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Volto a sublinhar os parabéns da minha parte e da parte de toda a Rádio Observador e do Observador pelo prémio.

Obrigado.

Não sei os sentimentos iniciais. Estava à espera, de alguma forma? Está contente?

De modo nenhum estava à espera. É absolutamente inesperado se olharmos para as pessoas, os nomes que até agora receberam este prémio. Sobretudo cá, que são nomes de autores muito conhecidos e também de outros gêneros literários que eu não escrevo. Romance ou poesia. Mas pensando agora os possíveis porquês, as razões possíveis para me atribuírem este prêmio, é evidente que se se trata de um prêmio, como é o caso, para a língua portuguesa, não deverá haver grandes distinções entre os gêneros. Entre a poesia, o romance, o ensaio, a tradução, que eu tenho feito em todos os gêneros. De poesia, de romance, de teatro, de filosofia. Portanto, a recriação, no caso da tradução, por exemplo, é de uma exigência, eu diria, muitas vezes tão grande, diferente, mas tão grande como a de escrever um romance ou um livro de poesia. Não tenho grandes dúvidas sobre isso. O ensaio está mais próximo ainda, porque é um gênero que, sendo cultivado de uma forma livre, como eu tento sempre fazê-lo, não de uma forma acadêmica, mas de uma forma livre, inventiva, se possível, fazendo o pensamento ocorrer e agir sobre o eventual leitor. Esse tipo de ensaio está muito próximo de outras formas também, como o romance, que muitas vezes também é romance de ideias e de pensamento, e a própria poesia. Percebo, e também percebo porque, apesar de tudo, a minha obra é bastante vasta. Neste momento, eu tenho 20 e tal livros de ensaio e muitas dezenas de traduções de nomes muito importantes da literatura universal, quase todos eles. E de alguma filosofia. De maneira que fiquei muito surpreendido, devo dizer, e disse ao ministro da Cultura quando ele me ligou há pouco.

O que lhe disse o ministro da Cultura, além de lhe estender os parabéns, claro?

Disse-me um pouco o que eu lhe estou a dizer também. O ensaio pode ser criativo, como o romance ou a poesia, e a tradução, a mesma coisa. No fundo, nós servimo-nos todos da língua. E é natural que vamos ao mesmo depósito da língua, vamos ao mesmo reservatório, quer se esteja a escrever num género ou outro. E ele achou que eu, até certo ponto, também destacou isso, que eu não tinha pensado. Achou que eu combinava bem estes dois tipos de escrita que têm sido os meus, o ensaio e a tradução, porque praticamente todas as traduções que eu tenho feito têm um ensaio introdutório. E ele diz que isso é um fato que não acontece quase nunca. De fato, o tradutor muitas vezes é esquecido, é meio escondido. Antigamente era mesmo escondido, porque não aparecia o nome dele. Mas hoje, o direito de autor faz equivaler a tradução a uma obra original, portanto, o tradutor tem que aparecer. Mas de fato é mais oculto. E eu ligo quase sempre as duas coisas. Traduzo um grande poeta e faço um ensaio introdutório para o leitor se inteirar mais sobre essa obra e sobre essa figura. E foi isso que ele destacou.

Muito bem. O ministro da Cultura também lhe estende outros elogios. Diz que é um dos pensadores mais acutilantes da arte e da cultura em Portugal e também o júri deste grande prêmio reconhece-lhe também uma obra relevante e singular. Como é que se prostra à frente destes elogios que lhe agora são feitos?

Um prêmio e o parecer do júri, normalmente, se o prêmio é atribuído, pressupõe algum elogio a quem o recebe. E eu tenho recebido muitos prêmios, devo dizer. Eu recebi praticamente todos os prêmios portugueses de ensaio e tradução, alguns mais do que uma vez.

Faltava este?

Faltava este, que é um prêmio que, como eu lhe digo, não estava, de fato, à espera, porque costuma destacar e distinguir os grandes escritores da língua. De cá e do Brasil. De maneira que não estava mesmo a contar. Agora, é evidente que o que eu tenho escrito em termos, por exemplo, do ensaísmo, tem coberto várias áreas, porque, por um lado, elas me interessam, por outro lado, o ensaio é um género livre. O nosso grande ensaísta, o Eduardo Lourenço, sabia disso muito bem e disse muitas vezes. O ensaio tem que ser um gênero livre, tem que se movimentar por qualquer área, qualquer objeto lhe serve. E eu percebi isso bastante cedo também. E tanto posso escrever, como tenho escrito, sobre a obra de um artista, pintor ou escultor, etc, como tenho escrito muito mais, naturalmente, sobre autores do campo da literatura. Ou da filosofia, mas muito mais da literatura. Portanto, o ensaio, como gênero aberto e livre, possibilita tudo isso. E eu tenho cultivado nessa base, de fato.

Tem, de fato, uma obra longuíssima. Foi também assim que o editor da Companhia das Letras também o descreveu. O seu editor fala num prêmio mais do que justo, de um reconhecimento ao longo da vida. E também agora destaca que terá novo livro já em janeiro.

O editor da Companhia das Ilhas, sim, mas há mais livros a caminho também.

Vai jogando em vários cestos.

