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Foi noticiado que o Sindicato Independente dos Médicos fez um apelo sobre uma urgência em salvar o Hospital Amaro Souto, isto por supostas dificuldades e insuficiências dos serviços de saúde no Hospital de Castelo Branco. Eu pergunto-lhe se de facto existem estas dificuldades no hospital, se o hospital tem passado por dificuldades.

O hospital sempre teve as dificuldades de um quadro, um mapa de pessoal médico reduzido. Mas há vários anos. Eu estou aqui desde 2009 e nessa altura já havia essas dificuldades. Portanto, não houve nada de novo, chamemos-lhe assim, que levasse a este apelo. O que acontece, a meu ver, e saberei agora nos próximos dias, porque de facto primeiro houve o apelo e depois é que nos comunicaram, é que com a pandemia, o quadro de pessoal foi-se mais envelhecido. Tem alguns profissionais que tiveram muito trabalho, nomeadamente na medicina interna, e depois baseado nos problemas que são de todos, houve duas pessoas que tiveram um problema de saúde grave e que tiveram que deixar de fazer urgência, e agora já estão novamente a fazer, e tenho três médicas a amamentar. Portanto, o que se passa é que o quadro é semelhante, não houve saída de profissionais, houve duas aposentações durante este tempo e não foi de medicina interna, porque de facto eles referem que tem muito a ver também com o meu serviço, mas é porque nós fomos submetidos a um trabalho intenso com a pandemia, como todos os hospitais, como sabe, os internos também, e as pessoas têm alguma dificuldade em se adaptar. Não tem havido problemas de maior. Por quê? Porque desde há muitos anos, mas com maior evidência desde 2015, nós sempre tivemos prestadores de serviço nesta casa. Mas já tínhamos em 2010, porque eu já fui diretora clínica nessa altura. Sempre tivemos prestadores de serviços para várias áreas, nomeadamente para garantir, desde 2015, 2016 e desde 2017, que eu sou novamente diretora clínica, isso sim, escalas de serviço com maior incremento de médicos, para terem os níveis de segurança. Portanto, ao longo do tempo, estas escalas têm vindo a ter maior número de profissionais. Não tem sido ao contrário, como se quis transmitir. E este é que penso que é algo que se deve passar, tanto à população como aos meus próprios colegas. Porque, como sabe, os colegas prestadores de serviço, que são todos especialistas, portanto, quem vem fazer as áreas das especialidades, não estou a falar na primeira observação, que é o vulgo triador, mas eu não gosto desse nome, gosto de chamar primeira observação médica, porque eles são médicos como nós. Os especialistas são todos especialistas e de vários hospitais, onde trabalham e têm a sua carreira. Portanto, não tenho aqui colegas que não seja filtrado o seu currículo pelo próprio diretor de serviço, e vêm trabalhar como uma equipa e há vários anos. Não houve nenhuma alteração de maior. O que acontece é que cada vez mais, pelas nossas idades, e também porque alguns elementos foram deixando de fazer urgência, como eu disse, até pela própria doença, agora é que já retornaram, os prestadores têm vindo a ser em maior número. Ora, isso era expectável. O que eu preciso é de ter escalas de serviço onde haja dois médicos de presença física e especialistas. E portanto, depois há aqueles períodos férteis, etc, em que pode haver alguma outra falta, mas não houve nada de diferente. Há algumas situações que não fazem urgência, que estão a chegar a uma idade em que nós temos que rever e tentar atrair profissionais, mas não são até da área da urgência. Portanto, é bom que se perceba, há dificuldades porque o mapa de pessoal é um mapa envelhecido. E é envelhecido, também vou explicar por quê. Porque o Hospital Amato Lusitano nunca foi um hospital sociedade anônima, portanto nunca pôde ter contratação de médicos como as sociedades anônimas, como sabe, antes de 2010, que eram sociedades anônimas. Portanto, em 2010, quando passamos a empresa, ainda houve contrato de profissionais, fui eu própria, com o atual conselho de administração da altura, que fez ainda contratos para pessoal médico. Depois, as regras foram-se alterando. Esses contratos não são possíveis diretamente, têm que ser solicitados à tutela. E também a atração para estas áreas é pouca Mesmo com os incentivos. Diga.

