontológico que obriga a Câmara a dizer: "bom, há um autor anterior, um concurso ou uma encomenda tem que ser pensada em articulação com esse autor." E o que nós sabemos é que esse autor não foi consultado sobre esta iniciativa, nem do concurso de 2015, nem desta decisão de agora, finalmente, pelos vistos, construir e cobrir definitivamente este espaço.

Eu perguntava-lhe uma das coisas. O que nós reparámos uns instantes de termos acesso à carta, eu estive a ler a notícia do Jornal de Notícias e a mensagem que eles passavam era que, de alguma forma, estas obras poderiam desvirtuar, por assim dizer, a obra original do arquiteto Álvaro Siza. Creio que até falavam num atentado patrimonial. É o património que está em risco e que estão a tentar defender com esta carta?

Sim, a praça e a função de mercado é anterior à intervenção do arquiteto Álvaro Siza. O que ele fez foi uma requalificação daquele património que lá estava, mantendo-a como um mercado murado, um mercado circundado por construções e respeitando a relação entre construção e vazio. Espaço central vazio. E portanto, ele respeitou esse património que herdou e, naturalmente, ao fazer o seu projeto, introduziu sinais de autoria, os seus, mas que não desvirtuam essa origem anterior. Este projeto vem realmente cobrir um espaço que era originalmente aberto. E eu penso que faz parte de uma obsessão que há hoje nas cidades, de cobrir tudo, de fechar tudo, de tornar tudo numa espécie de shopping mall, onde possam vender artigos de toda a ordem. E o que é facto é que o mercado não é um shopping mall. O mercado é um espaço que tem esta relação com o ar, com a natureza, com a cidade. Não é um lugar encerrado. Aliás, o arquiteto Álvaro Siza costuma dizer uma coisa muito interessante. Ele diz que hoje, no mundo contemporâneo, há dois horrores: o horror ao vazio e o horror ao silêncio. E que normalmente os presidentes de câmara têm horror a essas duas vertentes e estão sempre a encher as praças de tendas, barulho, concertos e atividades. E, na verdade, as cidades também têm direito a ter espaços vazios e também têm direito a ter espaços de silêncio. E eu acho que foi isso que o arquiteto Álvaro Siza construiu ali, um espaço vazio e um espaço para podermos meditar, passear entre as magnólias. Acho que esta ideia obsessiva de cobrir tudo, que é como lhe disse, uma obsessão contemporânea, está a desvirtuar muitos destes lugares e muitos destes espaços, que são até relativamente modestos. Não há aqui uma grandeza patrimonial. Não estamos a falar de um monumento ancestral, estamos a falar de um simples mercado que, na verdade, tem o direito a continuar a ser isso, um mercado a céu aberto, articulado com pequenas lojas em volta, como é tradicional neste tipo de programas. E portanto, parece-nos lógico que Se subsistiu até aqui e funcionou, não se percebe porque é que de repente esta opção de cobrir passa a ser uma opção política. Ainda por cima, não debatida com as pessoas.

O Observador já tentou entrar em contacto com o presidente da Câmara, que é o visado desta carta aberta, e ele disse que não conhecia a iniciativa. Estão a considerar qualquer outro tipo de iniciativa, ou seja, qualquer outro tipo de comunicação com a autarquia ou esta carta aberta vai ser suficiente e vão aguardar uma resposta por parte da Câmara Municipal?

Eu sei que alguns dos signatários são ilustres pessoas de Viseu e que eu penso que terão sido elas a começar este processo. Pessoas ligadas ao património, pessoas ligadas à arquitetura, à paisagem e que naturalmente contactaram as pessoas que conheciam e que conhecem o trabalho do arquiteto Álvaro Siza e portanto, o movimento foi-se espalhando entre, digamos assim, as pessoas que estão nestas áreas. Mas naturalmente, o objetivo é que os cidadãos de Viseu se consciencializem sobre a necessidade de debater. Nós queremos é que se debata, no fundo, a proposta. Como eu disse, nada nos move contra a pessoa que propôs esta cobertura, provavelmente levada por um processo que devia ter sido um pouco mais linear e transparente. E o que acontece é que, como sempre ocorre quando há mudanças de executivo, os projetos ficam na gaveta. O arquiteto Álvaro Siza já tinha uma ideia de cobertura que, pelos vistos, foi abandonada e, portanto, o que é importante é que se debata esta solução ou outra, ou todas as outras que até agora foram colocadas, inclusive a do próprio autor da reabilitação do mercado, o arquiteto Álvaro Siza, e que no final desse debate, haja uma decisão política, mas que pelo menos os cidadãos tenham a possibilidade de conhecer as propostas que estão em cima da mesa e não apenas serem confrontados com uma decisão que ainda por cima é estranha, porque aparentemente houve um concurso em 2015, houve um vencedor e aparentemente a proposta que vai ser construída é a segunda classificada. Ora, também não se percebe muito bem porque é que houve esta mudança de atitude. E portanto, se tudo isto for explicado, se tudo isto for transparente, eu penso que os signatários desta carta estarão disponíveis para participar neste debate e sobretudo as pessoas mais próximas da vida quotidiana de Viseu e que são naturalmente as mais interessadas em que isto decorra da forma mais transparente. A mim, pessoalmente, move-me esta ideia de que há um autor vivo, um autor que continua a praticar arquitetura de qualidade e que, portanto, merecia ser ouvido e ser trazido para este debate, coisa que não aconteceu, porque ele próprio concorda com o teor da carta. Portanto, é porque está incomodado com esta situação.

Nuno, muito obrigado.

É uma questão de respeito pela autoria da arquitetura, que é uma coisa que os arquitetos, mas eu penso que todos os cidadãos deviam pugnar, por esse respeito pela autoria. As obras de arquitetura são obras de autor.