Sim, porque neste momento penso que tem de ser assim. E eu devo dizer que tenho sido bastante ativo. Não é porque queira ganhar prestígio, isso é natural em mim. Eu sempre achei que era preciso fazer alguma coisa e tornar visível aquilo que se faz. E isso, no meu caso, têm sido livros. Livros originais e traduções. De maneira que não é nada de novo, nem é algum prêmio ou outro que me estimula a fazer mais alguma coisa. Não. Eu faria na mesma e continuo fazendo. De modo que esse livro que está para vir é um livro de ensaios sobre a poesia portuguesa contemporânea, mas tenho um outro que é uma grande antologia pessoal de mil anos de poesia alemã, que eu tenho vindo a traduzir e traduzi agora, recentemente, mais poetas novos e que cobre todo um período de mil anos, desde a Idade Média até hoje. E é assim que eu costumo trabalhar ou agir.

Teremos então um livro, de alguma forma, mais heterogêneo também.

Qual?

Este pela Companhia das Letras, portanto, tem ensaio, mas não só. Das Letras, não, das Ilhas, peço desculpa.

É um livro centrado na poesia portuguesa do nosso tempo, contemporânea, só. Portanto, tem uma unidade. Claro que depois aparecem muitos nomes de poetas e trato muitos poetas, mas é um livro centrado. Não é como o que saiu, que eram aparas, como eu lhes chamei, dispersas ao longo de vários anos e que eu não publiquei, ou se publiquei, muitas coisas não publiquei, outras publiquei, apareceram no jornal ou aqui ou ali, mas não estavam reunidas. Agora, não, é um livro com unidade. É um livro sobre visões globais da poesia contemporânea e destaques para alguns grandes poetas nossos.

Aparas dos dias, a escrita na ponta do lápis, esse livro falava. Exatamente.

O que vem a seguir é que se centra na poesia portuguesa.

Muito bem. Vem daqui a pergunta também que tem de ser feita, talvez a resposta não será tão positiva, mas a resposta também dar-me-á. Será que pode surgir deste grande prêmio um reforço, de alguma maneira, da publicação deste gênero literário, também em que tem uma vasta obra, como temos ouvido, que é o ensaio, não só da sua parte, mas de outros futuros ensaístas?

Não sei, não faço a mínima ideia, nem posso ter uma ideia sobre isso. Não sei se isto será o motivo ou se será motivador para outros autores que escrevam também ensaio hoje em dia, mas pelo que me apercebo, já houve tempos em que havia mais ensaísmo livre presente aqui em Portugal do que hoje. O ensaísmo de hoje, pelo que eu vejo, é predominantemente acadêmico. E esse não foi propriamente o meu caminho, embora eu estivesse sempre na universidade, mas também com um pé cá fora. E o ensaio, que eu a partir de um certo momento comecei a escrever, passado algum tempo depois dos primeiros dois livros, com caráter ainda, talvez um pouco mais acadêmico, o resto libertou-se dessas peias, digamos, e tornou-se um ensaísmo mais livre, um pensamento mais livre. E pode ser que isso seja estimulante, mas não vejo que as pessoas tenham que ir atrás de outros exemplos. Penso que não. Todos nós temos os nossos modelos. Claro que eu estimo muito e tenho dito e escrito, e disse muitas vezes eu próprio, uma figura como a do Eduardo Lourenço, que era a grande referência no ensaio em Portugal. É evidente que sim, ele para mim foi um dos meus mestres de pensamento, sem dúvida nenhuma.

Não sei se será a melhor pergunta a colocar a alguém que dedicou também a vida à tradução, mas julga que de alguma maneira se começa a escolher entre uma edição e outra pela tradução que tem. O público, em geral, já pega em dois exemplares e escolhe porque acha que este tradutor fez um trabalho melhor naquela tradução? Já é um fator distintivo, digamos?

Eu penso que isso acontece já, em relação a certos autores que têm mais do que uma tradução ou certos livros que têm mais do que uma tradução. Eu penso que sim, que o leitor traz suas preferências e traz, eventualmente, as suas razões, tem com certeza, para escolher uma versão e não a outra. Isso já acontece, claramente. E há autores que eu traduzi e que também já tinham sido traduzidos, parcialmente, quase sempre, por outros tradutores. E, no entanto, isso não impede que os livros que eu tenho traduzido tenham tido saída, porque têm, as minhas traduções têm tido uma boa saída.

Era aí que eu queria chegar. O leitor, quando se depara com uma tradução da sua parte, do seu trabalho, do João, sente que escolhe, tem como referência, sempre teve e agora terá mais?

Pode ter mais, com mais este prêmio. Eu já recebi por duas vezes o grande prêmio de tradução, aqui nosso. Recebi outros prêmios estrangeiros também, o prêmio do Estado Austríaco para tradução de autores austríacos, o Musil, por exemplo, e outros. Mas penso que pode ajudar ainda, porque pode haver pessoas que me conhecem, pessoas que não me conhecem, e se o prêmio destaca a tradução, pode ser que isso os motive também a escolher alguma tradução minha.

Fazia-lhe ainda uma última pergunta que tem que ver com onde é que estava quando soube da atribuição deste prêmio, se me puder.

Eu não tinha chegado ainda à casa e como não uso telemóvel, o meu único telefone é este, o meu único contato. E o ministro da Cultura telefonou várias vezes, eu não tinha chegado ainda, só cheguei pelas 18h30, e aí ele voltou a ligar e então lá me deu a notícia. Portanto, só recebi a notícia quando cheguei à casa. Por essa hora.

O ministro da Cultura é que lhe deu, então.

Foi. Foi ele que telefonou para me dar essa notícia.

Como é que ficou? Embasbacado, não.

Fiquei muito surpreso, porque não esperava mesmo. E como lhe disse a ele, não esperava um prêmio como este. Mas é natural que tenha sido ele, porque isto é um prêmio atribuído pelo governo brasileiro e pelo governo português. Portanto, o representante da cultura de um governo português, que provavelmente terá sempre dado a notícia aos premiados.