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Vamos perceber o que está em causa com o presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos. Olá, bom dia, Carlos Cortes, obrigado por se juntar a nós. Como é que se justifica que doentes com casos positivos de Covid-19 ou casos suspeitos possam estar a ser enviados para as urgências?
É um problema que tem sido detectado pelos médicos que trabalham nas urgências. Também é uma preocupação dos diretores clínicos dos hospitais da região Centro, dos diretores da urgência e de outros diretores de serviços que participam com os seus profissionais nas equipas de urgência. E de facto tem sido um problema, já que a linha SNS 24 tem encaminhado alguns doentes com sintomas muito ténues, muito leves, que não seriam doentes a encaminhar para um serviço de urgência ou, nalguns casos, como disse e bem, utentes que não têm nenhum sinal de doença, são encaminhados para o serviço de urgência, por exemplo, para fazerem testes à Covid-19. Ora, penso que toda a gente tem a noção que os serviços de urgência não são postos de colheitas para testagem à Covid-19. Não são postos de colheita para testar nenhuma outra patologia.
Só também aqui para que se perceba, não há nenhuma urgência de nenhum hospital que esteja a fazer isso ou está?
Não. As urgências dos hospitais neste momento estão preocupadas, porque estão a receber pessoas que não têm indicação clínica para serem tratadas no serviço de urgência. Algumas delas podem ter indicação, por exemplo, para marcar uma consulta no centro de saúde ou outras, muitas, para se manterem no domicílio. Por exemplo, nós não podemos mandar para um serviço de urgência uma pessoa que refere que está a tossir há duas horas, que iniciou tosse há duas horas ou que iniciou um período de febre sem sequer ainda ter tomado, por exemplo, medicação para a sua febre. Essas pessoas não podem ser enviadas para a urgência, como não pode ser enviado para a urgência alguém que diga que teve contacto com um doente que supostamente poderia ter Covid-19. E essas situações estão a acontecer e a gravidade deste problema tem muito a ver com o momento que estamos a atravessar.
Dr. Carlos Cortes, neste comunicado fazem referência ao perigo que estas situações podem representar para os próprios doentes que estão nas urgências e que terão muitas vezes doenças graves que podem ser agravadas se forem infetadas com a Covid-19.
O que eu estava precisamente a explicar é que há aqui duas situações, que são duas situações potencialmente graves. A primeira situação tem a ver com a época que nós estamos a atravessar, não só a época pandémica, mas esta época do final do ano, os meses mais frios, propícios ao aumento de infeções respiratórias, que muitas delas, sim, podem ter que ser tratadas na urgência. Portanto, nós termos mais doentes que não são casos urgentes, vai dificultar o tratamento dos doentes que efetivamente merecem ser tratados. E depois nós continuamos, infelizmente, a assistir a muitos doentes com patologias crónicas descompensadas, que chegam à urgência na última fase da sua doença, com grandes dificuldades e, portanto, que merecem mais cuidados dos profissionais de saúde na urgência. Portanto, os profissionais de saúde têm que se concentrar nesses doentes. Não é de todo, por isso aconselhado, estar a enviar doentes sem motivos para ir à urgência, vão sobrecarregar as urgências e não vão permitir que os doentes que efetivamente precisam de cuidados sejam tratados. Muitos doentes ainda têm receio de ir a urgências e deixam descompensar a sua doença até à última. Eles vão à última para a urgência. Portanto, esses doentes é que têm que ser tratados nas urgências, não os outros que não têm motivos para ir à urgência.
Dr. Carlos Cortes é presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos. Na zona centro consegue dizer-nos onde é que esta situação é mais problemática ou é generalizada?
Esta situação é generalizada. Como referi, nós tivemos reuniões, nomeadamente com os diretores clínicos, com os diretores das urgências e todos eles referiram este problema como um dos maiores entraves neste momento para as urgências hospitalares poderem dar uma resposta adequada. E aquilo que nós sentimos, a perceção que nós temos, é que os procedimentos e algoritmos utilizados pela linha SNS 24 não estão minimamente adaptados ao momento atual.
Mas se este envio-
Nós estamos num momento diferente, deixe-me só explicar isto. Estamos num momento diferente. Uma coisa era testarmos no início da pandemia, onde houve, recordar-se-á, uma concentração, uma focalização, sobretudo nos doentes com Covid-19 ou suspeitos de terem Covid-19. Neste momento, nós temos que saber tratar todos os doentes, os doentes graves com Covid-19, mas também as infeções respiratórias e também as descompensações de outras patologias. E os algoritmos, neste momento, que nos parecem que são utilizados, porque eles não são públicos, eles não são do conhecimento de ninguém, têm que ser atualizados. Eles têm que ser tornados públicos para os peritos, para os profissionais de saúde, nomeadamente os médicos, as organizações que trabalham nesta área da urgência hospitalar e da urgência também da consulta aberta dos centros de saúde, poderem contribuir para melhorar os algoritmos da linha SNS 24.
Mas queria só tentar perceber se, de fato, nas urgências não se fazem os testes à Covid-19. Sabemos que não se fazem testes à Covid-19. Há de haver aqui um erro mais profundo do que apenas um erro de protocolo, porque o protocolo não há de indicar a possibilidade de se enviarem doentes suspeitos para as urgências para fazerem testes.
Eu não conheço o protocolo, ele não é público, não sei o que diz o protocolo. Agora, eu não disse que nas urgências não se podem fazer testes à Covid-19. Obviamente, que doentes com sintomas mais graves, que merecem ser vistos no serviço de urgência, podem ser atendidos no serviço de urgência e se houver suspeita terem Covid-19, se faz o teste da Covid-19.
Mas eles não devem ser encaminhados pela SNS 24 para lá para fazerem isso.
Aquilo que eu referi é que a testagem de suspeita a doentes que não têm sintomas para irem à urgência, não tem que ser enviado pra urgência. A urgência acolhe doentes que têm critérios clínicos para estarem no serviço de urgência. Quem não tem critérios clínicos para estar no serviço de urgência, não se pode dirigir a um serviço de urgência. E a linha SNS 24 não os deve encaminhar pra um serviço de urgência, porque aquilo que vai acontecer é que vai sobrecarregar o serviço de urgência e as pessoas que depois verdadeiramente precisam de cuidados urgentes, não vão ter essa possibilidade porque a urgência está completamente saturada. E é isso que nós temos que evitar nos próximos meses. E foi isso que a Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos alertou já há duas ou três semanas o Ministério da Saúde e que infelizmente, passado estas duas ou três semanas, ainda nada foi feito, porque o problema mantém-se exatamente igual.
Muito bem, muito obrigado, doutor Carlos Cortes, o presidente da Secção Regional do Centro da Ordem dos Médicos.