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Com uma notícia, Observador. Uma alerta dos médicos para o sistema que regista casos de Covid-19. A Direção Geral da Saúde decidiu considerar apenas os dados reportados através do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica. Os infectologistas ouvidos pelo Observador alertam que esta decisão pode pôr ainda mais em causa a fiabilidade dos dados. Jaime Nina, especialista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, fala mesmo no pesadelo burocrático. O médico infectologista diz que assim está tudo dependente de que os sistemas informáticos funcionem perfeitamente, o que nem sempre acontece nos hospitais. É o alerta deixado por este médico. No Hospital São João, no Porto, já desistiram mesmo de reportar os casos suspeitos nesse sistema. É o que conta ao Observador a médica infectologista Margarida Tavares, que explica que se tornou impraticável fazê-lo conforme os casos foram aumentando. É precisamente esta médica infectologista que temos agora em direto ao telefone. Margarida Tavares, bom dia. Obrigada pela disponibilidade para estar aqui. Pode explicar-nos porque é que agora é tão difícil dar registo a estes casos?
Olá, muito bom dia. Claro que é uma obrigação de todos os médicos reportar casos de doenças de declaração obrigatória e esta foi assim determinada, e muito bem. E é muito importante que o país saiba e que a Direção-Geral saiba os casos que existem para poder agir. Portanto, nós temos noção clara de que isso é uma obrigação muito importante. Claro que o sistema é um sistema moroso e com o número de casos crescentes que nós tivemos ao longo desta epidemia e que estamos a continuar a ter, é obviamente difícil reportar na hora em que nós estamos a ver um doente num determinado local em que se nos afigura ser suspeito, é praticamente impraticável fazê-lo num serviço de urgência ou num internamento de imediato, porque são muitos casos mesmo. E portanto, estamos a falar no São João de milhares de casos que já foram observados nessas circunstâncias. E por isso, para mantermos a informação essencial, nós tivemos que decidir algum tempo atrás que os reportávamos desfasadamente do momento em que os víamos e que reportávamos os positivos. E foi isso que fizemos. Montamos um sistema de forma a não falhar realmente o reporte de todos os casos positivos que nós reportamos a posteriori.
Ou seja, simplificaram o sistema, sendo que agora há um desfasamento maior entre aquilo que é a realidade e os números que são reportados.
Há um pequeno desfasamento.
Estamos a falar de quê? De um dia, dois dias?
Não, nem tanto. Há um pequeno desfasamento que tem a ver com o facto de nós esperarmos pelo resultado positivo. Portanto, se nós só reportamos os positivos, não reportamos no momento em que vemos o doente, reportamos quando temos o resultado. No dia seguinte, todos os casos que são positivos são reportados. É este o sistema que nós montamos.
Margarida Tavares, nesta nova fase-
Com a ajuda muito generosa de muitos colegas de outras especialidades, nomeadamente medicina geral e familiar, que nos vêm ajudar a reportar, porque são horas e horas e horas do dia, um dia de trabalho, reportar, só para ter ideia, os casos positivos do São João.
São muitas horas de trabalho.
Sim, são muitas horas de trabalho, mas nós compreendemos que é essencial e que é muito importante e que ninguém pode deixar de o fazer. Por isso mesmo é que pedimos ajuda para fazer esta tarefa. Porque nós, infectologistas e clínicos hospitalares, não estávamos a conseguir.
E portanto, estão agora a conseguir encontrar um sistema que permita que o reporte desses dados continue a acontecer. Como é que olha para esta nova forma de contabilizar os casos de Covid-19? Agora a Direção-Geral de Saúde vai considerar apenas os dados que estão neste sistema de vigilância epidemiológica. Faz sentido? Vão mostrar a realidade?
Sim, se todos nós reportarmos. E repare, também há um sistema redundante, e eu aqui tenho que confessar que não sei se está a ser tido em conta, porque há um sistema redundante que é o reporte laboratorial. Portanto, os laboratórios também fazem o reporte, mais ou menos automático, dos casos que são analisados e que tenham resultado. Portanto, o reporte médico é um reporte obviamente mais completo, em que se já responde a questões do foro clínico e epidemiológico, mas o laboratório também tem o reporte e portanto esse sistema é necessário e nós nunca deixamos de o fazer. Às vezes o que eventualmente seria facilitador era ter algo menos longo, porque é um sistema moroso e que nem sempre está a funcionar como deve ser, mas que também por vezes está embaixo. Mas eu não nego a absoluta necessidade de existirem dados, dados fidedignos, e esses dados têm que ser, alguém tem que os dar.
Já, e isso ficou claro, que é até com a colaboração de colegas de outras valências que isso está a acontecer. Margarida Tavares, deixe-me aproveitar para lhe perguntar como é que está a situação no São João. Está a falar de milhares de casos todos os dias que são recebidos.
Não, não estamos a receber milhares de casos.
Milhares de situações, claro, e que depois têm que ser despistadas.
Já tivemos, sim, milhares de casos que foram testados. A situação no São João é uma situação que tem evoluído, mas de uma forma organizada e que estamos a receber os doentes. Temos muitos doentes internados, quer em enfermaria, quer em cuidados intensivos, mas estamos a tratar bem os doentes e estamos numa situação organizadíssima.
Margarida Tavares, muito obrigada por ter estado conosco. A médica infectologista, uma das médicas infectologistas do Hospital de São João.