Um dos problemas é que o quadro tem ficado envelhecido, porque o hospital nunca teve autonomia para contratação, estar sempre dependente da tutela. Nós temos assistido a vários problemas em hospitais semelhantes que levam a demissões em bloco. O Hospital de Castelo Branco sofre esse risco, de num futuro próximo ver demissões em bloco?

Não ocorre, porque eu penso que neste momento, e esta é a minha convicção, os meus colegas diretores de serviço sentem um apoio do Conselho de Administração para tentar resolver os problemas. E quando estou a dizer, já é um histórico de alguns anos, como lhe disse, desde 2017, eles sabem que a direção clínica sempre tentou estar com eles na resolução dos problemas. Agora, é difícil. É como eu digo, como prestadores do serviço, mesmo para outras áreas, têm vindo sempre várias pessoas. Vamos supor, a ortopedia precisa, o diretor de serviço fala comigo, eu digo: "Vê se faz favor, se tens colegas que sejam competentes, com currículo competente". E nós, Conselho de Administração, temos dado o aval para colmatar todas essas vagas. Portanto, penso, e estou convicta, de que quase todas as direções de serviço estão com o Conselho de Administração, porque sabem do nosso esforço. Agora, como sabe, há sempre ruído de fundo. Isso é uma questão nossa, do povo português. E por isso, não me parece que haja nenhuma situação desse tipo, porque neste momento, é como eu digo, raras são as escalas que não têm os rácios necessários. E por isso, até lhe digo, não posso mostrar-lhes, porque estamos telefonicamente, mas eu tenho aqui à minha frente, eu tenho neste momento escalas com maior número de profissionais em presença física do que tinha há dois, três, cinco anos. Mas mesmo há um ano, eu tinha escalas que tinham médicos de prevenção. Agora estão de presença física, com os prestadores, obviamente. Deixe-me dizer-lhe outra coisa. Há, de facto, algumas especialidades que vão ter que ser renovadas. Não vai ser fácil, mas exatamente são especialidades que não fazem serviço de urgência. Tem havido, portanto, sempre a minha abertura para pedir vagas. Algumas têm sido concedidas, outras nem tanto, porque os especialistas também não é em número e é um problema por todo o país, mas as vagas não têm sido preenchidas.

Já agora, quais é que são essas especialidades que estão a precisar?

Olhe, por exemplo, posso dizer cardiologia, vai ser um problema num curto espaço de tempo, porque tem prestadores de serviço até para a área, para haver algumas coisas programadas, mas têm vindo. E, por exemplo, a neurologia, porque a colega está neste momento doente e, portanto, eu perdi mais uma médica e estou neste momento a tentar colmatar, ver se encontro mais algumas colegas que queiram vir. Mas tenho aqui colegas, só para perceberem, de facto, também a humanização dos meus próprios profissionais. Eu tenho aqui colegas que vêm do ZUC até por periferias há muitos anos e que até vêm mais dias e aos sábados para nos poder colmatar e não deixar que os doentes fiquem sem suas consultas. Mas são duas especialidades que a curto espaço de tempo iremos ter alguns problemas e já estamos a trabalhar no sentido de arranjarmos mais profissionais. Mas nem tudo é mau. A psiquiatria, por exemplo, ganhou profissionais. E neste momento tem uma escala de urgência que nunca teve na vida. Portanto, eu penso que se quer a minha opinião sincera, isto, de facto, foi muito empolgado e talvez não tenha trazido grande benefício à própria instituição, porque eu tenho neste momento prestadores de serviço que me dizem: "Eu não gosto de ter o meu nome envolvido neste tipo de polémicas, porque eu sou um profissional e sou bom profissional". E alguns até já nem vieram a esta casa este mês, já não me deram disponibilidades para novembro. Portanto, às vezes é preciso ter algum cuidado com as notícias, porque pessoas que eram riquíssimas e muito bons profissionais podem não gostar desse tipo de comentários. E contra isso, os argumentos, eu tenho poucos. Já estou a falar com eles para ver se digo que isto vai ficar calmo, como outras situações, mas é como digo, não houve nada de novo. E isso é que, deixe-me ter o meu desabafo, foi uma pena, porque se tivessem falado com o Conselho de Administração previamente, nós tínhamos explicado o que eu lhes estou a dizer e já disse a vários colegas. Portanto, não houve nenhum agravamento, não há nada de novo. Há, de facto, alguns elementos que estão doentes, outros Que tiveram situações graves e que por si próprios deixaram de fazer. Por exemplo, a VEMER. Eu tinha colegas que faziam VEMER, depois tiveram situações de saúde, não interessa dizer o quê, e disseram de um dia pro outro que iam deixar de fazer VEMER. Evidentemente, temos que colmatar. Colmatar como? Com pessoas de fora, porque agora os colegas estão a fazer os seus cursos, as suas formações, para depois poder colmatar as vagas que há. E até essa formação, nunca ninguém nesta casa pode ter dito que estava proibido fazer formação interna ou externa, ou inclusivamente os seus mestrados, porque nunca negamos situações dessas. Pelo contrário, ainda ontem autorizei estatuto de trabalhador-estante, etc. Penso que do ponto de vista institucional, temos tido um rigor de preservar tanto os cuidados aos doentes como as próprias condições junto dos profissionais. Com dificuldades, é claro, mas é como lhe digo, não estou a esconder, mas fazemos o nosso esforço.

