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Jorge Roque da Cunha, Secretário-Geral do Sindicato Independente dos Médicos. Pergunto-lhe: está a haver uma demissão em bloco no Centro Hospitalar de Setúbal?

O que tem acontecido no Hospital de Setúbal tem a ver com aquilo que está a acontecer por todo o país. Não é uma situação conjuntural, é uma situação estrutural, que aliás, o Sindicato Independente dos Médicos há mais de um ano vem chamando a atenção, porque a verdade é que existe um plano de investimento no Hospital de Setúbal, aprovado há seis anos, no valor de € 8 milhões. Foram mais os anúncios do que os euros que estão aqui anunciados em termos de investimento. Ao mesmo tempo, assiste-se a uma diminuição, tal como acontece no país, dos médicos que trabalham no Hospital de Setúbal. E mais grave do que isso, e eu acho que esse é o principal problema, assiste-se a uma atitude do governo, além da propaganda a que isso já nos habituou, de negação de que existe ali um problema. Portanto, a primeira medida que é necessária que aquele hospital tenha é que o governo assuma que não tem médicos suficientes no Hospital de Setúbal para garantir o acompanhamento a cerca de 300 mil portugueses que pagam os seus impostos e que têm a necessidade de recorrer ao serviço de saúde. Só para dar um exemplo, aliás, de um diretor que se demitiu há cerca de mês e meio, não é uma situação nova. Já estamos a chamar a atenção desta situação há muito tempo. Em obstetrícia, são necessárias 23 obstetras. Neste momento, existem 12, dois dos quais, uma das colegas está em licença de parto, tem 10 pessoas disponíveis. Dessas, oito têm mais de 55 anos e esses colegas garantem a urgência. Portanto, o Ministério da Saúde sabe perfeitamente que tem ali um problema gravíssimo de falta de médicos e que este exemplo da obstetrícia pode-se repetir na medicina interna, na anestesiologia. Qual é a atitude do governo? A atitude do governo tem sido dizer que não há problema nenhum. Ainda muito recentemente, o Dr. Santos disse que tinham contratado dois mil médicos. No périplo da bazuca do senhor primeiroministro, também não sei quantos mil médicos foram contratados. Esquecem-se é de dizer quantos é que se reformaram e quantos é que rescindiram. E portanto, quando a propaganda se confronta com a realidade, a realidade ganha sempre. E portanto, de facto, nós estamos totalmente solidários com a atitude do senhor diretor clínico do Hospital de Setúbal, que aliás, tem sido uma pessoa que tudo tem feito para tentar ultrapassar o problema. E mais uma vez, aguardamos que o Ministério da Saúde faça aquilo que tem que fazer. Em primeiro lugar, reconhecer que tem um problema. E segundo lugar, chamar os sindicatos e com os sindicatos procurar soluções. Eu recordo que a senhora Ministra da Saúde, arrogantemente, não nos recebe desde o meu posse. E por isso, nós que temos sido sempre parte da solução, em vez da parte do problema, já assinámos 36 acordos, fazemos esse apelo a bem dos setubalenses, porque a verdade é que não havendo investimento no Serviço Nacional de Saúde, tendo médicos especialistas que em 40 horas, eu recordo isso, recebem líquidos € 1700. Nem sequer se pode pedir mais trabalho a esses médicos, que já têm, neste espaço de oito meses, mais de 400 horas extraordinárias efetuadas, mal pagas. Portanto, o nosso apelo é o seguinte: que o governo reconheça que tem um problema e que procure soluções.

Jorge Roque da Cunha. O Observador, para além do diretor clínico do Centro Hospitalar de Setúbal confirmou-se ter demitido, confirmou que também o diretor da Unidade de Infeciologia vai apresentar a demissão. Pergunto-lhe: sabe se há mais diretores, consegue confirmar se há mais diretores de unidades específicas que vão também apresentar esta demissão? Para já, o sindicato não tem essa informação.

O que nós sabemos é que, para além do nosso colega diretor da obstetrícia, para além do nosso colega diretor clínico, há uma grande solidariedade por parte dos diretores de serviço daquele hospital. Em termos concretos, não lhe poderei dizer, mas sei que há um espírito de grande união, porque de facto as pessoas juntaram-se e disseram: "Basta, não é possível continuar a trabalhar nesta situação de excesso de trabalho, falta de meios, falta de condições de trabalho". E eu recordo que mesmo ao lado existem unidades privadas que pagam muito mais, tratam os médicos muito melhor e evitam, naturalmente, que se criem situações de rutura. E por isso eu não tenho qualquer dúvida de que nos próximos dias haverá manifestações objetivas de solidariedade por parte de mais diretores de serviço do Hospital de Setúbal.

Portanto, mais demissões, é isso que quer dizer, Jorge Roque da Cunha?

Muito provavelmente, mas como deve imaginar, isso depende fundamentalmente dos colegas. O Sindicato Independente dos Médicos tem alertado e manifesta total solidariedade com o diretor clínico e também com o diretor da obstetrícia, que se demitiu aqui há uns dois meses.