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Temos já conosco ao telefone a Margarida Eira. Faz parte da direção da Federação Internacional de Hospitais e é também vogal da Associação Portuguesa de Desenvolvimento Hospitalar. Boa tarde.
Boa tarde. Muito boa tarde.
Agradeço-lhe a disponibilidade. Qual é o ponto de situação da vacinação entre os países de língua portuguesa?
Nós, de facto, tivemos um evento hoje que contou com a presença de vários colegas de vários países: do Brasil, por exemplo, de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau e de São Tomé e Príncipe. E, em termos gerais, diria eu, podemos dizer que a vacinação está a andar, embora num ritmo naturalmente ligeiramente mais lento do que aquilo que desejaríamos, com alguns constrangimentos, nomeadamente no que diz respeito aos países de maior extensão e com uma população mais elevada, como é o caso do Brasil, que apesar de já ter muitas pessoas com a primeira fase da vacinação, ainda tem algumas por vacinar, embora seja um país, de todos eles, onde a vacinação está a ser mais rapidamente desenvolvida. Mas de facto, nos outros países, nomeadamente Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, as questões geográficas são, em regra, um problema. As questões logísticas são outra questão importante, nomeadamente no que diz respeito às questões do frio, da conservação e da distribuição das vacinas. E de resto, pareceu-me que todos eles tiveram estratégias muito interessantes e muito alinhadas com a OMS. E, portanto, naturalmente, que o programa Covax tem um efeito muito importante neste tipo de países e há doações, para além da OMS, de vacinas de variados países, nomeadamente, por exemplo, em relação a Angola, o governo da China fez uma doação de 200 mil vacinas, o da Rússia de 50 mil, empresas petrolíferas 1 milhão de vacinas, o próprio Banco Europeu de Investimento 2,8 milhões. Mas mesmo assim, dizem eles, ainda precisam mais de nove milhões de vacinas. E portanto, cá está o desafio de países com uma população muito extensa. E que precisam muito da boa vontade e da solidariedade, que certamente é palavra de ordem nessas questões da vacinação, porque não nos podemos esquecer que não basta vacinar os europeus ou os portugueses, temos mesmo que vacinar o cidadão do mundo. Só assim é que poderemos ter um controle e se realmente isso nos permitir ter um controle da doença.
Em termos comparativos, ouvimos aqui neste jornal Ursula von der Leyen, a presidente da Comissão Europeia, anunciar o objetivo de até o final de julho ter 70% da população europeia vacinada. Este é um objetivo que os países, por exemplo, africanos de língua portuguesa, também correm atrás ou é irrealista pensar que se atingirá esta fasquia já este ano?
Eu penso que o ano de 2021 é um ano de grande consolidação, sem dúvida, mas penso que não é possível chegar aos 70%. Dos números que vi ao longo das três horas de evento que tivemos e desta participação muitíssimo interessante de todos os colegas destes países que referi. O primeiro grande objetivo é que no final de 2021, não talvez julho, haja já uma vacinação bastante alargada. Eu estou a olhar agora, por exemplo, aqui pra informação que tenho e que me diz que a terceira fase de vacinação será para outubro de 2021, sendo que a quarta fase será planilhada para 2022. Isto significa que em 2022 ainda fica uma franja da população por vacinar. Mas duvido que consigam 70% até julho.
A capacidade financeira dos diferentes estados é um obstáculo para a aquisição de vacinas, para chegar a estas vacinas? O peso geopolítico e geoestratégico de cada um desses estados é um handicap para que consigam aceder de forma mais rápida a estas vacinas?
Naturalmente, por isso é que o apelo às doações é extremamente importante. Portugal, por exemplo, já doou algumas vacinas, mas naturalmente que estes países, como eu disse, com o número de habitantes muitíssimo superior ao nosso, precisam de verdadeiros colaboradores ou pessoas que estejam disponíveis para doar vacinas ao nível deles, e não ao nível de um Portugal, que é um país com 10 milhões de habitantes.
Claro.
E, portanto, é uma realidade completamente diferente. No Brasil, por exemplo, eles já têm, pelo menos com uma dose, 39,12 milhões de pessoas. Mas para o Brasil, com uma população de 213 milhões de pessoas, obviamente que em termos percentuais temos ainda um caminho por fazer.