Sim, sendo que essas dificuldades, como dizia, já existiam pelo menos desde 2009, 2010. E também disse agora que não compreendia o porquê, não é bem uma acusação, mas destas informações sobre o hospital saírem agora pelo sindicato. Consegue encontrar alguma justificação para que o Sindicato Independente dos Médicos faça este apelo e este comunicado só agora?

Olhe, não te sei dizer, eu não sou sindicalizada, não tenho nada contra os sindicatos, pelo contrário, penso que até são organismos. Penso que há duas coisas aqui. Uma é porque o cansaço e a exaustão podem ter originado alguns comentários sobre o tema e depois porque as pessoas têm sempre uma perspectiva de que a classe médica vai se renovando. E, de facto, o hospital, passe a expressão, os internos de formação que tenho são internos que não têm muitas ligações, às vezes, aqui a esta zona e acabam por não ficar. E talvez tenha sido essa imagem de pensar que os internos não ficam dentro da instituição. Mas para colmatar, e só para lhe dizer, eu, por exemplo, tive internos do meu serviço que decidiram não ficar, aceitaram a vaga, depois, faça expressão, fizeram as contas e acharam que seria melhor serem prestadores de serviço e que vêm a esta casa como prestadores de serviço e fazem a sua atividade na mesma. Mas também, só para terminarmos, só para compreender o que eu quero dizer, quando se é bom profissional como médico do mapa de pessoal, eu apelo, também se é bom profissional como prestador de serviços. E às vezes, a nossa mente altera-se perante o indivíduo que passou do mapa ou do interno para prestador de serviços. Isso sim, parece-me que com a pandemia talvez tenha havido um estresse mental que levou a que estas situações se agravassem. Portanto, eu digo, e é o que vou dizer hoje, os meus prestadores de serviço deste hospital, muitos até foram formados nesta casa. Tiveram 19 vírgula tal no internato. São excelentes profissionais, foram formados por nós, decidiram ir pra prestadores de serviço e eu acarinhei-os porque, de facto, eram bons profissionais. E como tal, continuarão a ser bons profissionais e por isso nós só temos que os preservar. E a comunicação, às vezes, e as formas de comunicar com estes colegas podem ter alguma falha. Talvez tenha sido isso a questão fundamental, porque na pandemia estes colegas trabalharam tanto ou mais como os colegas do mapa de pessoal. Até lhe vou dizer mais: na medicina interna, estes colegas no serviço de urgência trabalharam, e muito, na Covid-19. Portanto, eu estou convicta de que foi esta exaustão que levou talvez a algumas situações mais prementes e talvez a esta necessidade de falar sobre o tema, o que até é bom e tentarmos trazer alguns profissionais queiram vir aqui pra esta faixa.