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Qual é o objetivo desta associação?

Foram dois grandes motivos: o sentido de indignação e repugnância pelas declarações que foram apresentadas após o relatório da comissão do Dr. Pedro Strecht. Nós tínhamos muita esperança que as coisas se resolvessem, porém não estávamos nada à espera daquele tipo de declarações, risos e sorrisos. Para nós, foi uma coisa estranha e muito ofensiva. E, no fundo, para dar continuidade, porque mesmo depois da comissão acabar, continuar a ter um espaço em que as pessoas possam denunciar, em que as vítimas possam ser ouvidas e que ninguém fale por nós, porque até nos debates que a gente vê nas televisões e vê nas rádios, é muito especialista a falar por nós. Nós continuamos com uma voz silenciada. Mesmo a imprensa vai perguntar ao clero o que acha, o que não acha, por que acha que nós, por exemplo, pela primeira vez falamos. Nós temos rosto, voz e sabemos responder a essas coisas. Não precisamos que ninguém nos faça de intérprete, porque só nós, melhor que ninguém, sabemos responder a isso e estamos disponíveis para o fazer. E dá-nos uma certa indignação. E muito bem, temos ouvido e visto declarações de muita gente entendida, psicólogos, teólogos, seja lá o que for. Tudo bem, mas nunca nos chamaram para perguntar o que nós sentimos verdadeiramente na pele. Perguntas que são feitas a especialistas e que é quase impossível uma pessoa responder na totalidade, porque não passou por isso.

E há alguma mensagem que queiram deixar às vítimas que ainda não falaram?

Queremos dizer às pessoas que a comissão acabou, já não podem fazer denúncias mais porque acabou o timing da comissão. O objetivo é continuar. Que as pessoas que queiram falar continuem a divulgar, continuem a falar conosco, nós apoiamos. Nós somos vítimas que apoiamos vítimas e contamos com o apoio da sociedade civil, é óbvio. E queremos exigir que a nossa voz seja ouvida, que os nossos direitos sejam efetivamente reconhecidos.

Ficou surpreendida com essa reação do clero? Estavam à espera que eles fizessem outra coisa?

Ficamos todos. Aliás, nós contatamos várias vezes durante o dia. Houve internações, eu tive crises de ansiedade, tive dias que não fui trabalhar, porque eu não estava a acreditar. É uma indignação. As pessoas não pensam minimamente nas vítimas. Tudo gira à volta de quem criou o problema, da Igreja, no timing da Igreja. Por isso é que eu digo que a associação vai ser Vítimas e Sobreviventes. Houve muita gente que ficou pelo caminho, houve muitos suicídios, houve muita gente que não aguentou a dor e teve outro tipo de atos. Eu própria, desde o álcool, drogas. Há muita gente que se perdeu para a dor daquilo que lhe foi infligido. Cada declaração que vinha por parte do clero gerou-nos uma raiva interior que nós resolvemos canalizar para fazermos algo que pudesse ajudar as outras pessoas e reivindicar a nossa dor e os nossos direitos, porque há um sentido de impunidade da Igreja, no chamado Estado laico. Quando lhe dá jeito, responsabilizam um padre. Muitos dos padres já faleceram. O caso do meu, faleceu. Existe uma série de coisas que podemos fazer. Eu acho que não pode prescrever ao final de 20 ou 30 anos, porque muita gente, o meu caso e o caso de centenas de pessoas que eu já ouvi, há um timing para nós contarmos as coisas e às vezes nem há um timing, há uma vida inteira de dizer que tivemos uma infância feliz, como eu conheço algumas pessoas que me dizem: "Cristina, fala em meu nome", porque eu não vou dizer agora ao meu marido, aos meus netos, que tive uma infância que fui abusada, porque eu não consigo, é muita explicação que eu tenho que dar à família. É muito doloroso. Daí eu não perceber qual é a dificuldade da Igreja em acreditar nos depoimentos que foram plenamente validados pela comissão. Independente dos abusos liderada pelo Dr. Pedro e Dr. Daniel Sampaio. Não percebo, nós temos que validar, nós não ligamos para a comissão e dissemos: "Olhe, foi isto, assim, assim." Não, foi tudo validado no tempo, a descrição das circunstâncias, eu consegui descrever a sacristia, o altar. Foi uma investigação que talvez nem alguma polícia conseguisse fazer. E depois a tentativa do adiamento da resolução dos problemas, porque agora não pode ser assim rapidamente, temos que validar. Isto já vai há anos, há décadas, há séculos. Não sei de que tempo a Igreja precisa para reparar os danos. Não sei, não consigo perceber, é muita indignação O estudo da indignação.

Têm sido muitas as pessoas a contactar desde que vocês criaram a associação? Têm sido muitas ou não?

Sim, temos inclusive já depoimentos, porque nós no fundo pretendemos ajudar as pessoas em tudo o que elas precisarem. Nós somos de várias zonas do país. Nós pretendemos, portanto, que a Igreja reconheça, dê apoio psicológico às pessoas, mas não onde a Igreja quer. Porque se eu ou a vizinha do lado que foi abusada, ou alguém em Elvas, ou em Beja, ou em Trás-os-Montes, já tem um psicólogo ou tem uma psiquiatra que a ajudou durante este tempo todo, de repente não vai mudar, porque agora vão mandá-la para o Sistema Nacional de Saúde, onde são 15 minutos cada consulta.

