Após duas horas de avisos e do que os manifestantes chamaram de “terror psicológico”, a polícia colocou fim à Acampada organizada na Praça D. Pedro IV, em Lisboa, com uma forte carga policial. O protesto começou com uma manifestação no Marquês de Pombal às três da tarde, que seguiu até ao Rossio, onde foi organizada a maior Acampada desde o início dos protestos: 130 tendas e cerca de 300 ativistas. A estes juntaram-se ainda centenas de outros manifestantes que foram ficando para lá das 00h30. Depois de uma tentativa de desmbolização e diálogo — que incluiu um pedido de ajuda ao deputado único do Bloco de Esquerda — a PSP avançou com uma intervenção policial que forçou a multidão a abandonar o Rossio em poucos minutos. Os manifestantes foram empurrados para a Praça da Figueira e para outras vias, como a Rua Augusta, que vão dar ao Terreiro do Paço.
Vamos à fita do tempo. Por volta das dez da noite, um casal italiano e a filha aproximavam-se de uma delegada dos campistas, que, de megafone em riste, alertava os presentes para o início de uma Assembleia Popular dentro de poucos minutos. “Why are you doing this?“, questionava Silvia, natural da cidade de Pádua — antes de perceber que a multidão perfilada à sua frente protestava contra o mesmo que os habitantes da sua cidade e de muitas outras em Itália, onde a polícia teve de intervir para conter os episódios de desobediência civil. Em Roma, Bolonha, Milão, Florença e Nápoles, os preços da habitação também têm impulsionado os jovens para as ruas, mas dessas geografias pouco se ouve falar no Rossio. É antes Paris que ocupa a mente dos manifestantes — onde os protestos que se arrastam há semanas.
É na face do monumento a D. Pedro IV que encara o Teatro D. Maria II que os campistas se reúnem pela primeira vez na noite de sábado, perto das 22h15. Discutem os aspetos logísticos de uma Acampada que está mais organizada do que nunca: o planeamento urbano é assegurado por tiras de fita-cola esticadas no chão, que estabelecem arruamentos entre as linhas de tendas. São 130, ao todo, segundo os ativistas anunciam pelo megafone desse lado da estátua. Do outro, uma multidão animada reage ao concerto do rapper de origem cabo-verdiana xullaji.
Os manifestantes divididem-se, como mandam os manuais, em grupos de afinidade, uma espécie de pequena equipa de camaradagem de manifestação. Ou seja: grupos de colegas de protesto. De tempo a tempo, estes grupos fazem uma contagem dos presentes e levantam tantos dedos da mão quantos camaradas têm no grupo. O número total é calculado em “cerca de 300“, o mais elevado desde que o movimento começou a ocupar a Praça do Rossio, afirmam os reincidentes.
▲ Na primeira Assembleia Popular de campistas da noite, os manifestantes fizeram uma contagem das presenças, a fim de perceber como gerir uma possível intervenção da polícia.
INÊS LACERDA/OBSERVADOR
Terminada a contagem e os aplausos, marcou-se nova Assembleia para daí a cerca de uma hora — às 23h30 — com o objetivo de debater, após uma reflexão interna de cada grupo de afinidade, como agir perante uma intervenção da polícia. Entre as opções possíveis contemplava-se a desmontagem das tendas – que privilegiava a proteção do material, o qual já fora sacrificado em noites passadas, segundo os campistas – ou o estabelecimento de uma corrente humana.
“Se a polícia estiver à volta, não significa que vai carregar”, explicou uma manifestante. “Antes de evacuarem o acampamento, eles têm de avisar. Não se deixem levar pelo pânico.” As palavras não antecipavam o que se passou a seguir: duas horas do que os manifestantes consideraram “intimidação”. A Unidade Especial de Polícia decidiu impor uma forte presença física, com um forte dispositivo policial, que incluía cães. Uma corrente policial começou a formar-se no topo norte da praça e as autoridades fecharam o acesso à Praça dos Restauradores e ao Largo São Domingos. Os manifestantes ficaram cercados e já ninguém podia entrar na praça (a saída continuava a ser possível pela Rua do Carmo).
Foi já depois da 1h00 (a 1h00 que antecedeu a mudança da hora) — e de uma segunda Assembleia, que decorreu sem o auxílio de megafones, para salvaguardar a confidencialidade das decisões tomadas —, que a Unidade Especial de Polícia se dispôs então em linha reta, munida de bastões, escudos e outro equipamento de proteção. Nesta altura, o concerto do rapper Valete havia chegado ao fim do outro lado da Praça, onde em poucos minutos, os ativistas desmontaram o palco e encaixotaram o equipamento de som, que foi retirado do Rossio dentro de uma carrinha branca.
Antes, a PSP abordou os manifestantes. “Entendemos que a manifestação cessa à meia-noite e trinta e a partir daí a utilização de tendas no espaço público está sujeita às regras gerais”, explicou o Comandante Iuri Rodrigues a Renata Cambra — que, além de campista, é porta-voz do partido Trabalhadores Unidos. Depois de se afastar do MAS (Movimento Alternativa Socialista), pelo qual foi candidata às eleições legislativas de 2022, a jovem fundou o partido que se autointitula de “revolucionário” e “nasce da urgência de responder aos efeitos das crises estruturais do capitalismo em Portugal”.
