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Junta-se a este jornal Diogo Noivo, investigador de segurança e terrorismo. Antes de mais, bom dia, Diogo. A pergunta que se coloca nesta altura é: como é que nós defendemos o nosso modo de vida perante terroristas que, em grande parte dos casos, nasceram cá na Europa?
Olá, bom dia. De facto, esse é um dos fatores mais salientes deste tipo de ameaça. Quando olhamos para os últimos cinco anos de atentados jihadistas na Europa, reparamos numa tendência clara. Eles são cada vez mais perpetrados por indivíduos com recurso a armas brancas e cada vez menos por grupos com recurso a armas de fogo e explosivos. Portanto, apesar de haver uma ligeira tendência de aumento no número de atentados, eles são cada vez menos sofisticados e há cada vez menos vítimas mortais por atentado. Isso deve-se a dois fatores: por um lado, maior eficácia no trabalho de contraterrorismo e depois precisamente por isto, porque estes atentados dos últimos anos têm sido perpetrados por indivíduos nascidos e criados nos países que atacam e não por indivíduos com experiência de combate no Iraque, no Afeganistão, na Síria. E, portanto, não temos assistido à presença de indivíduos curtidos pelo combate no Grande Médio Oriente, mas sim jovens, na sua maioria entre os 20 e 30 anos.
Como é que nos defendemos deles? Como é que nós nos conseguimos defender destas situações, ou seja, ao percebermos da possibilidade de um ataque deste gênero?
Tem sido criado um conjunto de iniciativas em países como França, Reino Unido, Dinamarca e outros, no âmbito da prevenção, ou seja, de identificar focos de radicalização, sejam mesquitas clandestinas, sejam centros culturais, sejam fóruns online, no sentido de identificar o quanto antes estas fontes de radicalização e prevenir. Por outro lado, julgo ser importante apostar num trabalho de integração também, pois nós sabemos que pobreza não é um fator de radicalização, ninguém se radicaliza por ser pobre, mas sim parece haver uma tendência de jovens que não se sentem integrados, encontrarem nestas correntes mais radicais um sentimento de pertença que lhes falta na sua vida quotidiana. E, portanto, continuar a apostar na prevenção e ter em conta também políticas públicas de integração, não será uma chave mágica para o problema, mas certamente muito contribuirá para diminuir a intensidade da ameaça.
Diogo Noivo, estes ataques em França, olhando para o território, foram dois ataques hoje dentro de fronteiras, um fora. Há duas semanas tivemos este assassinato a um professor. O alvo em França tem alguma explicação?
Todas as organizações terroristas, independentemente da ideologia que as motiva, atacam aquilo que entendem ser o traidor, o inimigo. Neste caso, o inimigo, quando falamos de jihadismo, é uma sociedade tida como hedonista, como infiel, como herege. E portanto, qualquer pessoa que faça parte dessa sociedade é tida como alvo legítimo da violência. Em relação ao número de atentados, aos atentados de hoje e ao que vitimou o professor Samuel Paty, eu julgo que isso nos mostra algo muito interessante. Nós ouvimos falar com muita frequência em lobos solitários, em ataques perpetrados por indivíduos a solo, mas todos os estudos e todas as investigações nos têm demonstrado que os lobos solitários, em boa verdade, não existem. Ou seja, apesar de estas pessoas atuarem sozinhas, elas revelam sempre algum grau de ligação a centros nevrálgicos de organizações terroristas como a Al-Qaeda ou o Estado Islâmico. Evidentemente, sobre aquilo que aconteceu hoje, nós não temos informação disponível ainda, teremos que esperar semanas, muito provavelmente, para poder confirmá-lo, mas eu diria que a proximidade cronológica destes atentados indicia que, apesar de atuarem sozinhos, muito provavelmente terão algum tipo de relação com núcleos de organizações terroristas.
Podemos temer novos ataques nas próximas semanas?
Não é de descartar. França tem isso em conta e julgo que dada a natureza destes atentados e a sua proximidade temporal, não se deve descartar a possibilidade da ocorrência de um novo atentado.