Achou que a reação da Igreja iria ser diferente da que foi?

Eu achei que podia mudar tudo, porque eu achei que a Igreja teria uma excelente oportunidade como católica, que sou, não sou praticante, é óbvio, por isto tudo. Mas achei que a Igreja tinha uma excelente oportunidade até de se redimir e de limpar o seu nome e dizer: "Não, estamos aqui, como eles dizem: OK, errámos, mas não vamos ficar de braços cruzados". Não. Eles erraram, não contactaram as vítimas, não quiseram saber, minimizaram, riram, sorriram, disseram que lhes apeteceu, que uns que já morreram, que não podem fazer nada. Nunca houve uma palavra direcionada para as vítimas. Nunca houve dizer assim: "Ok, vamos tentar contactar com as vítimas e ver o que se pode fazer por elas". E eu acho que a Igreja teve uma grande oportunidade, eu contacto com muita sociedade civil, de se limpar até, de limpar o seu nome e se revigorar, de dizer: "Não, ok, somos todos seres humanos, vamos assumir as nossas responsabilidades", como fez Espanha, como fez França, como fez a Alemanha, como fez os Estados Unidos. Não, eu acho que foi exatamente o contrário. Eu acho que aqui a Igreja perdeu. Para além de tudo, não foi sequer inteligente. "Ok, errámos, tudo bem, mas estamos aqui para redimir, para mudar. Nós queremos mudar as coisas." Mas não, continuaram a falar no velho discurso de: "Vamos ver, vamos averiguar, não é bem assim". Não, todos nós sabemos que é assim. Se quiserem provas, nós temos provas, a comissão tem provas que foi assim. Foi mais fácil a Igreja acreditar em três meninos que viram uma senhora em cima de uma azinheira, Nossa Senhora de Fátima, não sequer puseram isso em questão, e o sofrimento de várias crianças e os depoimentos de várias crianças que fizeram depoimento, nem um foi validado até agora.

O que vocês queriam que fosse decidido de apoio às vítimas?

O que nós queríamos era precisamente aquilo que tivemos esperança que eles iriam fazer, que era tratar da cabeça das pessoas, perguntar o que é preciso, contactar diretamente com as pessoas em anónimo, que as pessoas têm direito à sua privacidade, e ver o que era preciso em termos de cabeça, porque não é fácil ter isso, acordar com isso, dormir com isso, não é fácil. E, portanto, sobretudo o apoio psicológico e que as pessoas continuem a fazer denúncias e sentirem que são ouvidas e sobretudo dar voz às vítimas e aos sobreviventes. E não é fingir que nada se passou. O nosso presidente até no início disse: "Foram só 400 abusos". Não são 400. Há pessoas, por exemplo, que chegaram até nós, é inacreditável, das mais diversas profissões, isto é uma praga, isto não é uma coisa isolada. Isto é uma praga silenciada por vergonha, porque nós ainda achamos que temos culpa. É extremamente doloroso e é uma associação de vítimas para vítimas. Não temos cá ninguém que não tenha passado por isso. Portanto, para as pessoas se sentirem livres. Nós sabemos o que as pessoas estão a pensar. Não julgamos, nós não pomos em questão sequer nada. No fundo, as pessoas podem contar conosco, nós somos uma delas.

Falava do presidente da República e da reação que ele teve ainda antes de saber o relatório, ou seja, no início. Ele já falou convosco, vocês já o contactaram?

O nosso objetivo era, para já, nós pretendemos organizar o mais rápido possível, pedir uma audiência ao Papa. E no início, quando pensámos na associação, a primeira coisa que eu fiz, quando digo eu, meramente somos três fundadores, eu digo eu porque tenho um bocadinho mais de tempo que os meus colegas. E eu pedi uma audiência ao senhor presidente da República, fui contactada por uma das secretárias e expliquei-lhe o assunto e ela disse que nós iríamos receber uma resposta formal, que ainda não veio. Nós só queríamos contar a nossa história na primeira pessoa e dizer que existimos e o nosso propósito, porque sabemos que o senhor presidente é um homem da Igreja também, no sentido de que é um católico praticante, faz questão, e nós também somos católicos. E achamos que devíamos falar, mas continuamos a aguardar a resposta.

Depois da associação estar formalizada, o que é que se segue?

Também temos outras coisas em vista, nos unir a Espanha. Estamos a pensar também em França. Portugal é o país onde não há uma associação de vítimas na Igreja e Espanha tem mais experiência, França e pronto, vamos tentar que nas Jornadas da Juventude haja alguma indignação, alguma manifestação também.

Têm alguma coisa pensada ou não? Para essa altura, fazer o quê?

Fazeremo-nos ouvir. Temos esperança que o Papa nos queira ouvir, se não quiser, nós vamos pedir audiência. Se não quiser, continuamos a fazer em silêncio uma pequena grande manifestação. Vamos esperar a resposta de Espanha.