▲ A fundadora do partido Trabalhadores Unidos e porta-voz da Acampada, Renata Cambra, falou com os responsáveis da PSP.
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Os manifestantes iam insistindo com a PSP ao direito em continuar ali. “Não estamos a discutir outros casos”, continuou a comitiva da Polícia de Segurança Pública, quando confrontada com o facto de ter havido iniciativas com pernoitas nos últimos anos que não receberam o mesmo tratamento das forças de segurança. Reiterou que os manifestantes deveriam dispersar ou ocupar o espaço público de forma ordeira, sem equipamento de campismo. A resposta à pergunta de um ativista — “Podemos ficar em conchinha?” — foi positiva, mas manteve-se a garantia de que “ou tiramos nós as tendas ou tiram vocês”.
A interpretação da lei continuava, a esta hora, a ser questionada pelos manifestantes, que foram dizendo aos jornalistas que a Constituição de 1976 se sobrepõe à lei de 1974 que impõe as 00h30 como hora obrigatória para o fim das manifestações em ambiente urbano. “Não existem verdades jurídicas, o que a ‘bófia’ usa como argumento jurídico tem como base uma lei ambígua. Se juntarmos 20 advogados, vamos ter 20 opiniões diferentes a este respeito”, dizia um delegado da Acampada, em declarações aos manifestantes.
“Fica difícil perceber em que lei é que a polícia se está a basear para atuar”, afirmou um dos porta-vozes do movimento perto da 1h00 — quando os manifestantes solicitaram um auto de notícia às autoridades. Alegam não perceber que lei estão a violar, ou seja, qual a base legal que justifica o desmantelamento forçado da Acampada, que desejam ver explicada por escrito. “A PSP escuda-se numa lei de 1974 que diz que não pode existir nenhuma manifestação entre as 00h30 e as 6h”, explica Tomás Gonçalves ao Observador. “A questão é que a própria PSP é incongruente com essa ação, porque, um dia, às 8h00 da manhã, estavam aqui a tirar tendas.”
Os drones dos órgãos de comunicação social iam mostrando a dimensão do protesto e do dispositivo policial. Ao nível do chão, destacava-se uma faixa onde se lia: “Numa cidade devoluta okupamos as ruas”. Os manifestantes deram os braços e organizaram-se em correntes humanas ordenadas. Os que ocuparam a dianteira ergueram portas e tábuas de madeira, num desafio da autoridade alinhada alguns metros à frente.
O deputado do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo, tomou a iniciativa de falar com os dirigentes da Unidade Especial da Polícia, cercado por órgãos de comunicação social. A polícia devolveu o desafio. “Vai-nos ajudar, senhor deputado?”, perguntou a PSP. O político respondeu que sim, mas questionou-o várias vezes sobre “a necessidade de mobilizar este dispositivo”. “As pessoas estão cá pacificamente”, acrescentou, antes de se declarar “inteiramente disponível” para mediar uma conversa entre a polícia e a organização do protesto.
▲ O deputado do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo declarou-se "inteiramente disponível" para mediar uma conversa entre a polícia e a organização do protesto.
A iniciativa não teve sucesso, o que levou a PSP a fazer um segundo aviso aos campistas, dando mais três minutos para desmontar as tendas — o que aconteceu cerca da 1h10 (02h10, na “hora antiga”, uma vez que os relógios atrasaram entretanto). “É novamente ordenada a todos os participantes que cessem a reunião e abandonem o local de forma pacífica e ordeira. O incumprimento constitui crime de desobediência”, garantiu a força policial.
Sem desmanchar a formação, os manifestantes debateram o que fazer. António Tonga, um dos ativistas mais destacados, explicou por um altifalante que, se arrumassem as tendas, a polícia não entrava. “A polícia não pede para sair, pede para tirar as tendas”, declarou. Houve quem admitisse desmontar o acampamento. “Se nós ficarmos aqui com as tendas montadas vamos sofrer repressão”, ouviu-se entre os manifestantes. Mas não foi essa a decisão da maioria.
▲ António Tonga, um dos ativistas mais destacados, explicou com a voz amplificada por um altifalante que se arrumassem as tendas a polícia não entrava.
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A carga policial
Já perto das 2h00 (equivalentes às 3h00 antes da mudança de hora), chegou “o último” aviso. A persistência de incumprimento é crime de desobediência, assegura a polícia. “Caso a ordem não seja voluntariamente acatada, a PSP poderá proceder à sua execução coerciva, mediante o recurso aos meios legalmente admissíveis, observando os princípios da legalidade, necessidade, adequação e proporcionalidade. Esta é a última advertência. Cumpram a ordem de dispersão”.
