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Gostava de começar por perceber, já olhando aqui também para uma perspectiva de futuro, se o padre Lino Maia defende a expulsão de sacerdotes no ativo, sobre os quais recai uma suspeita. A comissão vai entregar até o final deste mês uma lista com nomes específicos. São mais de 100 padres, à volta de 100 padres e pessoas ligadas à Igreja. Deveriam ser expulsos, suspensos, pelo menos, o que defende o padre Lino Maia?
Eu sou ainda mais radical do que isso. Primeiro, é preciso comprovar-se que de facto são culpados de cometer estes crimes. Basta um crime. Isso acontecendo, é evidente que têm que ser imediatamente suspensos do exercício de ordens e têm que ser absolutamente incriminados e, portanto, responsabilizados por aquilo que fizeram. E é importante também, eu ouvia o bispo de Angra dizer que não basta pedir perdão a Deus. É preciso, de facto, compensar, pedir perdão, compensar as pessoas que foram vítimas. É preciso fazer justiça.
Está a referir-se a indemnizações.
Também. É claro que há feridas que nem com indemnizações se curam. Mas é importante que tudo se faça ao alcance das pessoas, da Igreja, das pessoas. Tudo se faça para compensar a dor dessas pessoas, o sofrimento dessas pessoas que ficaram marcadas para todo o sempre e não apenas os próprios transportam essa marca para as suas famílias, para os seus vindouros. E, portanto, é preciso, de facto, tudo fazer para melhorar o sofrimento dessas pessoas, para compensar essas pessoas que foram vítimas.
Mas quando falava há pouco, padre Lino Maia, da questão dos padres terem de ser afastados de funções, terem até mesmo de ser expulsos. Esta lista com 100 nomes, mesmo que não haja uma acusação formal, judicial, no que toca aos mecanismos próprios dentro da Igreja, deveriam ser imediatamente suspensos, pelo menos?
Tendo cometido esses crimes, é evidente que sim.
Mas mesmo que só recaia uma suspeita e que ainda se vai investigar. Já há uma investigação aqui feita por parte da comissão que recolheu estes testemunhos e validou testemunhos, mas com isso já seria suficiente para pelo menos verem suspensas as funções?
Havendo suspeita, apenas suspeita, suspensão. Comprovando-se, de facto, que cometeram esses crimes, então, mais do que suspensão, era mesmo a expulsão dessas pessoas.
Estamos num ano importante para a Igreja Católica. O país vai receber o Papa em Portugal, a Jornada Mundial da Juventude. Receia que a imagem fique manchada depois da revelação deste relatório?
Está manchada. Eu sou perfeitamente envergonhado, revoltado, porque de facto, um caso que fosse era inadmissível, porque os padres não são necessariamente absolutamente exemplares em tudo. Agora, têm a obrigação de procurar ser exemplares, até porque crianças, as pessoas confiam nos padres. Normalmente. Os padres falam de valores e, portanto, é importante que, de facto, quando falam de valores, pelo menos tenham, antes de falar, tenham refletido muito e procurem ser exemplares também, cumprir aqueles valores que anunciam. Um padre que fala de Jesus Cristo e anda numa vida desse género é de facto pior que um mau exemplo, é um criminoso.
Hoje o Presidente da República disse que a Igreja tem de fazer uma grande reflexão, tem de mudar de vida. O que é essencial a partir daqui? Há um antes e um depois deste relatório, o que o padre Lino Maia acha que é imprescindível fazer, até porque sabemos que a Igreja também tem um papel fundamental no setor social e o próprio padre Lino Maia está à frente de uma confederação desta índole.
Claro, eu repito que me sinto envergonhado. A Igreja tem que ir até ao fim, não temer, não pode atirar com estes problemas para debaixo do tapete. É preciso, de facto, uma purificação profunda na Igreja. Volto a repetir, nós talvez não precisemos de muitos padres. Precisamos é de padres que procurem ser de facto responsáveis, que procurem viver aquilo que anunciam. E, portanto, é necessária, de facto, uma purificação grande. A Igreja não deve ter medo. Quando digo a Igreja e falo da hierarquia, não pode ter medo de expurgar este cancro, estes males que existem, que deixam uma marca muito negativa, muito forte e que não é com o passar dos tempos que se vai desfazer essa marca.
E já que fala até, padre Lino Maia, da questão da hierarquia, há também este problema do encobrimento. Também deveria haver aqui suspensão de funções, criminalização de pessoas importantes na hierarquia que tenham encoberto estes crimes?
É grave encobrir. Mas aqui há dois tempos. Houve um tempo em que eu não direi que se encobriu, tentava-se no interno da Igreja resolver essas situações talvez com algum angelismo e tentou-se encobrir ou resolver no interno da Igreja. A partir de um determinado momento, encobrir é de algum modo ser cúmplice no crime. E, portanto, agora não há razões para encobrir. Pelo contrário, há necessidade, de facto, de expurgar este cancro e criminalizar quem está neste tipo de situação.