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Em comunicado enviado à imprensa, a Direção-Geral da Saúde avança que as quatro crianças com idades entre os sete meses e os oito anos tiveram sintomas em abril, foram internadas, mas nenhuma apresentou complicações graves. As quatro crianças foram testadas à hepatite A, B, C e SARS-CoV-2, com resultado negativo. A Direção-Geral de Saúde explica que os resultados para o teste à hepatite E ainda não são conhecidos. Ontem tinha sido noticiado dois casos de suspeita de hepatite em território nacional, aos quais se juntam agora mais duas suspeitas. É nosso convidado o diretor do Programa Nacional para as Hepatites Virais da Direção-Geral da Saúde, a quem agradeço a disponibilidade para estar conosco nesta edição das 14h00. Boa tarde, doutor. Rui Tato Marinho, o que é que consubstancia, em que é que se alicerçam estas suspeitas de casos de hepatite aguda em Portugal nestes quatro casos?

Não são suspeitas, são casos confirmados de hepatite aguda.

São casos já confirmados?

Não, são casos de hepatite aguda, há uma inflamação aguda do fígado, isso nós sabemos e já conhecemos há muitos anos. Configura dentro daqueles casos que têm sido falados pela Organização Mundial de Saúde, que é hepatite de causa desconhecida, em que se exclui os tais vírus mais frequentes, o A, B, C, D, E. Isto enquadra naqueles casos que neste momento se está a falar a nível internacional de hepatites agudas em crianças pequenas, mas que felizmente a grande maioria corre bem. Acho que é uma mensagem muito importante, que aliás, todos estes casos estão a correr bem.

São os primeiros casos confirmados em Portugal?

São os primeiros casos prováveis em Portugal, porque é muito difícil confirmar uma doença que nós não sabemos a causa. Há uma suspeita neste momento. Estas crianças vão fazer toda a investigação que se está a fazer a nível internacional, a nível da Europa, colheita de sangue, para a medicina tentar pesquisar se existe um vírus que nós não conhecemos ou o tal adenovírus que se fala muito, que esteja a provocar esta situação nestas crianças, neste momento. Nós já estávamos às esperas.

Via se a acontecer.

Há duas semanas que era expectável que chegasse a Portugal. Espanha também tem um pouco mais de casos, um pouco por toda a Europa. Isto prova que o sistema estava atento, os pediatras estão atentos, os médicos de família estão atentos, a urgência também. Estamos a trabalhar em rede, criámos uma task force, até antes de ser criada uma task force europeia, que foi criada ontem, para lidar com esta situação. Felizmente, em Portugal está a correr bem, mas é expectável que apareçam mais casos.

Mais casos. Doutor, e quais é que são os sintomas?

Os sintomas são sintomas iguais a muitas outras doenças. É uma criança que pode ter febre, pode ter vômitos, diarreia, é uma criança que não está bem, e isso é fácil de nós reconhecermos. E que nalguns casos, nestes casos de hepatite aguda, que poderá necessitar de internamento, pode ter os olhos amarelos, a chamada icterícia.

É o caso destas quatro crianças que estão todas internadas?

Eu não conheço os casos do ponto de vista clínico em si. Não sei quais é que tinham sintomas ou não tinham, isso faz parte também do segredo médico, também não podemos e não devemos divulgar. Mas obviamente que é expectável que alguns tivessem os olhos um pouco amarelos, a chamada icterícia. Isto também é importante para os médicos que estão no terreno saberem. O que define esta hepatite aguda de causa desconhecida é terem as análises do fígado muito alteradas. Normalmente as análises chamadas transaminases andam volta de 30 a 40, mas nestes casos são mais de 500 os valores. Isto é que define uma hepatite aguda, uma inflamação aguda no fígado.

O doutor fez aqui referência à icterícia, deve ser esse o principal sinal a que os pais devem estar atentos?

Esse é o principal sinal. Se uma criança estiver doente, não tiver ido ao médico, ou ter ido ao médico, porque a doença pode não ser igual no primeiro dia e não ser igual no terceiro dia, como muitas outras doenças. Mas se tiverem em casa uma criança que está doente, não uma criança que está normal, mas uma criança que está doente e que de repente aparece com os olhos um pouco amarelos, claro que há o risco de agora começarmos todos a olhar para os olhos das crianças, mas isso também não é mau, porque as crianças até têm olhos muito bonitos. Mas esse é o sinal de mais alerta. Mas reparem uma coisa, aliás, isto é dito a nível internacional, até pela Organização Mundial de Saúde. A probabilidade de os nossos filhos, os nossos netos, virem a ter uma hepatite destes com evolução grave é mínima. Isto são, neste momento, 200 casos a nível europeu, a nível mundial. O número de crianças que nascem em Portugal todos os dias são 220. Para pesarmos bem os números. As hipóteses de isto acontecer neste momento, claro que não sabemos daqui a uma semana ou uns meses o que é que vai acontecer, mas neste momento a hipótese é mínima.

O tratamento passa exatamente por quê?

Nós não sabemos o tratamento específico porque não conhecemos a causa.

A causa do agente.

É a tal hepatite de causa desconhecida, podemos fazer um tratamento genérico, mas não existe neste momento nenhum tratamento cabalmente eficaz para dominar o agente que nós não conhecemos bem. Mas obviamente que já estão a ser feitos estudos, a ser testados alguns.

Era o que eu ia perguntar, doutor, porque já há alguns dias que começámos a ouvir falar desta hepatite aguda, ainda não há resultados, ainda não se conhecem pelo menos as causas que motivam a doença. O que é que está a dificultar a investigação? Ou é normal este tempo que está a demorar até que se perceba exatamente o que é que motiva a doença?

Nós não estamos completamente a zero. Nós sabemos, para já, que são crianças muito pequeninas. Há um caso. O que se passa? Depois sabemos que uma percentagem superior ao normal há o adenovírus, que é o nosso velho conhecido, que se poderá ter tornado mais agressivo. Em alguns casos, também existe o Covid. A criança está com a infecção Covid. Portanto, o que se está a fazer neste momento é tentar investigar, fazer análise ao sangue, análise de alta tecnologia para tentar encontrar, se for caso disso, um vírus. Mas neste momento não se têm a certezas completamente absolutas, mas também não estamos completamente a zero. Todos os dias há reuniões. Ontem tivemos uma reunião com o tal Centro Europeu de Controle das Doenças, que está muito atento. Há estudos, há uma investigação que se vai fazendo. Sabemos que, por exemplo, alguns dos casos em que a criança necessitou transplante, o que é, saliento, muito raro.

Lia com um em cada 10 casos.

Um em 10 casos. Para nós é muito, obviamente, mas tudo não é o mais frequente. Por exemplo, algumas dessas pessoas tinham uma grande quantidade do adenovírus. Há algumas coisas que vamos a pouco e pouco sabendo, vão começando a aparecer as publicações científicas, os médicos e outros investigadores vão tendo reuniões todos os dias. Isto é um bocado, quase a papel químico do que se passou com o Covid, com outras emergências infecciosas. Isto para nós, médicos e outros profissionais de saúde, começa a ser quase uma rotina lidar com o inesperado e o mundo futuro vai ser assim.