Os polícias começaram então a marcha. Eram 02h05, e, depois de uma hora à espera de ordens, avançaram sobre os manifestantes, que usaram as portas e tábuas de madeira como escudos e tentaram permanecer firmes. O cordão policial foi avançando a empurrar a multidão — atrás dele, a praça, antes apinhada, ficou vazia. Quando os dois grupos (manifestantes e polícias) se confrontaram, ficou difícil perceber com clareza exatamente o que se passou, mas foi evidente a violência das forças de segurança. Os manifestantes tentaram resistir, mas não conseguiram fazer frente à força policial, que conseguiu desfazer a linha de ativistas e provocou alguns feridos. No meio da debandada, logo no início da intervenção, um jovem ficou a sangrar da cabeça e foi assistido pela equipa do INEM que ia na retaguarda da primeira linha da polícia.
A fuga foi anárquica e todas as tentativas de resistência cederam. Uma jovem chorava, enquanto um rapaz dizia: “Não corram, para que é que estão a correr?”. Dirigia-se aos companheiros que, assustados, se deslocavam para a Praça da Figueira pelo acesso rodoviário da Rua da Betesga (o acesso pedonal da Rua do Amparo foi bloqueado). Pelo meio, houve arremesso de objetos e, segundo a PSP, foram feitas 25 detenções.
“Primeiros socorros debaixo da estátua”, informaram os delegados na posse de megafones, e foi nesse local que um grupo considerável de manifestantes se abrigou da polícia. “Empurrar as pessoas é dizer que isto é guerra”, gritou uma manifestante aos polícias enfileirados na ligação rodoviária entre a Praça D. Pedro IV e a Praça da Figueira. “Isto não é guerra! Estão a condenar os vossos filhos à fome!”
▲ Na Praça da Figueira, houve manifestantes que incitaram os polícias a juntar-se à luta, que "não é uma guerra".
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Entretanto, dois operacionais do INEM que conduziam motos abeiraram-se da zona de primeiros socorros, onde existia uma mesa com uma variedade de utensílios médicos, desinfetante, gaze e ligaduras. A maior parte dos feridos já fora reencaminhada para o Hospital de São José, a cinco minutos daquele local, quando os socorristas chegaram. Às 8h de domingo, a PSP havia identificado um total de cinco feridos resultantes dos confrontos em Lisboa. A PSP fala em 11 feridos no total (entre Lisboa e Porto), a plataforma Casa para Viver diz que são 60, alguns deles graves.
▲ Os feridos foram reencaminhados para a base da estátua do rei D. João I, onde existia um posto de primeiros socorros.
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Entretanto, no Rossio — vazio e de acesso impossibilitado por duas correntes de polícias que vedavam a comunicação com a praça vizinha —, a equipa de Higiene Urbana da Câmara Municipal de Lisboa realizava as diligências necessárias para a limpeza do espaço, onde, há instantes, estava disposta uma centena de tendas.
O clima de hostilidade continuou durante mais de meia hora na Praça da Figueira, até ser ordenado novo avanço da polícia, que encaminhou os manifestantes para a Rua da Madalena e, logo, para o Martim Moniz. Os ativistas deslocalizados começaram a fazer barricadas com os contentores do lixo que encontravam pelo caminho, e dirigiram-se para os lados da Mouraria, uma vez que o acesso à Avenida Almirante Reis estava bloqueado por outro aglomerado de polícias. A noite terminou na Graça, onde grupos já dispersos despistaram os agentes de autoridade.
▲ Os ativistas deslocalizados começaram a fazer barricadas com os contentores do lixo que encontravam pelo caminho, e dirigiram-se para os lados da Mouraria.
“Eu estive na última intervenção e não teve nada a ver com esta”, admitiu Maria, uma manifestante de 20 anos, escandalizada com a atitude da unidade especial da polícia. “[Na terça-feira], a polícia avisou às seis da manhã, quando estava toda a gente a dormir. Deu três minutos para arrumarmos as coisas, se não me engano, o que não foi tempo nenhum — as pessoas organizaram-se impulsivamente em cordão sem terem tempo para pensar no que queriam fazer. A intervenção policial foi violenta, não estou a dizer que não, mas não havia cães, não havia gás pimenta.”
“Hoje havia muito mais gente, em vez de cordão optámos por fazer uma barreira. A polícia avisou logo à meia-noite e meia, nem nos deu tempo para pensarmos bem no que queríamos fazer, mas [depois] demoraram duas horas para atuar, o que nos deixou naquele terror psicológico: víamos nas notícias que havia carros, que havia gás, que havia tudo e ainda assim nada estava a acontecer.”
“Nós sabíamos que ia acontecer, os sinais continuavam a ser dados e foi mesmo aterrorizante“, concluiu a jovem. Uma outra manifestante, que filmou em direto vários momentos da noite e também a intervenção da polícia relatou “duas horas e tal de terror psicológico“. No Instagram, Joana Domingos divulgou imagens das lesões provocadas pela polícia, que responsabiliza por “agressões graves” contra “quem [se] manifesta pacificamente”. Apesar disso, garante que no domingo de manhã está de volta ao Rossio. “Amanhã vão para a Acampada de manhã, logo de manhã estamos lá”, afirma.